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NOSSOS FILHOS SO ESPRITOS
Hermnio C. Miranda

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NDICE
DEDICATRIA APRESENTAO HISTORINHA DE UM LIVRO INESPERADO CAPTULO 1 = OLHOS DE VER E OLHOS DE OLHAR CAPTULO 2 = COISAS PARA DESAPRENDER CAPTULO 3 = COMO REORDENAR O PENSAMENTO CAPTULO 4 = RESPONSABILIDADE CAPTULO 5 = UM FRASCO DE VENENO CAPTULO 6 = HOJE OU DAQUI A MUITOS HALLEYS? CAPTULO 7 = NASCER  QUE  O PROBLEMA, E NO MORRER CAPTULO 8 = PARA QUE NASCEMOS? CAPTULO 9 = REFLEXES SOBRE A ADOO CAPTULO 10 = "BEM, VAMOS LA!" CAPTULO 11 = MISTRIOS DO PROCESSO DE COMUNICAO CAPTULO 12 =  CONVERSANDO QUE NOS ENTENDEMOS CAPTULO 13 = EXPERINCIAS E OBSERVAES DE UMA JOVEM ME CAPTULO 14 = S ESQUECEMOS AQUILO QUE SABEMOS CAPTULO 15 = PESSOAS QUE SE LEMBRAM DO ESQUECIDO CAPTULO 16 = NO  TRAGICO SER MDIUM CAPTULO 17 = DOM BIAL E SEU AMIGO BLATFORT CAPTULO 18 = A DEBATIDA INFLUNCIA DO MEIO CAPTULO 19 = FILHOS DEFICIENTES CAPTULO 20 = DRAMTICO DEPOIMENTO DE UM ESPRITO CAPTULO 21 = A MENINA QUE CHORAVA NA CALADA CAPTULO 22 = NO  PRECISO "TORCER O PEPINO" CAPTULO 23 = PRESENA DE DEUS CAPTULO 24 = COMO CONVERSAR COM DEUS CAPTULO 25 = O PS-ESCRITO QUE VIROU CAPTULO CAPTULO 26 = DO ESTADO SLIDO AO GASOSO CAPTULO 27 = "AT UM DIA!" CAPTULO 28 = O OFCIO DE VIVER CAPTULO 29 = DIPLOMA DE PAI

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DEDICATRIA
Os pais que me desculpem, mas este livro  dedicado, por bvias razes, s mes. No menos bvia  a escolha de Inez para receber, em nome de vocs todas, este singelo testemunho de carinho e apreo. Sem ela no teria sido possvel desenvolver, com xito, o projeto de trazer da dimenso invisvel trs espritos que queramos como nossos filhos, a fim de partilharem conosco o privilgio da vida.

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APRESENTAO
H mais de trs dcadas acompanhamos os escritos de Hermnio Miranda. Situamo-lo entre os melhores escritores espritas, o que lhe d um natural espao alicerado em seu qualitativo trabalho, cujos reflexos no ficaro somente no hoje, mas, tambm, no amanh e no depois. Nestas despretensiosas linhas,  guisa de prefcio, estamos informando aos leitores, sem intenes de elogios pessoais, um valoroso livro que foi pontilhado em sugestivas e bem-elaboradas observaes diante dos acontecimentos da vida. Da o autor ter dado bastante nfase aos fatos da infncia e s memrias pretritas. O livro do nosso Hermnio  eloqente, porqanto atinge o social, e mais do que til, porque busca explicao nas razes de nossa prpria vida. As suas palavras, em positivas demonstraes, conclamam  reconstruo da f, visando seus puros conceitos; alguns movimentos religiosos que deviam enaltec-la, levaram-na quase a runa. A meta do livro  mais profunda que as idias por si s ventiladas; sua ajustada descrio permitir ao leitor alcanar os horizontes de suas demarcaes psicolgicas. As conceituaes simples e clarificantes so um chamamento adequado no burilamento das veredas de nossas necessidades terrenas. O autor escreve, to-somente, com proveito para o leitor. E um dom que lhe pertence, conquistado em suas mltiplas vivncias. Seus pensamentos esto colimados em atenciosas e harmonizadas propostas, a fim de reativarem a tica diante das falncias sociais e mesmo religiosas dos tempos atuais. A personalidade da criana foi traduzida em seus princpios espirituais, o que possibilita uma viso mais precisa da finalidade humana. Em todos os pargrafos percebe-se linfa cativante, construtiva e sempre renovadora, propiciando atencioso convite ao conhecimento e, mais do que tudo, adverte-nos das responsabilidades contidas no caminho infindo da evoluo. Os relatos plenos de vida nos fazem compreender, nas razes da psicologia profunda, as razes do inconsciente ou esprito com suas sugestes telegrficas ao intelecto fsico --a zona consciente ou personalidade. O valor do autor est na procura constante de um alvo -- o conhecimento dos fatos espirituais que participam do nosso dia-a-dia e que muitos ainda desconhecem e no lhes do presena; entretanto, so importantes elos na linha de nossas vidas. O contedo da obra, a parecer entrecortado pelos ttulos, possui rica seqncia de bem-arrumadas idias dando-lhes finalidade. Se observarmos, com ateno, os captulos do livro, apesar de seus prprios e inconfundveis assuntos, possuem um encadeamento, cujo conjunto traduz uma autntica saga. O bom escriba conseguiu, de suas historietas, transform-las em belas e harmoniosas canes; por falarem  nossa alma, as baladas compuseram uma sinfonia. Rio de Janeiro, 24 de janeiro de 1989. Jorge Andra dos Santos

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HISTORINHA DE UM LIVRO INESPERADO
OS LIVROS, COMO AS PESSOAS, os bichos, os pases, as cidades e os povos tm sempre uma histria. Pode at nem ser uma empolgante aventura como a do povo hebreu, mas h sempre o que contar sobre eles. Este, por exemplo, surgiu inesperadamente. Pelo menos eu no contava com ele, nem o tinha na minha programao. Quem o sugeriu foi um amigo muito querido ao meu corao. Sem mais nem menos, no correr da conversa, ele me perguntou certa vez: -- Por que voc no escreve um livro sobre a criana? Tomado de surpresa, no tive muito o que dizer naquele momento. Criana? Eu? E eu entendo de criana? S mais tarde percebi que, sim, era bem possvel que eu conseguisse escrever um texto sobre crianas. Por que no? A essa altura, a maquininha de pensar j estava rodando em silncio. Quando me sentei para escrever, parece que o livrinho j estava pronto em alguma misteriosa gaveta da mente. Ele foi surgindo quietinho e se passando para o papel. Em pouco mais de um ms estava pronto. Outra surpresa me estava reservada: o livro teve uma acolhida generosa por parte de leitores e leitoras. Ao chegar  quarta edio, achei que era chegado o momento de fazer-lhe uma reviso, acrescentar algum material e dar-lhe nova roupagem, mas, principalmente, aproveitar a oportunidade para testemunhar minha gratido aos milhares de leitores que resolveram conferir o que teria eu a dizer sobre nossos filhos. Parece que gostaram.  o que me dizem, pessoalmente ou por carta e telefone. E, naturalmente, foi muito bom saber que tantas pessoas gostaram desta conversa acerca de crianas. Muito obrigado e que Deus nos abenoe a todos. HCM -- Outono de 1993

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1 OLHOS DE VER E OLHOS DE OLHAR
O DR. PIMENTEL CORTOU O CORDO umbilical, enrolou a criana em uma toalha -- era uma menina --, colocou-a cuidadosamente de bruos e passou a cuidar da me, exausta e dolorida. Eu tinha 23 anos de idade e pela primeira vez na vida agitavam-se em mim as poderosas emoes da paternidade, com todas as suas perplexidades, complexidades e expectativas. Aproximei-me do pequeno embrulho sobre a cama para olhar de perto minha filha. Pensava, talvez, encontr-la cochilando, a sonhar, ainda, com os mistrios de suas origens. Foi uma surpresa observar que tinha os olhinhos escuros bem abertos, atentos e acesos, a me contemplarem de maneira enigmtica e inquisitiva. Lembro-me perfeitamente das ru-guinhas traadas na testa exgua, pelo esforo que fazia ao levantar a cabecinha careca, como se perguntasse a si mesma: -- Ser que esse sujeito vai ser um bom pai para mim? Cad minha me? E agora, que vo fazer comigo? Quanto tempo vou ficar aqui, enrolada neste pano? Quanto a mim, no me recordo dos pensamentos que transitavam pela minha mente, mas sei que eram muitos, e desencontrados. Acho mesmo que tinha tantas perguntas quanto ela, talvez mais, no sei. Uma coisa era certa: Ana-Maria acabava de chegar. (Eu sabia o nome dela porque j o havamos escolhido com a devida antecedncia. Embora houvesse um nome masculino de reserva, de certa forma eu `sabia" que seria uma menina. Mistrios esses que hoje entendo melhor do que ento.) Que ela chegara, no havia dvida, pois estava ali, olhos curiosos, prontinha para comear a explorao do novo mundo em que viera viver. Minha dvida era outra, ou seja, de onde vinha aquele ser? A lgica me dizia que se chegara aqui  porque partira de algum lugar, onde estava antes de vir. Onde, porm? Aprendera eu, em tempos, agora remotos, da infncia, que Deus criava uma alma novinha em folha para cada criana que nascia, mas eu tinha j minhas dificuldades com essas e outras informaes. No havia como questionar a sabedoria, a grandeza e o poder de Deus, que ali estavam patenteados, mesmo porque, obviamente, no poderamos, ajovem esposa e eu, ter criado aquela pessoinha a partir do nada. Eu aprenderia mais tarde que o ser humano descobre coisas, mas no as cria, nem as inventa, e ns, certamente, no havamos inventado aquele embrulhinho morno de gente que atentamente me espiava. Quem seria aquele ser? De onde vinha? O que pretenderia da vida? Como seria ela? Que papel me caberia, e  sua me, na vida que apenas comeava? Ou ser que no estava comeando e sim continuando? Eu no sabia. Mas queria muito saber, ter respostas para essas indagaes e muitas outras, de que nem me lembro ou sequer tenham sido formuladas, mesmo porque, como disse, eu mergulhara em um turbilho de inesperadas e insuspeitadas emoes. Estas, contudo, no me suscitavam temores ou inquietaes e sim uma estranha alegria, ao perceber que tambm eu tinha condies de participar, com minha modesta contribuio, daquele deslumbrante espetculo de renovao da vida. As dvidas ficavam para mais tarde. Um dia eu saberia, devo ter pensado. Por enquanto, havia providncias a tomar, neste lado de c da vida,

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onde os seres chegaram h mais tempo e andam, falam, riem e choram. Mas bem que eu gostaria de ter algum ali que me dissesse alguma coisa sobre o que estava acontecendo diante de mim. Este , pois, o livro que eu gostaria de ter tido em minhas mos, no s naquele distante 22 de agosto, mas antes, quando Ana-Maria era apenas projeto, bem antes que seu marcador pessoal comeasse a registrar o tempo vivido na Terra. Algumas das minhas perguntas ainda teriam de esperar um bom punhado de anos. Outras, creio eu, precisaro de mais alguns sculos, pois nosso Pai Maior no parece ter grande pressa em explicar-nos aquilo que ns ainda no temos condies de entender. O apstolo Paulo, que sabia das coisas, escrevendo aos seus amigos de Corinto, disse o seguinte: -- E eu, irmos, no vos pude falar como a (seres) espirituais seno como a carnais, crianas em Cristo. Dei-lhes leite a beber e no alimento slido porque ainda no o podeis suportar. Nem ainda agora o podeis, porque ainda sois carnais. Como os corntios, eu era carnal e acho que nem o leite me fora dado, porque tudo quanto eu podia ver  que, de alguma forma, havia um pouco de mim naquele tpido bolinho de gente,  espera de que a tomssemos nos braos e, depois, pelas mos, lhe mostrssemos como era nosso mundo. E j sentia, nas profundezas da memria do futuro, aquele dia em que ela no mais precisasse das nossas mos e partisse para viver a sua vida. Ns sempre tememos um pouquinho. No  que falte confiana,  que paira sempre, a por cima, um vago temor de que o filhote ainda implume no consiga acertar com os invisveis caminhos do cu, que tem de percorrer no vo ainda incerto. Mas isso no chegava a ser uma tristeza, porque, afinal de contas, a vida era dela e no nossa, e como eu aprenderia posterior-mente, antes de sermos filhos uns dos outros, somos todos filhos de um s Pai. E Ele tem sido muito competente, pois sempre deu boa conta de ns. No era tristeza; nada disso! Apenas uma saudade antecipada, que me espreitava das dobras do desconhecido, tal como os olhinhos escuros de AnaMaria. Parece que eu via, tambm, no futuro, umas ruguinhas de preocupao. Ou seria apenas a exaltada imaginao de um jovem pai de 23 anos, mal sado de sua prpria infncia? Seja como for, de alguma forma misteriosa e inarticulada, pois no tinha palavras para expressar tudo aquilo, eu confiava em Deus e na menina dos atentos olhinhos. Como tambm confiaria em duas outras pessoas que, sem eu saber, estavam  nossa espera, do outro lado do vu, que quela altura me ocultava importantes mistrios da vida. Deus no julgara oportuno revelar-me coisas para as quais eu ainda no tinha "olhos de ver". Meus olhos eram apenas de olhar... Nem Deus, nem meus filhos me decepcionaram, porque muito me ensinaram desde ento; mas s vezes penso que as coisas teriam sido mais fceis se eu tivesse lido algo parecido com este livrinho que o leitor tem agora em suas mos. S que, se assim fosse, eu no teria tido a alegria de escrevlo e no estaria hoje to grato a Deus por ter-me permitido faz-lo. E a AnaMaria, Marta e Gilberto por terem me ensinado muitas das coisas que nele foram colocadas e que, sem eles, teriam passado despercebidas ao desatento

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olhar do apressado viajor.

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2 COISAS PARA DESAPRENDER
AS CRIANAS NO VM COM ESSES bem-acabados folhetos impressos que explicam minuciosamente como funcionam os aparelhos que adquirimos nas lojas. No trazem um manual de instrues, que ensine como devemos abrir o pacote, tirar o aparelho da caixa, instal-lo e faz-lo funcionar. Tambm no trazem certificado de garantia, que se possa apresentar ao representante autorizado, juntamente com a nota fiscal, caso haja algum defeito de fabricao. Dizem at que um jovem pai, que acabara de retirar mulher e filho do hospital, levou-o de volta, para reclamar, porque ele estava com um vazamento... Com o tempo, vamos aprendendo a resolver os pequenos problemas que surgem. E os grandes tambm, se e quando surgirem. Ns nos valemos da experincia dos mais velhos, geralmente uma das avs, ou ambas, tias, vizinhas e, naturalmente, dos mdicos, quando a situao assim exige. Para facilitar as coisas, comprei o livro de um famoso pediatra da poca, que substitua razoavelmente bem os manuais de instrues que acompanham os eletrodomsticos de hoje e ajudam a solucionar ou prevenir alguns dos "enguios" mais comuns. Recebamos dele ensinamentos minuciosos sobre a maneira de cuidar do beb durante seus primeiros dias de vida: o banho, o sono, a roupa, a alimentao, bem como a interpretao de certos sinais tpicos que marcam as diferentes etapas de desenvolvimento: os primeiros passos, os dentinhos de leite, peso, altura, hbitos de higiene e inmeros outros indicadores. Toda essa logstica tem por objetivo proporcionar aos pais uma criana sadia para que nela se desenvolvam as faculdades mais nobres de inteligncia, vivacidade e boas maneiras. Para que ela seja, enfim, uma pessoa til a si mesma e  sociedade na qual est comeando a viver, e na qual vai se envolvendo, cada vez mais, na escola, em seus diversos nveis, e depois, no trabalho, no relacionamento com a famlia, com os amigos e tudo mais. Realmente, todos esses elementos so da mais alta relevncia e de imediata aplicao naquilo que constitui praticamente um projeto, que  o de criar uma criana proporcionando-lhe todos os elementos possveis a uma vida decente, equilibrada, normal e feliz. Isso, contudo,  apenas parte do problema, uma vez que continuam sem resposta numerosas questes que podem ocorrer  me e ao pai da criana. Em suma, temos livros de obstetras, psiclogos, psiquiatras e pediatras, mas onde encontrar obras escritas por "espiritiatras"? Enquanto o problema consiste apenas em dar este alimento ou aquele, dormir  tarde ou de manh, vestir ou no agasalho, ventilar o quarto de dormir, tomar sol, tratar um resfriado ou dor de barriga, as opinies variam, mas podemos chegar a um consenso, adaptado s nossas prprias condies e, obviamente, s do beb. Acabamos acertando com o alimento que melhor "concorda" com ele, como dizem os americanos, ou com seus hbitos de repouso e atividade, bem como o tipo de roupinha que melhor lhe convm. Mas, e ele mesmo, como pessoa humana, como individualidade, como ? Por que  temperamental ou aptico? O que o faz pacfico e sereno ou agitado e mal-humorado? Por que ele gosta de algumas pessoas e no de outras? Por que chora tanto ou no chora, a no ser excepcionalmente? Por que custa

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tanto a falar ou a andar, ou a aprender a ler? E, mais tarde, por que gosta de matemtica e no de lnguas, ou vice-versa? E, acima de tudo, quando se tem dois ou mais filhos, por que so to diferentes entre si, uma vez que gerados todos a partir do mesmo conjunto de genes e criados, no lar, sob idnticas ou muito semelhantes condies? Afinal, quem so nossos filhos, o que representam em nossas vidas e o que representamos ns na vida deles, alm do simples relacionamento pais e filhos? Longe de respostas mais claras e objetivas, ou, pelo menos, de hipteses orientadoras, o que observamos, no dia-a-dia das lutas e alegrias da vida,  uma coletnea de clichs obsoletos, ou seja, idias preconcebidas e cristalizadas que de to repetidas assumiram status de verdades inquestionveis, que vamos aceitando meio desatentos, sem procurar examinlas em profundidade. Por exemplo: o Marquinho "puxou" o jeito enrgico da me, ou a Mnica herdou a inteligncia do pai, ou o gosto da tia pelas artes plsticas, ou, ainda, o temperamento da av Adelaide. A primeira coisa a desaprender com relao s crianas  a de que elas no herdam caractersticas psicolgicas, como inteligncia, dotes artsticos, temperamento, bom ou mau gosto, simpatia ou antipatia, doura ou agressividade. Cada ser  nico, em sua estrutura psicolgica, preferncias, inclinaes e idiossincrasias. Somente caractersticas fsicas so geneticamente transmissveis: cor da pele, dos olhos, ou dos cabelos, tendncia a esta ou quela conformao fsica, predisposio a esta ou quela enfermidade, ou a uma sade mais estvel, traos fisionmicos e coisas dessa ordem. Quanto ao mais, no. Pais inteligentssimos podem ter filhos medocres, tanto quanto pais aparentemente pouco dotados podem ter filhos geniais. Pessoas pacficas geram filhos turbulentos e, vice-versa, pais desarmonizados produzem crianas excelentes, equilibradas e sensatas. Qualquer um de ns poder citar pelo menos uma dzia de exemplos de seu conhecimento para testemunhar a exatido dessas afirmativas. Por isso, repetimos, cada criana, cada pessoa,  nica,  diferente, e embora possam ter, duas ou mais, certas caractersticas em comum ou muito semelhantes, cada uma delas  um universo prprio, como que individualizado. At mesmo gmeos univitelinos, ou seja, gerados a partir do mesmo ovo, trazem, na similitude de certos traos fsicos, diferenas fundamentais de temperamento e carter que os identificam com preciso, como indivduos perfeitamente autnomos e singulares. Vamos logo, portanto, definir um importante aspecto: os pais produzem apenas o corpo fsico dos filhos, no o esprito (ou alma) deles. Outra coisa convm desaprender logo, para abrir espao para novos conceitos, mais inteligentes, racionais e competentes acerca da vida. Esses espritos ou almas que nos so confiados, j embalados em corpos fsicos, que ns mesmos lhes proporcionamos, atravs do processo gerador, no so criados novinhos, sem passado e sem histria! Elesj existiam antes, em algum lugar, tm uma biografia pessoal, trazem vivncias e experincias e aqui aportam para reviver e no para viver. Esto, portanto, renascendo e no apenas nascendo.  espantosa a reao que esta idia simples e genuna tem encontrado

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para impor-se como verdade que . O prprio Cristo ensinou que Joo Batista era o profeta Elias renascido, embora no reconhecido pelos seus contemporneos. Em outra passagem, falando a Nicodemos, admirou-se de que o ilustrado membro do Sindrio ignorasse verdade to elementar, ou seja, a de que  preciso nascer de novo para alcanar a paz espiritual,  qualJesus dava o nome de Reino de Deus ou Reino dos Cus. Eis, portanto, a pura, simples e inquestionvel verdade: nossos filhos, tanto quanto ns mesmos, so seres humanos que j viveram antes. Trazem em si todo um passado mais ou menos longo de experincias, equvocos, conquistas, realizaes e, conseqentemente, um programa a executar na vida que reiniciam junto de ns. Da mesma forma que no nos desintegramos em nada ao morrer, tambm no viemos do nada quando nascemos de novo na carne. Tudo  continuidade, etapas que se sucedem, em ciclos alternados, aqui e alm. Anotem a, portanto: somos todos seres criados por Deus, sim, mas h muito, muito tempo, e no no momento da concepo ou na hora do nascimento, para "ocupar" um novo corpo fsico. Esta idia constitui a viga mestra de toda a arquitetura da vida, o conceito-diretor que nos leva ao entendimento dos seus enigmas, mistrios e belezas imortais. E, portanto, esta idia, este conceito, esta verdade que escolhemos para alicerar este livro, a fim de ordenar o que precisamos saber -- dentro das limitaes humanas -- para entender a vida e, tambm, ajudar aqueles que nos cercam a entend-la melhor. Tudo aquilo, mas tudo mesmo, que se chocar com esta verdade, tem de ser desaprendido, se  que estamos realmente empenhados em fazer da nossa vida um projeto inteligente de evoluo rumo  perfeio espiritual. Se o bisav Joaquim foi um sujeito ranzinza e impertinente e vier renascer como seu filho, provavelmente voc vai ter uma criana um pouco difcil e impaciente (a no ser que ele tenha se modificado um pouco nesse nterim). Da mesma forma que, se uma pessoa de bom corao e pacfica renascer como sua filha ou filho, voc ter uma criana calma, bem-humorada, simptica, desde os primeiros momentos de vida, ainda que ocasionalmente apronte uma choradeira homrica se estiver com fome, sentindo calor ou frio, ou porque deseja que suas fraldinhas sejam trocadas. De que outra maneira iria ela pedir isso? Se lhe fosse possvel falar, ela diria, educadamente: --Mame, voc quer fazer o favor de trocar minha fralda? -- Ou: --Voc no est se esquecendo de me dar a papinha das dez horas? Deixe-me, pois, dizer-lhe, para ajudar a armar o esquema de como cuidar do seu beb: ele  um esprito adulto, inteligente e experimentado, aprisionado em um corpinho fsico que ainda no lhe proporciona as condies mnimas de que precisa para expressar todo seu potencial. Isto se dar com o tempo, como voc poder observar,  medida que a criana vai crescendo e se revelando como realmente . Ento, sim, quem disser que ela "puxou" ao birrento bisav Joaquim  possvel que tenha razo, porque, de fato, pode ser o prprio, de volta. Ou se ela for aquele remoto parente genial que escreveu livros, comps msica ou foi um brilhante poltico, ento voc ter o privilgio e a responsabilidade de ajudla a expressar-se novamente como ser humano; provavelmente, em outro campo de atividade. Em verdade, responsabilidade voc tem sempre, seja qual for o filho ou filha, brilhante ou deficiente, amigo ou no to amigo, sadio ou

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doente, compreensivo ou rebelde. Por alguma razo, que um dia voc saber, ele foi encaminhado, atrado ou convidado para vir para sua companhia. Dificilmente ser um estranho total, cujos caminhos jamais tenham se cruzado com os seus, no passado. No se esquea de que tambm voc  um ser renascido.

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3 COMO REORDENAR O PENSAMENTO
VIMOS, H POUCO, QUE A IDIA do renascimento ir servir, neste livro, para reordenarmos o pensamento em relao vida. Vamos ver mais algumas coisas que precisam ser desaprendidas para desocupar lugar para o que se torna necessrio reaprender. Por exemplo, olhamos um beb e logo dizemos: -- Parece um anjinho inocente! -- Pode ser at que seja mesmo um anjo de bondade e ternura, de sabedoria e amor e, em casos raros, excepcionais, um ser muito prximo da inocncia, se considerarmos esta como ausncia de malcia, no a pureza de quem nunca tenha errado. No aquele que nunca tenha cometido erro algum, mas o que j se redimiu dos que cometeu, j corrigiu suas ms tendncias, j superou suas deficincias e alcanou o Reino de Deus, que  a construo da paz em si mesmo. A criana  um esprito que nos foi confiado por algum tempo. Raramente  um ser moralmente perfeito e acabado. No , tambm, a no ser em casos raros, um demnio de maldade chocante. A angelitude e os mais tenebrosos graus de transviamento moral so extremos que, ao contrrio do que costumamos dizer, no se tocam. Aquele que percorre milnios vivendo, vida aps vida, na sistemtica prtica do erro deliberado, acaba descendo to fundo na escala de valores morais que fica com um longussimo e penoso caminho a percorrer para retornar. E difcil, mas no impossvel, a tarefa da conquista da paz. No h anjos, nem demnios, apenas criaturas que muito se aperfeioaram ou muito se transviaram, mas que continuam sendo seres humanos. As almas ou espritos designados para animar os corpos fsicos de nossos filhos so seres em evoluo, como ns mesmos e aos quais certos vnculos ou compromissos nos ligam por esta ou aquela razo. Todos ns temos mesmo de morrer, mais cedo ou mais tarde. Nisso no h o que discordar, nem  preciso demonstrar to bvia realidade. Pois bem, morre o corpo fsico descartvel que fica por a, enterrado, cremado ou o que seja, enquanto o esprito parte para o outro lado da vida. Daqui a algum tempo -- pode ser uns poucos anos ou alguns sculos --, quando voltarmos  Terra para renascer em outro corpo, vamos ser anjos de pureza ou demnios de maldade somente porque recomeamos uma vida na carne, na condio infantil? Nada disso. Seremos aquilo que fomos at ento, com todo o aprendizado anterior, as experincias, as conquistas e as tendncias que at ento cultivamos, sujeitos, contudo, a uma condio limitadora que no temos como superar por algum tempo, ou seja, a de que no podemos expressar tudo quanto somos e sabemos, atravs de um corpo fsico que ainda est em elaborao, mesmo depois de desligado do organismo materno. A criana tem de fazer o reaprendizado da vida, nas condies em que renasceu. Ter de familiarizar-se com o novo corpinho que recebeu, aprender a lngua de seu povo, bem como retomar conhecimentos gerais, habilidades manuais, como desenho, escrita, manipulao de instrumentos, aparelhos, ferramentas e tudo mais. Ter, enfim, de readaptar-se ao meio em que veio viver, bem como s pessoas que a cercam, como pais, irmos, parentes, vizinhos, amigos, etc., muitos dos quais pode ser at que j conhea de vidas

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passadas. E inevitvel e necessrio esse reaprendizado porque a lembrana consciente do passado vai se apagando, para ela, no momento em que comea a despertar no corpo fsico. A conscincia de um lado da vida geralmente acende quando se apaga a do outro lado. E como se fssemos dotados de um interruptor com dois terminais. Ao acender uma lmpada, voc apaga automaticamente a outra. Para lembrar-se de seu passado, precisa desligar-se do corpo fsico, quando dorme, por exemplo, ou est desmaiado. Nesses momentos, a conscincia no est presente. Na verdade, a conscincia no se apaga de um lado para acender do outro, apenas se desloca de um lado para outro, ou seja, vai junto com o esprito, que tem o hbito de desligar-se, parcial e temporariamente, do corpo fsico que lhe serve de abrigo e instrumento. Esta  mais uma informao que precisamos ter em mente em nosso relacionamento com a criana, durante sua fase de aprendizado, ou, como dizia Plato, de reaprendizado, j que, no entender do filsofo, aprender  recordar o que j se sabia de vidas anteriores.

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4 RESPONSABILIDADE
J QUE FALAMOS EM RESPONSABILIDADE, convm acrescentar que uma atitude consciente e responsvel no deve ser deixada para ser tomada apenas depois que a criana nasce, mas, pelo menos, nove meses antes. Em verdade poderamos recuar ainda mais o alcance de tal atitude, pois a maternidade e a paternidade exigem de ns um mnimo de preparo, que, obviamente, no d para ser adquirido apressadamente em poucos meses. A gerao de um corpo humano para que nele se instale um esprito  uma deciso grave, pejada de implicaes e conseqncias. Representa um convite formal a algum quej existe numa dimenso que nos escapa aos sentidos habituais e que estamos propondo receber, criar e educar, oferecendo-lhe nova oportunidade de vida. O beb no deve ser fruto de uma deciso de momento, de um impulso impensado, de uma unio fortuita, como que alienada. Homem e mulher, geralmente jovens, que se unem, mesmo que seja por uma nica e passageira vez na vida, devem estar atentos ao fato de que pode surgir daquele momento fugaz uma nova existncia para algum. H condies razoveis para receber essa nova pessoa e cuidar dela e por ela responsabilizar-se, no mnimo, pelo perodo de duas dcadas? Acima de tudo: a criana  desejada,  bem-vinda, h espao para ela no corao daqueles que esto promovendo seu reingresso na vida terrena? Se um mnimo de condies satisfatrias no existe, duas situaes da maior relevncia podem ocorrer: ou a criana ser uma pessoa rejeitada antes mesmo de emergir do ventre de sua me, ou esta ficar tentada a recorrer ao aborto para livrar-se do que passou a ser considerado um "acidente" infeliz. Se voc no desejava o filho ou se sentia ainda despreparado (ou despreparada) para t-lo, por no ter condies psicolgicas e materiais satisfatrias, ento deveria ter pensado nisso antes, no depois que ele est a caminho. No assuma, perante o filho que est para nascer, uma atitude hostil, negativa, de rejeio ou de desamor e indiferena. Se foi iniciado o processo da gestao, sejam quais forem as condies, alguma razo existe para que aquele esprito tenha se aproximado para acoplar-se ao corpo fsico em formao no ventre de sua futura me. O mais provvel  que se trate de algum anteriormente ligado a ela ou ao pai, ou, ainda mais certo, a ambos. Trata-se de um ser vivo que tem uma tarefa a cumprir junto deles. A gestao de um corpo fsico pode resultar de uma aventura irresponsvel, mas o esprito que nele veio habitar no resulta de mero jogo de imponderveis e acasos --  uma criatura humana preexistente, que se prepara para mais um estgio na carne. No o despache de volta, no comece a agredi-lo com pensamentos negativos de rejeio e desamor, no o hostilize. Voc j no est bastante adulto e fisicamente amadurecido para ger-lo? Pois, ento, deve ser psicologicamente amadurecido para assumir, nem que seja sozinho ou sozinha, as conseqncias do impulso inicial. Vamos repetir aqui -- e o faremos at a exausto -- o fato irrecusvel de que a criana  um ser humano, com direitos, obrigaes, responsabilidades e planos, como voc, eu, ou quem quer que seja. No pense voc que, por ser um mero feto, com poucas semanas ou meses de existncia no ventre da me, "aquilo" seja apenas "uma coisa" viva. Nada disso,  uma

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pessoa, to gente quanto voc. Dificilmente voc saber, com suficiente preciso, de quem se trata e quais as vinculaes anteriores que os unem. Pode ser, contudo, algum amigo muito querido de outras eras, que vem para testemunhar-lhe seu amor, para ajud-lo na difcil tarefa de viver, para fazer-lhe companhia, quando chegarem os cinzentos anos de solido e velhice, ou at para ser o suporte material de sua vida.  certo que poder tambm ser o adversrio de outrora, que conserva ainda rancores e desafeies pelo que, obviamente, voc lhe causou. Vem, contudo, para que possam ajustar-se na conciliao, para que se perdoem mutuamente e tenham condies de seguir, dali em diante, em paz, como amigos fraternos, ou, pelo menos, no mais como adversrios. Seja qual for a situao, no  por acaso que aquele esprito se aproxima de voc, em busca da oportunidade do renascimento. Seja qual for a condio, cabe aos pais assumirem a responsabilidade daquilo que, de forma deliberada ou inconseqente, provocaram, isto , o incio de um processo de gestao. Teria muitas histrias sobre isso para lhes contar, mas para no alongar demais o livro selecionarei umas poucas, das mais ilustrativaS, todas absolutamente autnticas, pois no existe aqui uma s palavra de fico. CASO "A" -- A filha recm-casada de um amigo meu estava tendo problemaS com a gravidez. Embora desejosa de ter filhos, acabava abortando (involuntariamente,  claro). Parece que o esprito (ou espritos) reencarnante estava um tanto indeciso, inseguro ou temeroso. Em decorrncia do trabalho de que eu participava semanalmente num grupo medinico, fiquei sabendo algo da histria pregressa daquele ncleo familiar. Em outros tempos, na Europa do sculo 16, o atual pai da moa, meu amigo, fora uma figura de certo relevo na poltica e recebera para acabar de criar e educar, sob condies que no me ficaram claras, uma menina, filha de algum que confiou nele para essa delicada tarefa. Tambm no fiquei sabendo, ao certo, o que ocorreu, mas o suficiente para concluir que o tutor no deu conta satisfatria da sua tarefa, causando profundo desgosto ao pai da menina. Decorridos os anos normais da existncia, todos eles morreram e as questes sob o ponto de vista humano, ficaram, aparentemente resolvidas, como pensa muita gente. Mas no  assim que se passam as coisas alm dos nossos insuficientes cinco sentidos. Passado o tempo -- sculos, no caso --, a menina confiada ao eminente poltico renasceu como filha deste, agora vivendo no Brasil. Ficamos com o direito de imaginar que como ele no dera conta razovel de seu encargo de tutor, na Europa, h cerca de quatro sculos, resolvera assumir a integral responsabilidade de pai da menina, em nova existncia. A foi a vez do antigo pai da menina, l, tambm renascer como filho de sua antiga filha e, portanto, como neto do homem importante a quem ele confiara sua menina. Esto entendendo a trama? Esse foi o esquema armado para resolver o conflito criado entre eles e que permanecera sem soluo. O problema  que o homem ficara to magoado com a pessoa a quem entregara sua filha que agora relutava em aceit-lo como av. Ser que ele no iria causar-lhe outro desgosto? Nesse nterim, a filha do meu amigo ficara grvida novamente e outra vez corria o risco de perder a criana por um aborto involuntrio. Como eu, indiretamente, soubesse das razes de todo aquele drama de bastidores, mandei um recado um tanto enigmtico para meu amigo, futuro vov, mas que

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ele entendeu perfeitamente. O teor do recado era mais ou menos o seguinte: "Amigo, o esprito que est para renascer como seu neto sente-se temeroso porque, no passado, teve problemas com voc. Procure `conversar' mentalmente com ele, dizendo-lhe que tudo passou e que voc o receber, hoje, com muita alegria e amor. Diga-lhe que confie e venha em paz. Da em diante, as coisas correram bem. A gravidez teve bom termo e o garoto nasceu forte e bonito. Diz-me o av que se do muito bem... CASO "B" -- Este foi narrado em livro escrito pelo carssimo amigo dr. Jorge Andra dos Santos, mdico, escritor, conferencista e pesquisador de muitos mritos.  a histria verdica de um casal de meia-idade que julgando mais que suficiente o nmero de filhos que tinha trazido para a vida na Terra resolveu no mais enviar "convites" para ningum. A providncia indicada era a de ligar as trompas da senhora, ainda com alguns anos frteis pela frente. Por imprevista contingncia, um dos mdicos faltou no dia da cirurgia e o prprio marido, tambm mdico, foi solicitado a fazer parte da equipe, a fim de suprir a ausncia do colega. Ele testemunhou, portanto, ao vivo, todo o procedimento operatrio e viu quando as trompas, aps cortadas, tiveram as pontas implantadas no devido local. Nenhuma possibilidade havia, portanto, de gravidez posterior quela cirurgia radical. Ou ser que havia? Ainda hoje no se sabe exatamente o que se passou, mas o certo  que a senhora engravidou novamente. Parece at que "algum" promoveu uma cirurgia invisvel para restaurar as trompas, costurando-as competentemente, e colocando-as novamente a funcionar, para que mais um esprito pudesse retornar  carne. Jorge Andra, autor do relato, sabe at de quem se trata, ou seja, quem , ou melhor, quem foi, em sua ltima existncia, o esprito que se ligou a esse corpo, gerado sob to excepcionais circunstncias. Muito conversaram eles, enquanto a criana era "apenas" um esprito, do outro lado da vida. Na verdade muitos desses entendimentos e "negociaes" ocorrem nos planos invisveis, entre futuros pais e futuros filhos, que participam, em conjunto, das programaes e acertos que do continuidade a antigos relacionamentos mtuos que se projetaro pelo futuro afora. Se tudo correr bem e se todos tiverem bastante juzo, como dizia minha me, o futuro ser melhor. Se se repelirem ou agravarem as condies do relacionamento, ento que se pode esperar seno um cortejo de dores e desajustes? O caso "A" no  um exemplo tpico de rejeio paterna ou materna ou, sequer, da parte do av. O esprito  que se mostrava hesitante e receoso de enfrentar as dificuldades que, talvez, nem chegassem a se concretizar. O caso "B", narrado por Jorge Andra, no foi de rejeio -- pelo contrrio --, dado que o esprito foi recebido com amor e est sendo cuidado com o maior carinho e desvelo, bem como respeito pelas suas excepcionais condies de personalidade. Foi apenas um exemplo do inesperado, dos recursos de que se valem os poderes invisveis para interferir quando lhes parece justificvel e necessrio. Dir-se-ia que houve aqui uma interferncia com o livre-arbtrio do casal que, aparentemente, no desejava mais filhos. Mas quem pode assegurar que eles no hajam, de modo consciente e deliberado, decidido "abrir exceo" para mais um? J na dra. Helen Wambach (Life before life) vamos encontrar uma quantidade de relatos de pessoas renascentes que se sentiam de fato rejeitadas. Devo esclarecer, antes, que a eminente psicloga americana

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promovia regresses de memria  fase pr-natal e colhia depoimentos vivos do maior interesse, como ainda veremos mais adiante neste livro. (Ela morreu em 1985.) -- Eu estava perfeitamente consciente (diz uma pessoa) de que minha me no me queria e fiquei surpreso e desapontado ao descobrir isso. -- (...) eu sabia que minha me teve vergonha de mim porque eu era um beb feio. -- (..) eu sabia que minha me realmente no me queria, por causa das inevitveis responsabilidades. Na verdade eu s consegui entender a tristeza e a desventura do meu nascimento aps a realizao desta experincia (a da regresso da memria). -- (...) eu temia as perspectivas diante de mim. Sentia que os mdicos e as enfermeiras eram impessoais e frios. Faltavalhes compaixo pelos temores e pelas dores de minha me. Lembro-me da perturbao que me causou essa falta de emotividade por parte daqueles que cuidavam de ns. A esto alguns exemplos dramticos de como os bebs so gente mesmo, desde o primeiro instante de vida, que afinal de contas no  o primeiro, mas apenas um momento na continuidade, pois a vida  incessante,  como o fluxo de um rio e no poa-d'gua. Conversvamos, porm, ainda h pouco, sobre duas opes perante a gravidez indesejvel ou indesejada: uma delas  a desastrosa atitude da rejeio, que acabamos de comentar, ainda que resumidamente; a outra, no apenas desastrosa,  criminosa. Chama-se aborto.  do que iremos tratar a seguir.

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5 UM FRASCO DE VENENO
SE VOC RETIRAR O RTULO de um frasco de veneno mortal e colocar outro, de gua potvel, no mudar em nada o con-tedo do frasco, que continua sendo uma droga letal. Nada, pois, de eufemismos e meias-palavras para tentar esconder uma dura e feia realidade: o aborto  assassinato premeditado, que jamais passar despercebido s leis divinas, que tudo regem. No se deve esquecer, contudo, de que essas mesmas leis oferecem os recursos necessrios  correo dos nossos erros. A criana cujo corpinho est sendo gerado, seja ele um mero ajuntamento das duas ou quatro clulas iniciais,  um esprito adulto e consciente, dotado de todo um acervo de experincias anteriores, vividas em outras existncias terrenas. Se voc interrompe a trajetria do corpo em formao, esse esprito, ainda que no totalmente ligado ao pequeno feto, receber o impacto fsico e emocional da violncia e da rejeio. E como se voc tivesse batido a porta no rosto daquele que veio  sua soleira, em noite escura, de temporal gelado, em busca de abrigo, alimento e calor humano. Em busca de acolhida e amor que, na certa, voc at lhe deve. O aborto produz, invariavelmente, uma seqela de trgicas propores e gravidade, tanto para a me ou os pais que rejeitaram o esprito que se preparava para renascer, como para ele, especialmente se ele ainda se encontra em situao de desequilbrio emocional ou mental. Se o esprito  uma pessoa serena, bem ajstada e amorosa, as conseqncias podem ser minimizadas, ainda que no ignoradas pela lei divina; mas se o esprito  rancoroso, dado  violncia e, como ocorre com freqncia, o casal faltoso lhe deve alguma forma de reparao, precipita-se, usualmente, um processo de conflito, perseguio, vingana e acirramento de antigos rancores, que em vez de se abaterem ressurgem com renovado vigor. Situaes assim podem durar sculos a fio, at que as pessoas envolvidas sejam despertadas para a pacificadora realidade do amor fraterno. No h sada para as situaes criadas pelo crime do aborto seno pelas vias do amor, da renncia, da aceitao. Problemas que poderiam ter sido resolvidos, no sem dificuldades, mas com boas possibilidades de xito, persistem, agravados e mais envenenados que nunca. O aborto resulta sempre de grave erro de avaliao. A pessoa que o provoca, ou seja, a mulher grvida, por sua prpria iniciativa, o parceiro masculino que exerceu sua presso direta ou indireta, o mdico ou a curiosa que o pratica, todos se envolvem nas responsabilidades do crime, cometido, alis, contra uma pessoa que no tem, sequer, como defender-se, ou, pelo menos, fugir -- ela  sumariamente destroada. No que deixe de existir, como ser imortal que , mas tem cancelada sua oportunidade de uma nova existncia, para a qual certamente tem um programa a cumprir. Disponho, em meus papis, gravaes e vivncias, de histrias dramticas em torno do problema do aborto. Em decorrncia do trabalho de muitos anos junto aos espritos com os quais mantemos antigo intercmbio, ficamos conhecendo tragdias realmente aflitivas. Dizamos, contudo, que o problema resulta de erro de avaliao e comentamos o aspecto de que h um envolvimento inevitvel, de imprevisveis conseqncias, em qualquer procedimento abortivo. Realmente, as leis

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humanas ignoram, toleram ou at admitem e incentivam o aborto, mas no lhe retiram, jamais, a condio de um crime contra as leis naturais, ou melhor, as leis de Deus, que exigem a reparao para que se mantenha a harmonia csmica nelas implcita. As pessoas que solicitam ou promovem o aborto parecem totalmente desinteressadas das conseqncias do ato. Seja por ignorarem de fato a amplitude de suas implicaes, seja porque, embora suspeitando ou conscientes delas, obstinam-se em cometer o delito, que as leis humanas no configuram como crime suscetvel de punio, a no ser quando praticado por pessoa legalmente inabilitada. Diz-se que, nesse ponto, a lei "evoluiu", admitindo e at estimulando hoje o que h algum tempo condenava, mesmo em profissionais da medicina, legalmente habilitados  interveno abortiva sem causa relevante. Pessoas irreligiosas ou francamente materialistas no tm a menor dvida ou escrpulo ao extinguirem uma vida que ensaia seus primeiros passos no mundo da matria densa. Para essas, o feto  apenas um conglomerado celular descartvel, de vez que ainda no teria sido dotado de razo, sentimento, emoo e inteligncia. Ou seja, ainda no  uma pessoa humana, tal como entendem isso. So muitos, por outro lado, os que no acreditam mesmo nessa histria de alma, esprito, sobrevivncia ou renascimento e, por isso, nem esto preocupados com o que possa acontecer. Para eles, a morte --do feto ou do adulto --  acidente inevitvel que encerra, para sempre, a atividade do ser humano, que mergulharia no poo escuro e sem fundo do no-ser. A realidade  bem outra. A cada feto rejeitado ou beb estrangulado corresponde um esprito vivo, consciente, sobrevivente, imortal. Muitas vezes, o corpinho em formao no tem mais do que umas poucas centenas de gramas de peso e logo  esquecido, depois de ter sido arrancado ou expulso do organismo materno, mas o esprito que se preparava para utilizar-se daquele corpo continua vivo e consciente, em alguma dimenso das muitas realidades invisveis que nos cercam por toda parte. Ele estar l,  espera daqueles que lhe negaram a sagrada oportunidade da vida, seno com uma atitude agressiva e ameaadora, pelo menos com o perplexo olhar e o dramtico silncio da censura ou da mgoa. No poucas vezes, comea a perseguir e atormentar seus assassinos, enquanto esses ainda se encontram na Terra, dando continuidade  vida fsica e, quem sabe, promovendo outros abortos contra outros espritos ou at contra o mesmo que, porventura, tenha voltado para nova tentativa. Este  um dos erros de avaliao -- achar a pessoa que aborta que, removido o feto, estar livre para sempre do problema, porque aquilo  apenas uma bolinha de carne ainda disforme. Mas eu dizia h pouco que disponho de depoimentos impactantes de espritos que se deixaram envolver nesse trgico equvoco. Como no dispomos de espao para relacionar alguns deles, creio oportuno optar pelo relato de apenas um, alis publicado em "A Folha Esprita", de So Paulo, de onde o leitor interessado poder resgat-lo se desejar conhecer melhor os detalhes. O esprito que nos veio contar este caso era o de uma mulher. Na existncia anterior, abortara sistematicamente todas as vezes que engravidara. No tipo de atividade profissional que exercia, entendia que os filhos no

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passavam de estorvos a serem removidos com a possvel presteza. Como iria ela cuidar deles? No sacrifcio dirio e noturno, cansando-se, envelhecendo, estragando as mos e, principalmente, o corpo, que era seu mais precioso patrimnio? Nada disso. Pareceu-lhe mais cmodo eliminar logo os bebs, assim que davam incio  formao do corpinho a eles destinado, ou mais tarde, em alguns casos, j nascidos. Foram oito ao todo! Ao retornar ao mundo espiritual, pois todos ns morremos inapelavelmente um dia, encontrou-os l,  sua espera, e foi recebida com inesperada hostilidade por parte deles, todos revoltados com sua atitude criminosa, que lhes havia cancelado sumariamente as expectativas de vida que nutriam. Muito tempo ficou ela  merc de seus rancores e agressividades, pois o Cristo no disse que aquele que erra fica escravo do erro? E que de l no sai enquanto no pagar o ltimo centavo da dvida?  dvida mesmo, igual a qualquer outra no plano terreno. S que esta, mesmo disposto a pagar, no o livra da cadeia; voc a resgatar, com seu trabalho, suas canseiras, suas lgrimas, para que um dia volte a sorrir, aps ter reconquistado a confiana daqueles perante os quais falhou. Para encurtar a histria: a moa foi socorrida, no mundo espiritual, compreendeu a extenso e gravidade de seus erros e decidiu aceitar (Que outro remdio teria?) as condies que lhe foram concedidas, pois nada  imposto, a no ser em casos extremos. As condies eram as seguintes: ela renasceria numa famlia pobre, na Argentina, primeira filha de um casal. O pai, desajustado, seria um alcolatra de difcil recuperao (ela prpria o havia desencaminhado, em existncia anterior). Depois dela, nasceriam todos os oito espritos que ela recusara pelos abortos praticados na vida anterior. Em seguida, a me dela e das demais crianas morreria, deixando com ela a responsabilidade de criar, com o suor de seu rosto e o trabalho de suas mos, os oito irmos que ela rejeitara como filhos. De contrapeso, ficava, ainda, o paiproblema, antigo amante, igualmente rejeitado. Seria bela e saudvel, mas sua situao no lhe permitiria casar-se, embora tentada pelo assdio de mais de um pretendente. Se o fizesse, desorganizaria todo o plano assentado. Sua tarefa era mesmo a de criar as crianas que outrora recusara. O que teria sido bem mais fcil antes, pois naquele tempo dispusera de recursos materiais, teria de ser feito agora, literalmente, com sangue, suor e lgrimas, mesmo porque seus irmos --  exceo de um deles -- ainda viam nela a me assassina de outrora, no a irm sacrificada de hoje, que tudo fazia para sobreviverem juntos e honestamente. Para esse projeto, de dificlima execuo, ela contaria com dois importantes auxlios: o da me, antiga companheira espiritual sua (j fora sua me em outra oportunidade) e que se propusera a vir ter, por ela, os filhos que ela recusara; e o irmo maior, o segundo da srie, que, a despeito de ter sido tambm rejeitado por ela, no lhe guardara rancor, por ser um esprito mais equilibrado e evoludo. A algum que lhe explicou todo esse plano de recuperao, ela perguntou: -- Mas por que no me deixam casar e ter normalmente os filhos, em vez de t-los como irmos-problema, to trabalhosos e hostis, sem o apoio de um

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marido? Isto no era possvel, explicaram-lhe, primeiro porque ela precisava criar as crianas com seu trabalho pessoal, que lhes recusara anteriormente, e no com o trabalho do eventual marido. Segundo, porque os espritos dos filhos rejeitados ainda sentiam por ela muita mgoa e at rancores no superados; a gestao deles criaria dificuldades insuperveis. A vista do antagonismo filho e me, muitos poderiam abortar repetidamente, frustrando os planos de reconciliao. Estava, pois, colocada diante de uma situao inescapvel. Poderia, claro, recusar tudo aquilo, pois ainda lhe restava o sagrado direito do livrearbtrio, mas isso representaria apenas um adiamento embrulhado num agravamento dos problemas, que permaneceriam sem soluo. At quando? Mais um sculo, ou quatro, ou um milnio? Alm do mais, quando seria possvel reunir novamente, num s ponto, todas as personagens da trgica histria e encaminh-las  recuperao? No havia, pois, alternativa mais aceitvel ou mais suave. Ela suspirou fundo e se conformou. Diante dela desdobravam-se as imagens de um futuro que, praticamente, j existia, mas que ainda estava por viver. Ela podia v-lo e senti-lo nas mos, que o rude e exaustivo trabalho consumiriam, no belo corpo que as canseiras deformariam, nas suas frustraes, nas suas nsias e renncias, no desencanto de uma vida de prisioneira, atada ao peso de tantas responsabilidades, no desamor e ingratido de irmos hostis, sempre a cobrarem-lhe mais do que ela poderia dar-lhes, nas agonias e angstias da solido no meio de tanta gente cheia de rancores, que lhe caberia converter em amor, entendimento, compreenso e perdo. Essa  a histria da querida amiga. Ela chorou comigo uma lgrima de arrependimento e sorriu um sorriso molhado de esperana. Despedimo-nos como pai e filha, pois ela sonhava, ainda, nascer por aqui mesmo, onde pudesse, seno ser minha filha, pelo menos encontrar-me para que tambm pudesse ajud-la em suas dificuldades, pois confiava em mim e nos demais companheiros. Eu a receberia de corao aberto, porque sua histria me comoveu, mas ela tem um programa a cumprir e eu j estou vendo, no horizonte desta existncia, o claro deslumbrante do pr-do-sol... Se a leitora ou o leitor dispuser de um momento, faa por ela uma prece comovida para sustent-la em suas lutas regeneradoras. *** Devo acrescentar, para esclarecer, que essa narrativa foi escrita e divulgada a pedido do prprio esprito para que outras mulheres soubessem -- disse ela -- um pouco mais a respeito da tragdia do aborto. Reitero a observao inicial de que as leis divinas esto sempre prontas a oferecer-nos oportunidades de resgate e reajuste; elas no so punitivas, e sim educativas, mas que so severas, so.

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6 HOJE OU DAQUI A MUITOS HALLEYS?
O LEITOR OU A LEITORA DESABITUADO de certos conceitos que estamos aqui utilizando -- esprito, alma, renascimento, imortalidade e outros -- pode estar pensando que no fao mais do que propaganda de minhas idias, ficando para segundo plano a histria de ajud-lo a entender melhor esse grande mistrio da vida que  o nascimento de uma criana e sua criao. "Isso no passa de pregao esprita", voc pode estar pensando. Vamos esclarecer primeiro esse aspecto, para que possamos ir adiante. De fato, sou esprita, mas no  por isso que estou escrevendo tais coisas e, sim, porque a verdade  exatamente assim e no seria honesto de minha parte pensar uma coisa e lhe dizer outra. Tambm sou pai, meus filhos tambm tm a me deles, ej comeam a ter seus prprios filhos, meus netos. Sei muito bem como essas coisas so importantes e que, em hiptese alguma, devem ser objeto de especulaes ociosas, mentirinhas e meias-verdades. O fato puro e simples  que tanto seus filhos como os meus so gente de verdade, que j existiu antes e vai continuar existindo depois que ns morrermos, e eles tambm. Admito at que voc, leitor ou leitora, no esteja preparado para concordar comigo. No importa. No vamos deixar de ser amigos e de nos respeitarmos por causa disso. Mesmo porqu, no adianta. Se a coisa fosse mentirosa, eu no estaria ganhando nada com ela. Sendo verdade, como , tanto faz acreditar como no, aceitar ou no, concordar ou discordar, um dia chegamos l, pois a verdade  paciente, tanto quanto a caridade, como dizia o nosso Paulo.  certo que j h mais de um sculo os espritas vm falando quase sozinhos acerca de tais coisas, como reencarnao, por exemplo. A idia nem  nova, nem foi inventada pelo sr. Allan Kardec. Posso garantir-lhes at que o professor Rivail -- que era esse o nome dele -- custou um pouco a aceitar essa informao, que lhe parecia um tanto estranha. Mas,  como estava dizendo h pouco: quando a coisa  verdadeira, acabamos chegando l. Como o professor era um homem culto e inteligente, chegou mais depressa do que seria de se esperar em uma pessoa despreparada. Afinal de contas a verdade  sempre uma coisa inteligente, e quanto mais custamos a compreendla e aceit-la, mais tempo perdemos, vagando pelos atalhos da vida. Passados os anos ou os sculos, um dia nos convencemos, olhamos para trs e pensamos, l com nossos botes (se ainda os tivermos): "Ah! meu Deus, quanto tempo jogado fora!" E a paramos para pensar, e vemos que o melhor  comear logo o trabalho quej poderia estar pronto h muitas e muitas luas... Ou, quem sabe, h muitos Halleys, uma vez que cada quatro Halleys somam cerca de 300 anos, ou, para ser mais exato, 304... Minha proposta para voc que me l, portanto,  a seguinte: voc tem todo o direito de rejeitar tudo isso, fechar o livro ou at jog-lo fora, mas se o fizer, guarde bem na memria esse dia, porque ir lament-lo em algum ponto futuro, em desconhecida encruzilhada de tempo e espao. Estou certo de que no vai ser um momento muito alegre, porque voc estar muito zangado consigo mesmo. E mais: jogue-o fora de forma que algum possa peg-lo. Talvez o livro acabe nas mos de quemj esteja pronto a aceitar a verdade que voc rejeitou.

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Em suma, se a coisa  espiritismo ou no, no vem ao caso, o que importa  o seguinte: isso  verdadeiro ou no? Eu digo que sim, mas no apenas eu, so muitos. Nessa altura da vida, nem so somente os espritas que esto falando de tais coisas. E  a que eu estava desejando chegar. Deixemos, por um momento, os conceitos colhidos na literatura esprita e vamos ao livro da dra. Helen Wambach, sobre o qual fizemos ligeira referncia ainda h pouco. Antes, deixe-me explicar que essa senhora era uma psicloga americana, devidamente credenciada pelo seu PhD, e que pelo processo da regresso da memria conseguiu reunir o mais importante acervo de dados cientficos acerca dos antecedentes espirituais do ser humano at agora. A regresso da memria consiste, basicamente, em colocar uma pessoa em transe hipntico ou magntico e faz-la recuar, gradativamente, no tempo, em busca de lembranas do passado. A pessoa comea a lembrar-se de coisas mais recentes, passa pela juventude, infncia, vai ao momento em que nasceu, ao tempo em que estava ainda no ventre de sua me, ao perodo em que viveu como esprito e, finalmente, s vidasj vividas, por a, nesse grande mundo de Deus. O leitor interessado poder ler meu livro A memria e o tempo, no qual o tema  tratado com a amplitude necessria a um conhecimento mais aprofundado `do que seria possvel aqui. A tcnica da induo da dra. Wambach consiste em propor ao paciente uma "reduo de seu potencial eltrico das ondas cerebrais a cinco ciclos por segundo". Segundo ela, embora o paciente no saiba, ao certo, do que se trata, sua "mente interna" sabe. Eu diria que  o esprito que sabe, mas isso no importa muito. Depois de obtido o desejado estado de induo e relaxamento, ela d incio  sua bem-elaborada tcnica de coleta de dados.  sobre o livro dela, intitulado em ingls Life before life, que vamos conversar nos captulos seguintes, dado que, conforme combinamos, voc, leitor, e eu, autor, ficamos de priorizar dados no oriundos da literatura esprita e sim de livros puramente cientficos.

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7 NASCER  QUE  O PROBLEMA, E NO MORRER
AS EXCELENTES PESQUISAS da dra. Wambach foram montadas em cima das seguintes perguntas bsicas, formuladas depois que a pessoa regride ao perodo imediatamente anterior ao do seu nascimento: 1) Foi sua a deciso de nascer? 2) Algum o ajudou a decidir? Em caso positivo, qual o seu relacionamento com o conselheiro? 3) Como voc se sente ante a perspectiva de viver a prxima existncia? 4) H alguma razo pela qual voc tenha escolhido nascer na segunda metade do sculo XX? 5) Foi voc que escolheu seu sexo? Se foi, por que voc decidiu ser homem (ou mulher)? 6) Qual o seu objetivo nesta vida? 7) Caso voc tenha conhecido sua me em alguma existncia anterior, que tipo de relacionamento tiveram? 8) E seu pai? Se voc o conheceu em alguma existncia anterior, que tipo de relacionamento tinham? 9) Concentre-se no feto. Voc sente que est dentro dele, ou fora? Ou entrando e saindo? Em que momento sua conscincia passa a funcionar no feto? 10) Voc tem conscincia das atitudes e sentimentos de sua me pouco antes de voc nascer? 11) O que voc sentiu ao emergir do canal do nascimento? Como se pode verificar, a dra. Wambach no est fantasiando, nem se dirigindo a uma "coisa", a uma abstrao ou hiptese, ela est falando com uma pessoa normal, inteligente, consciente, responsvel, capaz de observar, concluir e expor suas idias coerentemente, como qualquer adulto razoavelmente sensato e equilibrado. Ela no se dirige a um beb que acaba de ser criado e que, portanto, no teria conscincia anterior de si mesmo, nem qualquer tipo de relacionamento com me, pai e outras pessoas.  uma pessoa que sabe dizer se decidiu espontaneamente viver outra existncia na carne ou se foi induzida (ou at forada) a faz-lo. Lembra-se das pessoas com as quais conversou, programou sua vida e aconselhou-se quanto aos seus objetivos, necessidades e projetos.  algum que ponderou seriamente acerca das responsabilidades de uma nova existncia; que por alguma razo pessoal, bem clara e explcita, resolveu nascer nesta poca e no antes ou mais adiante; que decidiu por um sexo ou outro, tambm por opo consciente; que, usualmente, conhece, de outras vidas, sua me e seu pai e com eles j manteve relaes de parentesco, amizade ou at desavenas que precisam ser sanadas; que tem conscincia de sua ligao a um feto, ou seja, a um corpo fsico em formao. Mais do que isso tudo, porm, tem condies de captar, por algum processo ainda obscuro, os sentimentos de sua futura me, de seu pai e demais pessoas, com relao a ele, esprito renascente. E que, finalmente,  capaz de observar todo o processo, analis-lo com perfeita lucidez e concluir, ordenadamente, o que acha de tudo aquilo. Creio que precisamos examinar com mais vagar alguns desses dados cientficos, uma vez que so importantes demais para a eles nos referirmos apenas em duas ou trs frases apressadas. As informaes neles contidas so

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de vital significao para todos ns e, por isso, proponho conversarmos mais adiante sobre o assunto. Antes, porm, parece oportuno passar os olhos em alguns dados estatsticos colhidos pela brilhantssima dra. Helen Wambach. Noventa por cento de seus pacientes mergulharam nesse fantstico depsito de lembranas e emergiram com algumas surpresas para si mesmos e para a competente psicloga. Uma delas: a de que morrer at que  bom, nascer  que no  nada interessante. "As duas mortes que tive, nas duas vidas (de que me recordei) esta noite, foram experincias muito agradveis", escreve uma pessoa. "Nascer  que parece uma tragdia". Quem diria, hem? Outra inesperada informao para a dra. Wambach: a de que nem um s de seus 750 pacientes (quela altura) sentia que o "verdadeiro ser interior de cada um fosse masculino ou feminino". O que nos leva  evidncia -- por mim referida em O espiritismo e os problemas humanos -- de que a libido  uma forma de energia e o sexo, em si mesmo, a resultante de uma polarizao de tal energia. Coloquemos mais uma de tais informaes-surpresas: a conscincia de cada ser no provm do feto, no faz parte integrante dele; apenas est nele. "Eles existem, totalmente conscientes, como entidades independentes do feto." Na realidade o "corpo fetal  restritivo e limitador", e muitos preferiam "a liberdade da existncia sem o corpo". Em outras palavras, era melhor no ter nascido. O recm-nascido "sente-se como que segregado, reduzido e solitrio, em comparao com o estado intermedirio entre uma vida e outra". Mas, voltemos aos dados estatsticos. 1) 81% dos pacientes disseram que eles prprios haviam decidido renascer. 19% afirmaram que no tinham lembrana de nenhuma deciso ou que nada lhes ocorrera dizer, quando questionados com relao a esse ponto. 2) Do total pesquisado, 68% declaravam-se relutantes, tensos ou resignados ante a perspectiva de viver nova existncia. Somente 26% consideravam a nova oportunidade com certo otimismo, mas, curiosamente, no estavam interessados em fazer da vida um contnuo fluxo de prazeres e, sim, nutriam esperana de alcanar alguma conquista evolutiva. 3) 90% dos pesquisados informaram que as mortes foram experincias agradveis, mas que os nascimentos constituem momento de desventura e tenso. 4) Ainda quanto aos objetivos planejados para a vida a ser vivida, no observou a cientista nenhum projeto especial de desenvolver talentos ou faculdades, mas, "prioritariamente, aprender a relacionar-se com os outros e amar sem ser exigente e possessivo". Deste grupo, 28% tinham conscincia de haver trazido uma espcie de "mensagem"  humanidade, no sentido de que  preciso ser solidrio com o semelhante e "desenvolver o consciente superior", ou seja, o conceito de que somos todos, primariamente, seres espirituais. Os pacientes da dra. Wambach foram "praticamente unnimes em rejeitar qualquer inteno voltada para o aumento da riqueza, do status e do poder. 5) 87% das pessoas consultadas -- uma taxa elevadssima --declararam haver conhecido seus pais, amantes, parentes e amigos de uma ou outra vida anterior. Nenhuma consistncia encontrou a doutora em apoio s teorias freudianas do complexo de dipo e do complexo de Electra, segundo os quais os filhos experimentam forte atrao sexual pelas mes e as filhas pelos

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pais. (Observao nesse sentido consta, igualmente, de meu j citado livro "A memria e o tempo.") O relacionamento anterior pode ter sido o mais diversificado possvel. Como se depreende de tudo isso, nascer ainda constitui, para a maioria, uma espcie de provao, mais um dever do que um prazer. Morrer, ao contrrio,  um processo de libertao, quanto ao confinamento na carne. A mais dramtica concluso, porm, a que mais destacadamente ressalta dessa pesquisa,  a de que a criana  um ser espiritual adulto, experiente, consciente, dono de insuspeitado acervo de conhecimentos, envolvido em deliberado projeto de vida, com metas, objetivos e propostas nitidamente concebidos e programados. , portanto, uma pessoa preexistente e sobrevivente, conforme o espiritismo insiste em ensinar h mais de um sculo e como o prprio Cristo ensinou h cerca de dois milnios. Acho, porm, que ainda temos importantes aspectos a comentar sobre a excelente pesquisa da dra. Helen Wambach. O leitor ainda est comigo? Vamos avanar um pouco mais? Ou j resolveu jogar o livro fora e nem percebi quando voc desceu do trem? Se desceu, pacincia. Lamento dizer que ficar por a  espera de outro trem, que poder demorar mais do que voc imagina.  claro, contudo, que a opo  sua, no uso e gozo do seu sagrado direito ao livre-arbtrio.

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8 PARA QUE NASCEMOS?
COMO NO PODEMOS COMENTAR todo o livro da dra. Wambach, o que seria praticamente escrever outro volume, resolvi selecionar e resumir apenas dois ou trs aspectos que me pareceram mais importantes como sustentao de nosso prprio trabalho. A escolha da poca, por exemplo. Por que teria toda aquela gente escolhido a segunda metade do sculo 20 para nascer? H uma ampla variedade de respostas a essa pergunta, mas creio que podemos resumir dizendo que existe, para este perodo, grande expectativa de aprendizado, de iluminao do ser, que comea a tomar conscincia de si mesmo, de sua condio de criatura imortal e perfectvel. Do conjunto cnsultado, 51% declararam ter decidido nascer nessa poca "por causa de seu grande potencial para maturao espiritual" das pessoas. Houve quem dissesse que "muitos espritos evoludos estavam renascendo agora" e que "estamos todos mais prximos da paz mundial e de um sentimento de integrao na humanidade como um todo". Ou que "muitas grandes almas esto vindo juntas", para elaborao de "uma Era de Ouro", na qual "mudanas monumentais comeam a ocorrer e ainda ocorrero. Na verdade h predominncia desse tom otimista quanto aos negcios do mundo, embora uma percentagem -- relativamente inexpressiva de 4 em 100 -- ainda conserve uma atitude pessimista em relao  poca em que decidiram nascer. Muitos, contudo, vieram por causa de suas ligaes com outros seres, que aqui se encontravam ou estavam para nascer. Razes muitas: procurar melhor entrosamento, reparar faltas cometidas contra essa gente no passado, ou doar alguma coisa de si a algum ou humanidade. Uma senhora declarou que tinha conscincia de haver nascido para "produzir um lder poltico". Vrias mulheres declararam ter escolhido este perodo da histria por causa das conquistas programadas para as pessoas de sua condio, ou seja, no apenas maior liberdade para a mulher, mas, principalmente, considervel melhoria de status. Quanto  escolha do sexo, as razes so ponderveis e informativas. Escolhi vir como mulher (disse uma moa) porque ela mais amorosa, expressiva e ligada em si mesma. Sinto que meu lado feminino  melhor para refletir tais aspectos. (Destaque meu.) Outra pessoa exps da seguinte maneira suas razes: Bem, eu realmente no escolhi meu sexo, mas fiquei satisfeito ao saber que, desta vez, seria homem. Estive no sexo oposto na maioria das minhas existncias mais prximas e levei vidas miserveis por isso. Sobre os objetivos e finalidades das vidas, a tnica , inquestionavelmente, o aprendizado, ou melhor, o reaprendizado do amor fraterno. Incrvel como em pessoas to diferentes umas das outras ocorra tal coerncia e identifiquemos to slida e concludente convergncia.

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Quando voc perguntou acerca da finalidade (da minha vida), compreendi que  a de estabelecer um novo relacionamento com pessoas a quem devo, por prejuzos que lhes causei em vidas anteriores. Tenho certeza agora de que devo ajudar meu marido, alcolatra nesta vida, porque fui cruel com ele em existncia anterior. Ou: "(...) meu objetivo foi o de conciliar-me com algumas pessoas pelo dano que lhes causei em vidas passadas." Sobre tais situaes, comenta a dra. Wambach: (...) 18% de meus pacientes disseram ter vindo para esta vida para aprender a doar o amor. O objetivo no foi o de estarem junto de pessoas especficas, mas aprender a amar (O destaque  meu.) "Tenho de aprender a no me agarrar possessivamente aos outros", disse algum. H quem tenha vindo para "livrar-se do materialismo e combater o negativismo", bem como "combinar emoes masculinas e femininas para desenvolver o controle sobre elas, o amor e a fora do carter". (Imagine o leitor se uma dessas pessoas, nascida sob a presso de impulsos mais ou menos desencontrados, exatamente para aprender a dominar paixes em tumulto, encontra um (mau) conselheiro que o estimula precisamente a assumir seu latente homossexualismo, por exemplo.) O momento da ligao do esprito com o feto, ou seja, com o corpo em formao,  varivel, segundo as pesquisas da dra. Wambach. H quem diga ligar-se no momento da concepo; h os que somente ao nascer sentiram-se, de fato, como que imantados ao corpo da criana; mesmo assim, ainda com certa autonomia para deslocamentos fora do corpo fsico. As estatsticas da doutora revelam que nos 750 casos pesquisados at a poca em que escreveu o livro -- publicado em maro de 1979 --, 89% disseram que somente se tornaram parte do feto ou se envolveram com ele aps seis meses de gestao. No ponho em dvida esses dados, mas ainda entendo que resultam de importante considerao que talvez no tenha sido possvel apurar com maior preciso, ou seja, a de que isso  o que a pessoa se lembra e que pode no ter sido o que realmente aconteceu. Desde as primeiras semanas, e como regra geral para cada feto, h um esprito indicado ou, pelo menos, j em preparo para renascer. O dr. Jorge Andra chega a admitir que o esprito possa estar presente e influir na seleo do espermatozide que vai disparar o mecanismo da fecundao e conseqente gestao. Naturalmente que para isso  necessrio que o esprito tenha condies evolutivas e de conhecimento bastante satisfatrias, pois h renascimentos regidos por leis emergenciais, em cujo processo pouco participa, conscientemente, o esprito reencarnante.  certo, porm, que a presena do esprito ou, pelo menos, sua imantao ao feto  vital ao desenrolar do processo, dado que  o seu perisprito que traz as matrizes crmicas que entram como componente decisivo na formao do novo corpo fisico, interagindo com os mecanismos puramente genticos. Exemplos dramticos de tais casos so os de antigos suicidas, cujos

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"moldes" perispirituais esto danificados nos pontos afetados pelo gesto de desespero: ouvido, corao, aparelho digestivo ou respiratrio, caso tenham sido atingidos, respectivamente, por tiros, ou tenham se matado com a ingesto de venenos, ou, ainda, por sufocamento ou afogamento. Da mesma forma, seres que no tragam tais compromissos retificadores tm assegurado pelas leis divinas, que tudo regem com infalvel sabedoria, direito a um corpo apropriado s nobres tarefas que venham a desempenhar na Terra, como um bom crebro fsico, mos dotadas de recursos para habilidades especficas, ou sade que lhes garanta os anos de vida de que necessitam para levar a bom termo suas tarefas.  evidente, repetimos, que tudo isso precisa interagir com os componentes genticos dos pais, do que se depreende como so complexas e delicadas as operaes que se desenrolam nos bastidores de uma coisa aparentemente to simples e automatizada como a gerao de uma criana. Sim, porque, em princpio, o mecanismo da fecundao em si no exige nenhum tipo especial de competncia ou conhecimento da parte dos pais, muitos dos quais no tm a menor idia das inconcebveis complexidades dos processos e das leis que fazem tudo isso funcionar com assombrosa preciso. O mecanismo comea a mover-se desde que so promovidas, no mundo invisvel aos nossos olhos habituais, as "negociaes" para que um grupo espiritual consiga renascer junto, com uma programao coerente, relacionamentos bem definidos e tarefas especficas a realizar. Nada  deixado ao acaso ou  improvisao, embora haja flexibilidade para certas opes. O que complica esse quadro  que muitos, aqui chegados, deixam de cumprir a parte que lhes toca no acordo e, ento, tudo se embaralha e degenera em novos atritos e, por conseguinte, em nova safra de sofrimentos futuros. Tais entendimentos prvios e planejamentos so de um realismo impressionante. A dra. Wambach colheu, por exemplo, o depoimento de uma pessoa que, percebendo que a me estava pensando em provocar um aborto, manteve com ela um contato decisivo, de esprito a esprito, e ganhou sua causa, pois conseguiu que ela desistisse de seu funesto intento. Outra narrou uma curiosa historinha que vale a pena resumir, pelas lies que contm.

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9 REFLEXES SOBRE A ADOO
DUAS VEZES LEVADA, pela regresso, ao perodo pr-natal, para melhor definio de certos aspectos, essa pessoa -- uma mulher -- contou a seguinte histria pessoal. Ainda na condio de esprito, no intervalo entre a existncia anterior e a que estava sendo planejada, a pessoa decidiu nascer de determinado casal porque sabia serem eles possuidores de melhor material gentico a oferecerlhe, proporcionando-lhe as condies fisicas e mentais de que ela pretendia ser portadora. Sabia mais, contudo: que o tipo de ambiente desejado para sua educao s poderia ser proporcionado por outro casal, obviamente de seu conhecimento tambm. O projeto elaborado consistiu, portanto, em nascer de determinado casal e ser adotada pelo outro. O esquema previa, ainda, o nascimento no sexo masculino, o que acabou no se concretizando por causa de uma atitude confessadamente impaciente do esprito renascente. (Lio nmero 1: gestos de impulsividade, impacincia e clera, ainda que momentneos e, aparentemente, sem conseqncias, geralmente desdobramse em imprevisveis e complexas amplitudes.) Pelo que se depreende do breve relato da moa, o casal que ela escolhera como pais genticos estava programado para ter dois filhos -- uma menina e, ano e meio depois, um menino. O segundo corpo  que estava destinado  cliente da dra. Helen Wambach. Impaciente, contudo, ela resolveu tomar o primeiro corpo para si e acabou nascendo como menina e no como menino, conforme planejado. S por ocasio da regresso ela conseguiu entender porque se sentia pouco  vontade naquele corpo feminino. (Lio nmero 2: a troca de sexos pode acarretar problemas, alguns de considervel gravidade.) Antes de prosseguir com este relato  necessrio abrir espao para alguns comentrios esclarecedores. (Esta observao foi inserida a partir da quarta edio deste livro.) Por ter sido redigida de maneira sumria e imprecisa, a observao contida dentro do parntese, como "Lio nmero 2", suscitou certas dvidas e at contestao da parte de alguns leitores mais preocupados com a pureza doutrinria e que teriam entendido o texto como endosso meu  hiptese de que o esprito reencarnante mudara o sexo da criana em gestao, trocando-o de masculino para feminino. Realmente, o que est ali escrito poderia prestarse a essa interpretao, mas no  o que ocorreu. Uma leitura atenta ao captulo desautoriza, por si mesma, tal suposio, de vez que a entidade desejava, precisamente, renascer em corpo masculino, como havia planejado. Ainda que ela pudesse e conseguisse mudar o sexo da criana em formao, ela no o faria, exatamente porque era assim mesmo que ela queria. O que pretendi dizer ali nada tem a ver com a troca de sexo no feto, depois dej estar definida a sua polaridade sexual, e sim, chamar a ateno para o fato de que podem ocorrer determinadas turbulncias comportamentais quando essa troca ocorre de uma encarnao para outra. Em diferentes palavras: depois de uma srie mais ou menos longa de existncias no sexo masculino, a entidade que se reencarnar como mulher poder -- no necessariamente -- encontrar dificuldades de adaptao ou sentir-se atrada pela prtica do homossexualismo, por exemplo.

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Sobre esse aspecto h no Captulo 8 --"Para que nascemos?" -- algumas observaes especficas, ainda que breves. A prpria moa que viveu esta situao, menciona seu at ento inexplicvel desconforto com o sexo feminino, no qual se encontrava reencarnada, quando teria preferido renascer como homem. O leitor interessado em mais amplos comentrios sobre o assunto dever ler o mdulo intitulado "Viso dualista do problema da sexualidade", que escrevi para o livro O espiritismo e os problemas humanos, pginas 163 e 183, do saudoso e querido companheiro Deolindo Amorim. *** Feito o esclarecimento necessrio, voltemos  narrativa inicial. A modificao introduzida nos planos acarretou outra conseqncia, igualmente imprevista: os pais adotivos estavam "conversados" para receber um menino e no uma menina. A moa no conseguiu lembrar-se de tudo, mas declarou (acertadamente a meu ver) que "provavelmente teve de arranjar as coisas" para que ela fosse adotada e no seu irmo mais moo, cujo corpo ela havia escolhido previamente para ser o seu. Essa concluso me parece correta porque, inexplicavelmente, embora decididos pela adoo de um menino, os pais preferiram ficar com a menina, apesar de estarem ambos sendo oferecidos  adoo. (Lio nmero 3: intenso intercmbio de idias, propostas e acordos ocorre nos bastidores do mundo invisvel sem que tenhamos conscincia de toda essa atividade, a no ser fortuitamente.) Isto levanta uma questo que eu havia deixado para discutir mais adiante, mas que podemos tratar aqui mesmo, para aproveitar o "encaixe" natural oferecido pelo caso.  correto e aconselhvel adotar crianas alheias? A questo  bem mais complicada do que possa parecer  primeira vista, e no creio que devamos propor para ela uma resposta maniquesta, sim ou no, preto ou branco. Como em tantas outras situaes da vida, s vezes o melhor tom  o cinzento, e no as alternativas radicais. O primeiro aspecto a considerar  o crmico. Penso quej deu para entender que os espritos renascem com programas de vida bem detalhados e especficos, para executar determinada tarefa, especialmente aquelas em que o objetivo  o aprendizado ou reaprendizado do amor, como vimos anteriormente. Sabemos que as leis de Deus so, ao mesmo tempo, severas e flexveis, o que significa que no so punitivas, mas educativas, e que no impem a correo seno na medida suportvel pela pessoa, a fim de no sobrecarregla acima de suas foras. Se abusamos, por exemplo, da riqueza,  certo que vamos ter uma ou mais existncias de pobreza e dificuldades. Se usamos a beleza fsica como arma ou instrumento de domnio, podemos contar com a feira mais adiante. Se esbanjamos de modo inconseqente a sade, viro deficincias orgnicas. Se tripudiamos sobre o amor que nos dedicaram pessoas abnegadas,  fcil prever existncia futura (talvez mais de uma) em que amargaremos a solido, o desamor, o abandono. A ao educativa vem, portanto, com os sinais trocados, na medida, extenso e teor do erro cometido. Nem mais, nem menos, porque quando erramos produzimos automaticamente um "molde" a ser utilizado pelos mecanismos de reparao. Por isso a palavra

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carma que dizer ao e reao e, por isso, alguns autores a chamam de lei do retorno. So maneiras diferentes de explicar o mesmo conceito bsico de que voc  responsvel por tudo quanto faz de errado, e contabiliza a seu favor as boas aes praticadas, por mais insignificantes que elas sejam. Tudo conta ponto, de um lado ou de outro, negativo ou positivo. O resultado desse balano  a medida da nossa paz interior ou dos distrbios emocionais que ainda remanescem em ns,  espera de soluo. Segue-se que o esprito que nasce sob condies adversas tem algum compromisso pendente por ali, mesmo porque a lei no impe sacrifcios inteis ao inocente. Na sua fantstica complexidade, contudo, a lei  tambm de uma lgica e paradoxal simplicidade em tudo o que movimenta. Como dissemos h pouco, ela no  de uma inflexibilidade incontornvel. Por outro lado, ela no embaraa ou desestimula o exerccio da caridade, muito pelo contrrio, deixa sempre espao para que entre em ao, a qualquer momento, a lei maior do amor ao prximo. Isto quer dizer que no devemos cruzar os braos ante um doloroso caso social, ante o sofrimento alheio, a penria, a dor, a aflio, somente porque a pessoa fez alguma coisa errada no passado e, portanto, merece o sofrimento que lhe foi imposto. No recusemos, jamais, a ajuda ao que sofre, sob o raciocnio farisaico de que ele tem mesmo de sofrer para aprender. Qualquer um de ns, em semelhante situao, gostaria de um gesto de solidariedade, de amor, de ajuda, que nos aliviasse o sofrimento, por mais justo e merecido que ele seja. "O amor", disse o apstolo Pedro, "cobre uma multido de pecados." Muitas vezes  o gesto fraterno de solidariedade e compreenso que vai disparar no esprito alheio o dispositivo da aceitao, da conformao sem revolta, do estoicismo, que compreendeu que os amplos territrios da felicidade comeam logo ali adiante, depois de percorrido o caminho estreito e espinhoso do sofrimento regenerador. Mas, afinal de contas, devemos ou no devemos adotar cri-anas? Disse, h pouco, que no h respostas tipo preto ou branco, uma excludente da outra. Acho que a melhor regra, nesses casos,  agir segundo sua intuio, aps ouvir, no silncio da meditao e da prece, sua voz interior. Na minha opinio pessoal (Ateno: pessoal, no uma regra geral ou norma.), a adoo  a soluo humana indicada para os recm-nascidos abandonados ou para crianas entregues a asilos e orfanatos. Quanto s crianas encontradas em famlias presas a ambientes de pobreza e dificuldades, entendo que devam ser assistidas, ajudadas, orientadas, acompanhadas, porm mantidas no lugar onde esto. A transferncia de uma criana de um contexto de pobreza e simplicidade para um de riqueza e sofisticao oferece insuspeitados riscos e inconvenincias. Julgo necessrio explicitar melhor este ponto de vista. (Pessoal, no se esqueam.) Eu no havia formulado um juzo concreto sobre esse problema. Certa vez, contudo, h no muito tempo, um esprito contou, em nosso grupo, que aps uma ou mais existncias em que fora daquelas de quem costumamos dizer que "tm tudo" -- beleza, riqueza, status social ou poder -- ela se viu, finalmente, numa vida em que foi encaminhada para a extrema pobreza, a fim de reeducar-se, pois quando "teve de tudo" usou e abusou de seus poderes para errar, oprimir, impor sua vontade e fazer muita gente sofrer. Pois bem, renascida em contexto de privao, onde estava programada para levar uma vida dura, difcil, mas honesta e regeneradora, algum a tirou

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dali -- era uma bela menina -- e a levou para criar-se em ambiente de luxo, onde, novamente, se perdeu, atropelada pelas antigas matrizes espirituais de que no conseguira ainda livrar-se. Ao regressar ao mundo espiritual, seus compromissos tinham se agravado, em vez de lev-los pelo menos atenuados, ou, possvelmente, liquidados, quanto aos aspectos que tanto a infelicitavam. Enquanto viveu, tudo parecia muito bem. Era a menina pobre e annima que "subira" na escala social, vivendo como uma grande dama uma existncia na qual, mais uma vez, empregou seus dotes de beleza fsica e muito da fingida "finura" de trato para, novamente, dominar e impor sua vontade caprichosa queles que a cercavam. Por isso, descera, espiritualmente, enquanto, pelos padres humanos, havia se "elevado" socialmente. Ela prpria dizia agora, como esprito, novamente desencantada e insatisfeita consigo mesma, que teria sido prefervel que a famlia rica que a adotou, ainda jovem, a tivesse ajudado a ficar l onde estava, para que se reeducasse e considerasse as pessoas como seres humanos, no como peas de seu tabuleiro pessoal de xadrez, onde a vitria consiste em eliminar tudo o que se coloca no caminho que leva ao xeque-mate. Sou francamente favorvel  atitude de casais sem filhos, ou mesmo j com filhos prprios e alheios, que se decidem pela adoo de crianas abandonadas ou rfs de pai e me. Pelo que tenho tido oportunidade de verificar no longo trato com os espritos, muitas vezes o caminho para chegar a determinado casal passa por um nascimento desses, aparentemente fortuito e "por acaso". Um amigo meu, j idoso e com os prprios filhos criados, certa vez encontrou,  porta de sua casa, um recm-nascido a chorar. Recolheu-o, com todo o amor, e o est criando com o maior devotamento, apesar do sacrifcio pessoal que isso significa para ele e para a esposa, j desobrigados de suas tarefas junto aos filhos. Diz-me ele, porm, que o menino -- com mais de trs anos a esta altura --  a alegria deles, a despeito de todas as canseiras e imprevistos que impem os cuidados de uma criana. Como eu, tambm ele pensa que, de alguma forma misteriosa, aquele esprito estava mesmo destinado a eles, e algum vnculo deve existir a uni-los. Em outro caso, para citar apenas mais um, confirmou-se, posteriormente, a existncia de antigas conexes do casal com a menina que, como se diz, praticamente lhes cara ao colo. At aqui tenho falado, neste particular, de minhas opinies pessoais, enfatizando bem que no constituem regras gerais. Agora, no, falo sobre uma norma universal, infalvel, insubstituvel e eterna:  a lei do amor. Se voc percebeu por aquela criana especfica o suave calorzinho do amor, tome-a nos braos e deixe que o amor o inspire. Se no lhe parece aconselhvel -- pelas razes expostas ou outras que voc admitir -- lev-la para sua casa, mesmo assim d-lhe seu amor, materialize esse amor em ajuda concreta, no excessiva, no sufocante e no possessiva, mas sob forma de apoio, para que ela possa viver onde est, minorando dificuldades, sem remover de seu caminho os obstculos de que ela precisa para se fortalecer, ao aprender a superlos. E faa o possvel para no interferir com o livre-arbtrio da criana e com o daqueles que a cercam. Proporcione-lhe a orientao que voc entender necessria e oportuna, mas deixe as decises finais a critrio de cada um.

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*** Com isto, nos antecipamos um tanto ao nosso esquema. Voltemos um passo ou dois, porque ainda no conversamos sobre o que se passa na mente de um esprito nos dramticos momentos em que ele est renascendo.  o que iremos ver a seguir.

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10 "BEM, VAMOS LA!"
OS MAIS DRAMTICOS DEPOIMENTOS colhidos pela dra. Helen Wambach so os que contam as emoes e as perplexidades do nascimento em si, ou seja, o momento do parto. Muitos aspectos inesperados e at paradoxais foram revelados nesse mergulho nas profundezas da memria integral das pessoas. Como vimos, a doutora conseguiu que 84% de seus pacientes, num grupo de 750, se lembrassem, com impressionantes detalhes, do significativo drama csmico do nascimento. Com algumas constantes observadas, ela montou um quadro de no poucas surpresas. A primeira delas foi, como j vimos, que morrer constitui, habitualmente, uma experincia agradvel, pelo seu contedo libertador.  a volta a uma dimenso em que temos uma viso mais ampla da vida, uma incrvel capacidade de movimentao e de entendimento, ao passo que nascer traz consigo um componente de incerteza, de melancolia, de inquietao ou franco desgosto. Muitas so no propriamente queixas dos nascituros, mas suas apreciaes crticas sobre aspectos desagradveis, seno negativos, que encontram logo  soleira da nova existncia que se preparam para viver. Tentemos resumir tais depoimentos para no nos estendermos demais. Em primeiro lugar, o ato fsico de nascer. A criana vem de um estgio dentro do organismo materno, onde se encontrava em ambiente silencioso, tpido e escuro, alm de aconchegante e confortvel. Ao emergir, muitas vezes de maneira inadequada, abrupta, quase violenta,  atirada em um contexto extremamente agressivo, como se, literalmente, saltassem sobre ela e a envolvessem trs fatores adversos: o frio, a intensa luminosidade e o barulho. So praticamente unnimes as observaes nesse sentido, pois o parto  feito sob a intensa luz de refletores e, usualmente, a criana fica, por alguns momentos pelo menos, nua e abandonada sobre a fria superfcie de uma pea, na sala de operao, a perceber  sua volta toda aquela nervosa agitao de pessoas que se movimentam e falam. Chocam-se instrumentos, zumbem aparelhos e mecanismos diversos, especialmente quando ocorre alguma crise e a me e ou o beb tm de ser atendidos em regime de emergncia. Muitos so tambm os que reclamam da precipitao com que  feito o parto, em momento em que a criana tem a convico de "ainda no estar pronta" para emergir do lado de c da vida. Isso ocorre seja porque o parto est sendo induzido ou porque a cesariana, que se vai tornando cada vez mais rotineira, foi programada segundo convenincias do mdico e ou da famlia, e no em sintonia com os critrios universais da natureza. A sensao de estar sendo forada antes do momento apropriado adquire, s vezes, dramtica intensidade. Uma pessoa descreveu da seguinte maneira suas impresses: No canal do nascimento, certa fora continuava a me empurrar. E eu nada podia fazer, pois no havia onde me agarrar ou pendurar. Imediatamente aps o nascimento, senti o sbito impacto do ar frio, luzes brilhantes e gente usando uma roupa esquisita.

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Senti-me indignado no canal (expe outro) porque eu estava sendo forado a sair antes do tempo que desejava. Logo que nasci, observei a parede, de um branco intenso, a apenas uma jarda diante de mim. No estava consciente dos sentimentos das demais pessoas por causa da minha intensa fria. Acho que a tnica de tais depoimentos  o extraordinrio senso de maturidade, de dignidade, de percepo e sensibilidade das pessoas regredidas. Quem est ali, vivendo a traumtica experincia do nascimento, no  um beb inconsciente, ignorante e "desligado" de tudo, mas um ser adulto e amadurecido, na plena conscincia de seus poderes e recursos intelectuais. Nele se percebe, muitas vezes, uma inteligncia superior e uma experincia de inesperada amplitude e profundidade. E mais: so pessoas dotadas de apurada capacidade crtica, em condies de captar, com incrvel facilidade, no s o que se diz  sua volta, mas at o que se pensa, ou apenas se sente, ainda que a palavra dita seja diferente e oposta quilo que realmente est na mente da pessoa que fala. Vimos h pouco a indignao de bebs que foram obrigados a nascer antes de se sentirem em condies de faz-lo. H mais, contudo. Eles percebem, claramente, se esto sendo tratados condignamente e com interesse e amor ou se esto sendo rejeitados ou considerados meros objetos ou coisas que nem alma tm. Di-lhes a frieza profissional e apressada de mdicos e enfermeiras, ou o sentimento de rejeio e desapontamento da me ou do pai, o cime do irmo mais velho ou a irritao da av. "Como posso me comunicar com essa gente?" pergunta a si mesmo um deles. Minha impresso era a de que as pessoas, na sala de parto, no sabiam de nada e eu sabia tudo aquilo (diz outro). Isso me pareceu comicamente divertido. (...) percebi que meu esprito observava tudo. Juntei-me ao corpo momentos antes do nascimento. Minha impresso, aps o nascimento, foi a de que a palmada que o doutor me aplicou no era necessria. Fiquei indignado. Eu sabia que o mdico estava com uma bruta ressaca. (...) parecia-me que os mdicos no percebiam que eu estava consciente e me tratavam como um no-ser, mera coisa ou objeto. Observe o leitor este outro depoimento: A experincia no canal foi a mais vvida para mim. Eu sentia a tepidez do tero e as contraes musculares que me foravam a descer. Estava experimentando esse movimento para baixo quando explodiu aquela luz intensa, agoniada-mente brilhante, e meu rosto todo se contraiu. Percebia vagamente alguns dos pensamentos dos mdicos e das enfermeiras, e seus sentimentos. No era meu presente ego que aceitava essas idias, porque eu achava que, como beb, no era suposto estar fazendo aquilo. O caso  que eu estava mesmo telepaticamente consciente das emoes deles.

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Declara outro que as pessoas  sua volta o estavam manipulando sem nenhum sentimento de amor, "com grande frieza emocional". E prossegue: Eu tinha conscincia dos sentimentos deles. Estavam fazendo o trabalho que lhes competia e eram bem-intencionados. S que nem se davam conta da sua prpria insensibilidade e do quanto eu era capaz de entender tudo aquilo. Uma das pessoas percebe que os pais estavam fazendo o possvel para aceit-la, compensando-a pela relutncia que haviam demonstrado em tornarem-se pais dela, mas o beb "sabia da verdade", mesmo ouvindo-os falarem de futuros planos que tinham a respeito dele. Eu tinha a inteligncia de um adulto (Depe outro). (...) uma mulher me apanha bruscamente. Sinto-a zangada e vejo que no gosta de mim. Parece que, de alguma forma, eu a ofendera. Minha me tambm est cansada demais e dolorida para demonstrar qualquer interesse por mim. A mulher sai comigo nos braos. E como se eu fosse um patife. Lgrimas genunas escorriam de meus olhos, enquanto ela me levava. Na verdade eu queria voltar para aquele espao luminoso de onde viera. Esse, alis, no  o nico que, se pudesse, teria voltado prontamente para o "lugar de onde veio", ou, sequer, teria sado de l. (...) como as pessoas so tolas por no saberem o que os bebs desejam (declara outro). (...) senti-me desapontado ao observar que a alegria que eu experimentava ao nascer no encontrava eco aqui fora. Eu estava lcido e alerta, mas as pessoas que me cercavam no sabiam disso. Eu no estava gostando nada da idia de ser espremido para dentro daquele pequeno corpo, mas me conformei e disse a mim mesmo: `Bem, vamos l!', e mergulhei como quem pula na gua fria. (...) tive vontade de rir deles, no sei porqu. Acho que foi porque eles no sabiam realmente quem eu era e nada sabiam acerca do que  nascer. (...) minha av era torpe. Primeiro pensei que se tratasse de uma enfermeira, mas logo percebi que ela era minha av. Poderamos multiplicar depoimentos como esses, no fosse o risco de torn-los repetitivos demais. Acho, porm, que alinhamos o suficiente para nos convencer de que, em lugar de um "inocente" e obtuso beb, incapaz de pensar, sentir e entender o que se passa a sua volta, temos, ao contrrio, um esprito amadurecido, dotado da estranha faculdade de captar sutilezas como pensamentos e sentimentos que nem chegam a ser expressos ou formulados.

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Isto merece e precisa de comentrio  parte.

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11 MISTRIOS DO PROCESSO DE COMUNICAO
PARECE BVIO ADMITIR que os nascituros ainda no tenham condies de entender a lngua que est sendo falada em torno deles. E nem precisam entend-la, porque captam, como vimos reiterando, pensamentos que no chegam a ser convertidos em palavras ou, mesmo convertidos, no correspondam  verdade ntima da pessoa que os expressou. Certa vez, em pequeno estudo acerca dos animais, escrevi que, no meu entender, existe na natureza um nvel primevo de comunicao, anterior ao da palavra, independente dela, uma espcie de canal atravs do qual todos os seres vivos -- das plantas aos seres humanos, passando pelos animais ditos irracionais -- podem entender-se. A comunicao, portanto, no dependeria das palavras e, sim, dos sentimentos que esto (ou no) por trs da mera expresso vocabular. Do contrrio no teramos tantas evidncias concretas e bem documentadas de comunicao entre seres humanos e animais, ou plantas, bem como entre os prprios animais e plantas entre si. So hoje de conhecimento geral as reaes das plantas ao afeto, aos bons modos,  conversa macia, s emoes das pessoas que as amam e respeitam. Isso ocorre tambm com os animais e, claro, com as pessoas. No  necessrio que algum nos fale para que possamos sentir sua hostilidade ou as vibraes de simpatia e afeto com as quais nos envolva. As vezes percebemos o sentimento de agressividade at atrs de sorrisos bem fingidos e palavras ditas com artificiosa convico, mas falsas.  portanto nesse nvel atvico, pelo canal por onde circulam as emoes -- que podem ou no chegar ao ponto em que se expressam  que nos entendemos uns com os outros, todos os seres vivos, ainda que com as limitaes prprias a cada um. A plantinha, por exemplo, no pode respondernos seno tornando-se mais vigorosa, produzindo melhores frutos ou flores mais belas. O cozinho j consegue latir de alegria, balanar o rabinho, virar-se de barriga para cima ou, ao inverso, correr amuado para um canto, quando injustamente escorraado. Quando escrevi um livro acerca da mediunidade, um amigo espiritual me informou que somos dotados de um sistema psquico de circulao, ao qual ele chamou de canal condutor, e de um outro sistema, de exteriorizao, ao qual deu o nome de canal expressor. Pelo primeiro, circula o pensamento puro, inarticulado, ainda no codificado em palavras; apenas para uso interno. A traduo desse pensamento em palavras s ocorre no sistema expressor para que, da, se transmita, ou melhor, se comunique. (Comunicar  tornar comum.) Concluso semelhante encontro no eminente cientista Lyall Watson, que em Supernature escreve o seguinte: Em termos fisiolgicos, a distncia que nos separa de outros animais no  muito ampla, e a despeito do fato de que dispomos agora de uma elaborada linguagem vocal e outros sofisticados sistemas de comunicao, nossos corpos continuam a mostrar sinais externos de nossos sentimentos ntimos.

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Eu no diria, contudo, que os sinais desse entendimento aparecem como expresso corporal, segundo prope Watson, e sim por um mecanismo mais sutil, que os pacientes da dra. Wambach chamam freqentemente de teleptico. Esta palavra, a despeito de suas conotaes usuais, presta-se bem ao caso. Pathos  um termo grego que significa, primariamente, molstia, doena, mal; mas, tambm, paixo, inimizade, afeio. Ou seja,  um termo para descrever certos tipos de sensaes (estar doente), ou emoes (paixo, afeto, averso). Por conseguinte, telepatia vem a ser um mecanismo de transmisso,  distncia, de emoes que, obviamente, no precisam ser traduzidas em palavras, como acertadamente imagina Watson. Alis esse mesmo Watson, de quem sou leitor assduo e admirador, registra, em outro livro de sua autoria, The Romeo error, posterior a Supern ature, observaes mais explcitas acerca do processo de comunicao entre os seres vivos. Comenta ele experincias de Clive Bakster, que acredita na existncia de uma "conscincia primria em todas as coisas vivas", a qual Watson, por seu turno, caracteriza, com notvel elegncia, como "linguagem universal da vida". Retomando experincias de Bakster, Watson chegou a incrveis resultados. Vejamos, por exemplo, a que ele fez com uma jovem de nome Tanya. Submetida  hipnose, Tanya foi convidada a escolher, sem revelar a ningum, um nmero de 1 a 10. Em seguida outro experimentador comeou a perguntar-lhe sucessivamente: " o nmero 1?" "No", dizia ela. " o 2?" "No." E assim por diante, ela negou todos, de 1 a 10. Uma planta, contudo, includa na experincia e ligada ao detector de mentiras, "entregou" Tanya, revelando que o nmero por ela escolhido fora o 5. Como  que a plantinha descobriu isso, a no ser por um mecanismo de comunicao direta, usando a "linguagem universal da vida"? Outra experincia original de Bakster, repetida e aperfeioada por Watson, oferece concluses ainda mais intrigantes. Bakster pegou 18 ovos e os colocou numa espcie de mesinha giratria. De vez em quando, por meio de um dispositivo inteiramente aleatrio, um dos ovos soltava-se e descia, por uma canaleta, at uma vasilha de gua fervente. Bakster notou que o ovo ligado ao detector acusava imediata reao no momento em que o "companheiro" mergulhava na gua fervente, mas nenhuma reao registrava quanto  queda dos demais 17 ovos, a no ser que houvesse decorrido um espao mnimo de tempo de 15 minutos. Qual a explicao? Ao repetir a experincia, Watson notou que o bloqueio no ocorria no ovo receptor, ou seja, aquele que estava ligado ao detector, e sim nos 17 que permaneciam na mesinha giratria e que interrompiam prontamente a comunicao logo que o "companheiro" mergulhava na gua fervente. A nica explicao possvel que ocorre  mente (escreve Watson)  a de que, quando o primeiro ovo cai na gua fervente e emite seu sinal de alarme, os outros 17 ovos,  espera de sua vez, `desmaiam' todos -- e que so necessrios 15 minutos para que eles se recuperem. A propsito disso Watson lembra a tradio dos Sioux, como tambm outros ndios norte-americanos, que adotam certos rituais que somente agora

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comeam a fazer sentido. Quando se torna necessrio preparar um novo "totem" para a tribo, os mais velhos se renem e vo  floresta, a fim de conseguir uma boa rvore que fornea a madeira apropriada, com a qual possam elaborar a figura. Encontrada a rvore, aproximam-se todos, cerimoniosamente, em semicrculo, e "conversam" com ela, mais ou menos nos seguintes termos: Olhe aqui, rvore, lamentamos muito, mas voc sabe como  importante para ns o nosso `totem', e o antigo est todo estragado. Precisamos de um novo tronco... e, ento, escolhemos voc! Dito isto, sem olhar para trs, todos se retiram apressadamente, aproximam-se da primeira rvore que encontram mais ou menos semelhante quela e a cortam para fazer dela o desejado "totem". Ao que saiba Watson, ningum jamais perguntou aos Sioux a razo desse estranho procedimento. No h dvida, porm, de que os ndios sabem das coisas. Relacionando isto com o comportamento dos ovos da experincia de Bakster, Watson declara-se inclinado a concluir que, talvez, todas as rvores da floresta desmaiem quando a primeira delas ouve sua sentena de morte. Ao que parece, portanto, os ndios cortam uma rvore desmaiada e, portanto, anestesiada, para no lhe causarem dores desnecessrias, mesmo tendo em vista o nobre fim a que se destina a madeira que ela lhes proporciona. Claro que o leitor tem direito s suas prprias idias e explicaes. Quanto a mim, fico com Watson, que por sua vez est com os ndios, que esto com os segredos da natureza! Mas voltemos, por um momento ainda,  dra. Wambach. Acho que essa forma de entendimento sem palavras, ou quando as palavras podem at comparecer, mas so desnecessrias,  um tipo de comunicao que fica apenas pelos canais condutores do qual meu amigo espiritual falou, sem se converterem em qualquer tipo de cdigo ou smbolo, no sistema expressor. Mesmo que seja apenas, como dissemos h pouco, para uso interno, os demais seres vivos da natureza tm condies de captar o que se passa na intimidade alheia. Observo, pois, com alegria, que um paciente da dra. Wambach descreve, com rara felicidade e preciso, o curioso mecanismo, ao dizer o seguinte: Aps o nascimento (escreveu ele em sua ficha) sinto a presena de diferentes e esparsas energias e intensidades  minha volta. Com uma percepo muito clara, eu tinha conscincia dos sentimentos das demais pessoas. As coisas eram perfeitamente bvias, mas no especficas ou explicveis em sentido intelectual. (Grifo meu.) Tudo o que foi dito, e mais o que permanece apenas no bvio "nointelectual" sugerido pelo paciente da doutora, se resume numa concluso irrecusvel: podemos nos comunicar com os bebs -- desde que nascem ou at mesmo antes. Eles no tero condies para responder-nos da maneira que entendemos o dilogo entre seres humanos, mas suas mentes e seus coraes esto abertos ao acesso de sentimentos, emoes, conflitos,

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alegrias, afeto ou averso, e a sutilezas que sequer podemos imaginar. Eu dizia que podemos nos comunicar com nossos bebs, mas deixe-me corrigir logo: devemos nos comunicar com eles. Isto  de importncia vital, que eu no saberia como enfatizar suficientemente. Disponho de casos concretos sobre o assunto, experincias pessoais e relatos de pessoas muito chegadas, que me transmitiram em primeira mo, a meu pedido, suas prprias observaes. Um desses casos narrei sumariamente em meu livro Dilogo com as sombras. Havamos trabalhado durante meses com um esprito bem difcil, porque ainda estava extremamente magoada -- era uma mulher -- com um dos componentes do nosso grupo. Viveram, no sculo passado, uma paixo algo tumultuada, que deixou seqela que transbordou e, naturalmente, sobreviveu com eles. Ao cabo de longo e carinhoso dilogo, que se desdobrou por alguns meses, conseguimos pacificar o esprito, que comeou a prepararse para renascer; alis, na famlia de quem, no passado, fora seu companheiro. Seria, desta vez, filha de uma jovem que naquele tempo tinha sido filha do casal. Isto a colocava, nesta vida, como neta do seu antigo amor. A criana estava com poucos meses quando tive oportunidade de visitlos. A jovem me me convidou para v-la, em seu bero, onde ela dormia profundamente. Temeroso de que ela despertasse, pedi  moa que no acendesse a luz, mas ela insistiu, dizendo que a criana no acordaria, pois estava acostumada. De fato a menina continuou adormecida por alguns momentos, enquanto eu a contemplava, emocionado e em silncio. De repente ela abriu os olhinhos, fitou-me com uma expresso enigmtica, sorriu e voltou a adormecer. Foi fcil entender seu mudo "recado": "Ah,  voc? J estou aqui, amigo." Deixe-me contar outro caso. Encontrava-me, certa vez, em casa de uma famlia que acabara de tomar uma menina de meses para criar, quando fiquei sozinho com a criana por alguns momentos. Aproximei-me do bercinho -- ela estava desperta -- e comecei a falar-lhe mansamente, dizendo-lhe que agora ela estava bem. Haviam passado as aflies e dificuldades maiores. Tinha, agora, uma casa e pessoas amorosas para cuidarem dela. Que ficasse em paz e tranqila. E que Deus a abenoasse. Mesmo acostumado a tais coisas, levei verdadeiro susto ante sua reao inesperada. Ela me olhou profundamente, com lgrimas a lhe escorrerem pelo rosto! Era visvel o esforo que fazia para dar expresso s emoes que se agitavam em seu ser. Estava to desejosa de dizer-me alguma coisa que seu rostinho era uma s ansiedade. Mas ali no havia o menor trao de dor. S pude entender a linguagem silenciosa das suas lgrimas, mais nada... a no ser somar minhas emoes s dela... Nosso entendimento ficou no nvel atvico, sem necessidade de emergir. Outros casos, por sua natureza especfica, vo para o captulo seguinte.

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12  CONVERSANDO QUE NOS ENTENDEMOS
UM MENINO DE 7 PARA 8 ANOS DE IDADE estava encontrando dificuldades na escola, no com o estudo em si, mas por causa da incontrolvel sensao de pnico que o dominava ao entrar na sala de aula. As vezes, no havia como obrig-lo a permanecer ali. De outras vezes, ele exigia a presena da irmzinha enquanto durassem as aulas, o que estava criando dificuldades para ela tambm. A rotina escolar, desde que ele comeava a preparar-se at que retornava  casa, tornou-se um tormento para ele e para a famlia, que no sabia mais o que fazer. Em tudo se pensou e quase tudo foi tentado. Estaria ele sob presso de espritos desarmonizados? Seria apenas pura e simples averso  escola? Ser que estava precisando de uma atitude mais severa e at de castigos corporais? Ou de algum tratamento psiquitrico? Um parente da criana resolveu recorrer aos amigos espirituais, em busca de orientao que ajudasse a famlia a encontrar uma soluo adequada para o problema. Em existncia anterior, na Frana, disseram os orientadores, tinha o menino aproximadamente a mesma idade que contava agora, quando a escola que freqentava pegou fogo e o teto da sala de aula desabou sobre as crianas. Ele estava entre os mortos. Da o pnico na escola atual, aparentemente inexplicvel, mas um claro "transbordamento" de lembranas guardadas no inconsciente. Recomendavam os amigos espirituais que os pais tratassem o caso com serenidade e compreenso, sem exercer presses sobre a criana, como estavam comeando a fazer, em desespero de causa. Sugeriam, ainda, que  noite, quando o menino fosse dormir e mesmo adormecido, conversassem com ele, garantindo-lhe que o acidente era coisa do passado, hoje superado. Que agora ele estava bem, protegido pelos pais, e que nada de mal iria acontecer na escola. Que tivesse confiana em Deus. Deveriam, ainda, falar-lhe do encadeamento das vidas, porque seu esprito tinha condies de entender e aceitar a informao com naturalidade. Finalmente, que no havia sobre ele influncia ou presso espiritual negativa. O problema era dele mesmo, sem nenhum componente obsessivo. O tratamento deu certo. Numa famlia muito ligada  minha, por vnculos estreitos de parentesco e amizade, uma das meninas comeou a apresentar caractersticas um pouco preocupantes. Logo que conseguiu manipular com razovel eficcia seus sisteminha de comunicao com o mundo que a cercava, mostrou-se portadora de marcante personalidade, porm um tanto nervosa e agitada, destemida e com alguma tendncia para a agressividade, O sono era igualmente agitado e parecia povoado de pesadelos. s vezes, fingia atirar nos outros, com armas invisveis, como se estivesse envolvida em alguma atividade blica. Se desejava algum brinquedo da irmzinha maior -- uma doura de criana --, aproximava-se sub-repticiamente e, zs! apoderava-se do objeto e partia com ele, deixando a outra incapaz de reagir pela fora, mas desolada. A sade fsica tambm no era das melhores. Seu organismo parecia meio descoordenado, pois de vez em quando um dos aparelhos -- o digestivo, por exemplo -- desregulava-se e parecia no responder adequadamente aos

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cuidados mdicos. Uma caracterstica igualmente inexplicvel veio compor esse quadro enigmtico: ela parecia ter problemas com os ps, e os exames clnicos e radiolgicos no conseguiam identific-los. To logo comeou a falar, queixava-se dos ps,  noite, enquanto dormia, como se doessem ou algo estivesse acontecendo com eles. Outra dificuldade, ainda ligada a esse aspecto,  que no suportava sapatinhos de amarrar. Com alguma dificuldade e reao, acabou aceitando um tipo especial de calado, que lhe parecia, talvez, mais inofensivo. Quando se tornou necessrio substitu-lo porque se tornara imprestvel, a luta foi grande, pois ela continuava a no aceitar qualquer tipo de calado que lhe provocasse a mnima inibio. Queria os pezinhos sempre livres, como se deles dependesse para sbita e vital escapada. Consultados a respeito, amigos espirituais do casal explicaram que em sua mais recente existncia, na Frana, a menina fora uma guerrilheira (maquis), devotada, por convico patritica,  famosa resistncia aos alemes, que invadiram seu pas e o submeteram as humilhaes da ocupao. Segundo informao dos amigos invisveis, a querida priminha morreu de maneira trgica. Seu grupo atravessava  noite um campo minado, quando seu p ficou preso em uma das razes, em um buraco no terreno. Ela caiu e gritou pela companheira mais prxima; porm, no podendo soltar-se, morreu estraalhada por uma exploso. No fosse ter prendido um dos ps, poderia ter corrido e talvez tivesse se salvado. Os companheiros espirituais acrescentaram, ainda, que a destruio do corpo fsico acarretou repercusses de difcil reparao em seu corpo perispiritual. Para que ela pudesse ser encaminhada  reencarnao, ao cabo de quarenta anos de permanncia no mundo espiritual, foi necessrio promover um complexo e delicado trabalho de recomposio, suficiente para que o corpo fsico no apresentasse deformaes e mutilaes. Da suas diversas disfunes, sem causa aparente e que, s vezes, precipitavam "desarranjos" orgnicos. Trata-se, obviamente, de esprito dotado de alguns mritos, do contrrio no teria merecido tanta ajuda e ateno, mesmo porque foi encaminhada a um jovem casal bem-dotado fsica, intelectual e moralmente. Explicaram, ainda, os amigos espirituais que, neste caso especfico, o corpo fsico, saudvel e desenvolvido sob condies adequadas, exerceria sua influncia sobre o corpo espiritual, ajudando-o a consolidar-se de modo satisfatrio. Quanto aos aspectos emocionais do problema, a me foi instruda a conversar com a criana, especialmente quando ela estivesse adormecida, transmitindo-lhe uma mensagem de segurana e de paz, procurando convenc-la de que todo aquele terrvel incidente estava superado, era apenas uma lembrana. No havia mais guerras a travar, pelo menos aqui, na pacfica regio em que ela estava vivendo sua nova existncia de esperanas e alegrias, no seio de uma equilibrada e amorosa famlia. Deveria tambm insistir em assegurar-lhe que o pezinho estava perfeitamente bem, normal e sadio. Se o leitor concorda em ouvir, tenho mais uma historinha que revela a extraordinria maturidade e competncia da jovem me, pouco mais do que uma adolescente. Por suas implicaes e amplitude, contudo, o caso necessita

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de um captulo especial, no qual possamos dispor de mais espao. Antes disso, h uma experincia minha, pessoal, a narrar. Nunca fui garoto turbulento e agitado. Pelo contrrio, sempre retrado e meio calado. Certa vez, a pelos sete ou oito anos, fiz o que ento se chamava uma "arte" inesperada e que poderia ter tido trgicas conseqncias. Morvamos  beira da estrada de ferro, pois nasci e me criei no mais que a uns poucos metros dos trilhos. Passava um trem, a certa distncia, quando resolvi testar minha fora e pontaria, atirando-lhe uma pedra. Acontece que era um trem de passageiros e parece ter se quebrado uma vidraa, mas felizmente o petardo no atingiu ningum. O certo, contudo,  que da estao seguinte telefonaram para aquela em que eu vivia e no foi difcil localizar o responsvel pelo ato "terrorista". No me lembro se levei alguns cascudos ou palmadas (nossos pais no eram muito dados a punies corporais). Lembro-me, porm, de ter ficado de castigo, sentado  vista de todos no alto de uma pilha de dormentes de madeira,  beira da linha. Alm da humilhao, eu no estava entendendo bem a razo de toda aquela celeuma. Afinal de contas eu "apenas" atirara uma pedra no trem... L pelas tantas, porm, aproximou-se de mim um jovem empregado da estao (subordinado de meu pai) e se ps a conversar comigo. Chamava-se David, Theobaldo David Silva, e at hoje me lembro (Quase 60 anos depois!) que ele fazia anos no dia 1 de janeiro. Curiosamente, estou escrevendo estas linhas no dia 31 de dezembro. Dentro de algumas horas, o amigo David, que provavelmente no estar mais por aqui, estaria comemorando seu aniversrio! Sou-lhe grato, para sempre, pelo que ento me disse. Ele no me trouxera uma palavra de condenao ou mesmo censura, nem desautorizou a enrgica providncia punitiva de meu pai. Limitou-se a explicar-me, de modo adulto, que o gesto impensado -- no sei que palavras teria usado -- poderia ter ferido ou at matado algum, no trem. Que era preciso ter cuidado com essas coisas. Em suma, apelou para meu senso de dignidade -- to por baixo, ali, no alto da pilha de dormentes -- e para meu senso de responsabilidade. Lembro-me do impacto que me causaram suas observaes. Eu realmente no havia pensado nas possveis conseqncias da imprudncia cometida. E se algum ficasse cego ou mortalmente ferido por causa de minha "arte"? Acho que David percebeu quanto sua conversa foi til e proveitosa para mim. Embora eu nunca tenha sabido, creio at que ele intercedeu junto a meu pai para que eu fosse logo posto em liberdade... Nunca mais joguei pedra em ningum, embora tenha levado algumas pedradas pela vida afora. Mas quem no as leva? Como costumo dizer, ns aprendemos mais com os erros do que com os acertos, e a lio de David ficou para sempre estampada em minha mente. Deus o guarde em sua paz, onde quer que ele hoje se encontre. Creio que foi das primeiras pessoas que, em vez de me repreender, censurar ou criticar, falou-me como adulto, de homem para homem, sem ironias, agressividades ou impertinncias. E, acima de tudo, explicou-me a situao. Outras vezes na vida iria me ver em situaes semelhantes quela. Antes de qualquer condenao ou crtica apressada, foi sempre meu desejo que

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algum me dissesse, educadamente, onde, quando e porque eu havia falhado. Que me condenassem posteriormente, isso no me afligiria, o que eu queria  entender as causas -- imagino que para poder corrigi-las, a fim de evitar o mesmo tipo de equvoco em uma prxima vez. Por isso, nunca achei necessrio ser castigado. Uma vez entendida a motivao, j constitua castigo e vexame suficientes para mim saber que errei. A surra, a reprimenda ou a punio, eu as entendia perfeitamente suprfluas e, portanto, desnecessarias. J estava este livro em elaborao quando uma amiga me contou episdio semelhante. Em momento de impacincia e irritao, ela se descontrolou e se ps a repreender o filho pequeno, em voz alta. O menino, muito calmo, falou mais ou menos o seguinte: -- Mame, voc no precisa fazer isso comigo. Fale com calma. Voc sabe muito bem como se sente uma pessoa agredida, porque tenho visto voc chorar quando isso acontece. A moa "desmontou" na hora. Aprendera importante lio de quem competia a ela ensinar. Sorriu, abraou o menino e lhe disse, agora perfeitamente calma: -- Voc tem razo, filho. Voc  um garoto muito bacana! *** Se  que este captulo precisa de concluso, a vai: converse com seu filho ou sua filha, qualquer que seja sua idade e a dele ou dela. Como dizem por a: " conversando que a gente se entende..." E que  mais necessrio e urgente, neste mundo desarrumado, do que o entendimento entre as pessoas? Especificamente para as grvidas, um recado formal: converse com a "pessoa" que est no seu ventre. Diga-lhe que a ama, que a espera de corao aberto, que conte com voc em tudo aquilo que for possvel. Acaricie-a mansamente, com as mos. O magnetismo do amor se transmite facilmente, como energia positiva a escorrer pelos dedos.

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13 EXPERINCIAS E OBSERVAES DE UMA JOVEM ME
ESTE CAPTULO  RESERVADO para um exemplar caso de relacionamento me e filho. Desejoso de aproveitar, neste livro, as experincias e observaes dessa me, pedi-lhe um relato escrito. Achei-o to bom que resolvi pass-lo ao leitor em sua ntegra, preservando todo o sabor da emoo que foi depositada no texto. Ei-lo: "Rafael  um beb muito calmo e bom. A primeira vez que conversei com ele foi quando descia no elevador do laboratrio, onde fui buscar o resultado de meu exame, que confirmava as suspeitas de que estava grvida. Disse-lhe que o amava desde aquele instante e que ele iria ser muito bem-vindo; disse-lhe tambm que ele deveria ir-se preparando para a vida na Terra, que no  muito boa e no lhe daria muita felicidade, mas que, no que dependesse de mim, ele poderia contar comigo no que precisasse desde esse dia. "Nunca mais deixamos de conversar. Converso com ele sobre tudo, tentando coloc-lo bem prximo da realidade da Terra. As vezes eu me acho um tanto pequena, como se fosse um aluno ensinando coisas simples a um professor superinteligente, mas continuo agindo assim, pois ao menos o imenso carinho com que tento lhe explicar as coisas da Terra, sei com certeza, ele guardar em seu corao. "Tentarei explicar o que escrevi acima, relatando a conversa que tive com ele nas vsperas do Natal, enquanto fazia alguns cartes. Disse-lhe, como se estivesse conversando com um adulto, que estvamos perto do dia em que os homens comemoram o nascimento de nosso Mestre, mas que, infelizmente, muitos deles no se tocam de que esto comemorando isto. Criaram no mundo, disse a Rafael, o Papai Noel, que eu gostaria desde j que ele tomasse conscincia de que no existe, apesar de ser ele o mais assediado, lembrado e comemorado com muita comida e bebida, no Natal. Mas tambm expliquei-lhe que essa `mentirinha infantil', o Papai Noel, era muito til aos comerciantes e que muitas famlias viviam todo o resto do ano, praticamente, da renda que Papai Noel fazia com que elas arrecadassem no ms de dezembro. "E assim tem sido com tudo. Tento conversar com ele todo o tempo, mostrando-lhe que na Terra somos egostas e no muito honestos nem civilizados, mas, em tudo e em todos, devemos procurar e, com certeza, achamos algo de bom e til, e que a isto  que devemos dar importncia. "Quando Rafael ainda estava em formao, dentro de mim, procurvamos (eu e minha me) fazer de seu enxoval tudo o que fosse possvel, para no termos muitas despesas, mas, principalmente, pelo carinho que acho que os trabalhos manuais transmitem a quem os ofertamos. Sempre lhe dizia deste meu carinho e procurava faz-lo participar de meus afazeres. "No `culto do lar' sempre lhe foi transmitido muito amor e palavras de boas-vindas. Em duas ocasies, enquanto orava pensando nele, tive a ntida impresso de t-lo sentado a meu lado, com a mo sobre meu ombro. Foi um tanto dificil imaginar que aquele ser ainda em formao dentro de mim, meu beb, era aquele esprito to adulto!

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"Sobre a formao de seu corpinho, conversvamos tudo. Cada semana que iria comear era pesquisada e lida, por ns, com bastante ateno. Acompanhvamos, assim, a formao de cada rgo interno e de cada parte externa desse corpinho que hoje est aconchegado em meus braos. E bastante maravilhoso! "Alguns fatos se destacaram dos demais por serem curiosos, mas no posso provar nem me certificar de que no foram apenas coincidncias. "Antes de Rafael nascer, eu lhe disse muitas vezes que ns no tnhamos uma casa s nossa e que morvamos com outras pessoas, e os outros no gostariam de ser incomodados com muito choro de beb, pois eu j tive contato com bebs que choravam o dia todo e noite tambm. Dizia-lhe sempre que ele deveria ser um beb bonzinho e pedia-lhe que no chorasse muito, principalmente  noite. "E Rafael  um beb muito, muito bom. Posso mesmo afirmar que ele nunca acordou algum, at hoje, com seu choro. Ele praticamente no chora, chegando mesmo a impressionar quem convive com ele. "Outro fato interessante ocorreu quando ele tinha ainda um ms e eu fiquei muito gripada, com a garganta inflamada. Rafael, at ento, havia dormido a noite toda em seu bero somente alguns dias; ele dormia, e at hoje dorme, comigo. Quando eu o colocava em seu bero, ele reclamava, e a reclamao acabava quando ele estava a meu lado, na cama. At mesmo dormindo, e at hoje, ele sabe quando eu o coloco em seu bero. Mas eu no queria que Rafael se resfriasse tambm por ser muito novinho, e ento expliquei-lhe que iria coloclo em seu bero, mas ele deveria dormir l a noite inteira, pois eu estava com febre e no queria transmitir a ele a inflamao que a causava. "Ele dormiu a noite toda em seu bero, e outras duas noites tambm; at que melhorei e pude dormir com ele novamente. Mas, especialmente durante a primeira noite, ele no reclamou sequer uma nica vez. "Outro fato deu-se dias depois deste, e ele ainda no tinha dois meses. Foi a primeira vez que minha me deixou-me sozinha com ele, e confesso que eu chegava a ficar confusa com todas as tarefas a realizar. Foi assim que, num desses dias, eu tinha muita roupa para passar e Rafael estava um pouco enjoadinho, querendo ficar no colo o tempo todo, e com dificuldade para dormir. Pedi, ento, a ele que dormisse durante algumas horas, somente para que eu pudesse passar suas roupinhas. Disse-lhe, tambm, que estava muito cansada e gostaria de acabar logo de passar as roupas para poder tomar um banho e dormir. Era de tarde e eu lhe pedi que dormisse at as 18 horas. Ele no s dormiu at a hora combinada como esperou, acordado e quietinho, que eu terminasse tudo e tomasse meu banho para podermos deitar. "Outro fato interessante ocorreu no dia 24 de dezembro, em casa de meus sogros. Minha sogra pediu-me que a ajudasse, fazendo os embrulhos dos presentes de Natal. Os presentes eram muitos e o tempo pouco. Tinha somente um resto de manh e a tarde. Coloquei, ento, o Rafael na cama de minha sogra e peguei todos os presentes que tinha a embrulhar. Mostrei-os a Rafael e disse-lhe o quanto era importante que todos aqueles brinquedos e presentes estivessem embrulhados at o fim da tarde. Pedi a ele que me ajudasse, no precisando muito de mim, at que eu terminasse. Deitado ali na cama, Rafael ficou acordado, quietinho, e chegou at a dormir, o que no

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ocorre normalmente sem que esteja no meu colo. Dormiu bastante, mesmo com o barulho dos papis de embrulho. Quando acordou, ficou calmo e quieto at que eu terminasse tudo. "Esses so os fatos mais interessantes que registrei. Quando me lembro deles, fica no ar a dvida: seriam mesmo coincidncias, ou Rafael me entende de verdade? "Hoje sinto que no tenho tambm certeza em afirmar. Sinto que a cada dia que passa mais e mais Rafael torna-se criana. Parece que os dias vo se passando e, lentamente, a capacidade que ele tinha de me entender completamente vai, aos pouquinhos, diminuindo. "Rafael completou trs meses no dia 22 de janeiro. `janeiro de 1986. "Alda." *** Este notvel depoimento possui o mgico toque da ternura, do amor, em sua mais pura manifestao. Mas no  s isso -- e nada mais precisaria --, vejo nele a expresso de um sentimento de respeito, quase reverente, da me pelo filho, desde que lhe d as boas-vindas e lhe assegura todo seu apoio e dedicao, no momento mesmo em que se confirmou, para ela, o processo da gestao. Vejo o testemunho da autntica humildade, na singela confisso de que ela se sente "um tanto pequena , tentando explicar a um experimentado ser "as coisas da Terra". Parece entender que ele sabe de tudo isso e que a explicao  apenas um veculo a mais para o carinho que lhe dedica, como o foram tambm as roupinhas que lhe fez. Igualmente digna de destaque  a sensao de presena do esprito reencarnante, amadurecido e adulto, junto dela, com a mo sobre seu ombro, no momento sagrado da prece, enquanto o corpo destinado a ele est sendo gerado nela. Outra importante lio que Alda nos oferece  a de que "a cada dia que passa mais e mais Rafael torna-se criana" e parece ir perdendo, gradativamente, a capacidade de entend-la. Essa , de fato, uma realidade indubitvel que  preciso comentar, o que no me ocorreria fazer se Alda no tivesse chamado minha ateno para esse aspecto. Vejamos isso mais de perto. Conjugando as experincias da dra. Wambach com os ensinamentos que os instrutores da Codificao transmitiram a Allan Kardec (Ver, a propsito, o captulo VII-- "Retorno  Vida Corporal", de O livro dos espritos), podemos elaborar o seguinte quadro geral: 1) O processo da encarnao acarreta ao esprito uma perturbao "muito maior e sobretudo muito mais longa" do que o da morte. "Na morte" -- como consta da questo nmero 339 -- "o esprito sai da escravido; no nascimento entra nela." Fica ele na situao de um `viajante que embarca para uma travessia perigosa e no sabe se vai encontrar a morte nas vagas que afronta", de vez que "as provas da existncia o retardaro ou faro avanar, segundo as tiver bem ou mal suportado". 2) Como o ser humano tem uma longa infncia, ele vive os primeiros

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tempos da encarnao mais ligado ao corpo do que propriamente encarnado. 3) O esprito no se identifica com a matria como se assumisse propriedades desta. A matria  apenas um envoltrio de que ele necessita para atuar no mundo. Ao unir-se ao corpo, ele "conserva os atributos de sua natureza espiritual". 4) O esprito que anima o corpo de uma criana pode ser to desenvolvido quanto o de um adulto, ou ainda mais, caso seja mais evoludo, "pois so apenas os rgos imperfeitos que o impedem de se manifestar. Age de acordo com o instrumento de que se serve". 5) A infncia  caracterizada pelos instrutores como um tempo de repouso para o esprito". 6) "Encarnando-se com o fim de aperfeioar-se, o esprito mais acessvel, durante esse tempo, s impresses que recebe e que podem ajudar seu adiantamento, para o qual deve contribuir os que esto encarregados da sua educao. (...) , ento, que se pode reformar seu carter e reprimir suas ms tendncias. Esse  o dever que Deus confiou aos pais, misso sagrada pela qual tero de responder." H, portanto, um perodo em que, mais ligado ao corpo do que propriamente encarnado, o esprito conserva-se em estado de relativa liberdade. Enquanto durar essa condio, ele tem conhecimento das coisas que se passam  sua volta e do que dizem e at pensam as pessoas que o cercam.  medida que seu corpo fsico se desenvolve, porm, e coloca  sua disposio os rgos necessrios  vida na carne, sua integrao ao meio ambiente e  expresso de seu pensamento, ele vai se deixando como que aprisionar pelas limitaes de seu instrumento fsico, de onde lhe competir exercer sua funo coordenadora, na complexa arte de viver na Terra. Comea, portanto, a perder o uso pleno de suas faculdades de esprito em estado de liberdade. Da em diante ele reage e participa da vida como ser encarnado, dentro do exguo espao mental proporcionado pelas contingncias fisicas. J no percebe mais pensamentos e emoes alheios, entendendo apenas o que lhe  transmitido atravs da linguagem que est aprendendo. Em compensao, comear a expressar, mesmo com seu limitado vocabulrio, suas emoes e reaes. A partir dessa fase, somente quando dorme seu esprito gozar de certa liberdade, proporcionada pelo desprendimento parcial provocado pelo sono comum. E o momento em que lhe podemos falar diretamente ao esprito, como nos recomendam, s vezes, os orientadores espirituais, conforme vimos em alguns casos especficos.  correta, pois, a impresso de Alda de que,  medida que o tempo passa, "mais e mais Rafael torna-se criana" e vai perdendo a capacidade de entend-la atravs dos canais que Lyall Watson caracteriza elegantemente como "linguagem universal da vida", dado que comea a expressar-se na linguagem local falada pelo povo no seio do qual veio renascer. Por isso disseram os instrutores, com preciso e sbria economia de palavras, que "na morte o esprito sai da escravido; no nascimento entra nela". Por isso os pacientes da dra. Wambach acham timo morrer, e carregado de tenses o ato de nascer. Uma vez dentro de sua gaiolinha, fecha-se o alapo e o esprito acaba at esquecido da amplido do espao em que se movimenta antes de renascer. Morrer  "voltar para casa , para a dimenso da qual a gente veio, ao

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renascer. Ateno, porm, muita ateno! A morte liberta quando ocorre no tempo certo,  pessoa que cumpriu com dignidade a sua tarefa na Terra, que procurou viver em sintonia com as leis divinas, O rebelde, o violento, o suicida no se libertam, apenas trocam de priso. At que se corrijam.  a lei...

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14 S ESQUECEMOS AQUILO QUE SABEMOS
O LEITOR NO-FAMILIARIZADO com a realidade do renascimento (reencarnao) poder pensar logo: "U, mas se eu tambm j vivi outras vidas, por que no me lembro delas?" A pergunta  legtima e merece resposta. De fato, ns habitualmente no nos lembramos de ter vivido antes, o que no  o mesmo que dizer que no tivemos outras existncias. Voc pode esquecer certo presente ganho em seu aniversrio h cinco ou seis anos e no entanto o presente, se for durvel, continua por a, provavelmente em alguma gaveta ou armario.  bom que esqueamos mesmo, a fim de aproveitar a oportunidade de dar incio a uma existncia como se estivssemos abrindo um novo caderno de muitas folhas em branco, no qual voc ir escrever sua histria.  bom ignorar que voc teve graves problemas, no passado, com a pessoa que hoje  sua me, seu irmo ou aquela irm mais dificil. Ou que voc tenha enganado vilmente a linda menina que agora  sua filha, ou ficado com a herana que, de direito, pertencia quele genro que voc no queria que se casasse com sua filha.  que as famlias so, quase sempre, arranjos combinados no mundo invisvel entre as diversas personagens de um drama ou de uma tragdia antiga, para que acertem suas diferenas pelo relgio csmico do amor ao prximo, a fim de que todos sejam felizes um dia. Nascem ao nosso lado, ou nascemos ns junto de adversrios, vtimas ou desafetos de outrora, aos quais prejudicamos gravemente ou que nos tenham criado tambm dificuldades e sofrimentos, perfeitamente evitveis, se todos tivssemos agido de maneira correta. Nascem, tambm,  claro, conforme nossos mritos, pessoas maravilhosas, a quem amamos profundamente e respeitamos, mas isto  quase exceo, no a norma, pois no disse o Cristo que primeiro tnhamos de nos conciliar com o adversrio? E que no sairamos de l, ou seja, do sofrimento, enquanto no houvssemos resgatado o ltimo centavo da dvida perante as leis do amor? E que aquele que erra  escravo do erro? Lembram-se, ainda, da sua breve e amorosa advertncia? Aquela que diz: "Vai e no peques mais, para que no te acontea coisa pior." Pois  isso! Ento a famlia  o campo de provas, onde encontramos amigos e desafetos. Os primeiros nos trazem o gostoso refrigrio de sua afeio, num relacionamento agradvel e construtivo.  faclimo am-los. Os outros, no. So pessoas difceis, que inconscientemente guardam de ns rancores ainda no superados, ou mgoas que no conseguiram vencer. E muito mais difcil am-los, convertendo sua atitude negativa por ns em um relacionamento afetivo, desarmado e genuno. Mais uma vez, nos lembramos do Cristo, que tudo sabia, previa e aconselhava: "(...) Amai vossos inimigos", diz ele, em Lucas 6,27, "fazei o bem queles que vos odeiam, bendizei aos que vos maldizem, rogai pelos que vos maltratam." E mais adiante, em 6,32: "Se amais aos que vos amam, que mrito tereis? Pois tambm os pecadores amam queles que os amam. Essa filosofia, aparentemente to estranha, tem profundas motivaes.

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Com aqueles a quem amamos, no h problemas a resolver. J so nossos amigos, basta cultiv-los com carinho e respeito. Com aqueles que nos detestam, ao contrrio, temos questes pendentes, ainda que, conscientemente, as ignoremos. Por uma razo oculta, estamos juntos para que aprendamos a nos amar fraternalmente. E nisso lembramos, de novo, o Cristo, que nos disse outras palavras da maior importncia: "Reconcilia-te com teu adversrio enquanto ests a caminho com ele."  certssimo isso. Ele foi posto em nosso caminho precisamente para que nos reconcilissemos, convertendo adversrio em amigo.  mais fcil realizar essa tarefa quando ignoramos as verdadeiras causas das divergncias. Por outro lado, o difcil trabalho da conciliao tem mrito maior precisamente quando o realizamos por espontneo esforo pessoal em conquistar a confiana e o amor fraterno daquele que nos desama, em vez de faz-lo somente porque  nossa obrigao oferecer ao antigo inimigo a reparao que lhe  devida. Ademais, voc no estar fazendo aquilo por um estranho ou desconhecido, mas por um filho seu, por seu pai, ou sua me, por um irmo, por algum da famlia, enfim. Tambm  bom esquecermos, porque, quando  muito grande o peso das culpas, o remorso ameaa esmagar-nos e paralisar a ao reparadora. Voc pode at pensar que seria melhor conhecer logo tudo de uma vez, mas no  bem assim. O esquecimento nos protege de certas angstias e evitveis vexames. Isso  to verdadeiro que no gostamos de pensar, sequer, nas tolices e loucuras praticadas na juventude ou na mocidade depois que conseguimos algum equilbrio para viver com maior serenidade. Ainda h pouco eu lhes contava o episdio da pedra que atirei no trem, quando estava com sete para oito anos. Sabem de uma coisa? Hesitei bastante at decidir botar aquilo, preto no branco, no papel. No foi nada fcil, mas acabei vencendo as resistncias ntimas, porque achei que o episdio continha uma lio til para um ou outro que o lesse, tanto quanto foi til para mim. Foi naquele ponto da vida que tive a exata noo da responsabilidade pessoal por tudo quanto fazemos. Mas, c entre ns: eu teria preferido deixar o caso da pedra arquivado em alguma gaveta secreta da memria. Ou melhor, nunca t-lo vivido. J imaginou se em vez de jogar uma pedra voc tiver degolado ou envenenado a sangue-frio a menina que hoje  sua filha predileta? E que, alis, nem liga para voc, porque ainda guarda certas desconfianas a seu respeito? (Leia, a propsito, a histria verdica "O Triste Balido da Ovelha Desgarrada", em meu livro O exilado.) Bem, a esto algumas das principais razes pelas quais nos esquecemos das vidas anteriores, a fim de podermos comear outra, como se nada tivesse acontecido. Ocorre, porm, que antigas lembranas e vivncias s vezes transbordam de uma vida para outra, como temos visto em algumas das breves histrias narradas neste livro. Nem sempre tais lembranas so ntidas e explcitas. Surgem sob misteriosos disfarces, como por exemplo quando voc experimenta curiosa e inexplicvel atrao ou repulso por uma pessoa a qual voc acaba de ser apresentado. H pessoas de quem gostamos primeira vista, em quem confiamos e junto de quem nos sentimos perfeitamente  vontade, ao passo que outras, que podem fazer tudo para nos agradar, no conseguimos aceitar seno com muita relutncia.

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Gosto de ilustrar tais situaes com pequenas histrias -- todas absolutamente autnticas, sem trao algum de fantasia. Esta at j contei alhures, em outro escrito. Foi o caso de uma senhora educada, inteligente e equilibrada que me ligou para conversar sobre alguns aspectos de seus problemas pessoais. O que ela pretendia mesmo  que eu pudesse realizar com ela (ou indicar quem o fizesse) um trabalho de regresso de memria, para que ela pudesse identificar as razes que a levavam a tamanha averso por sua prpria me. Dizia-me que a pobre senhora era carinhosa, dedicada e muito amiga, procurando cerc-la de gentilezas e agrados, mas que, com vergonha, ela me confessava no conseguir vencer certa reserva e at mesmo repugnncia. Evitava comer guloseimas que a me lhe trazia e chegava ao ponto de ir lavar as mos depois que ela se retirava. Evidentemente que essa insupervel rejeio era uma atitude que muito a incomodava. Afinal, a senhora era sua me e tudo fazia para ser simptica e agradvel. E, ao que depreendi, jamais desconfiara da repulso da filha por ela. Esse era o problema. Talvez, pensava ela, a regresso de memria desvendasse o enigma e a ajudasse a libertar-se da penosssima situao, seno passando a amar a me, pelo menos vencendo racionalmente a postura de averso e desconfiana. Cabia-me, agora, expor-lhe o que pensava. Disse-lhe que no aconselhava a regresso de memria, mesmo que me fosse possvel faz-la, o que no estava em minhas cogitaes, dado que meus estudos acerca do assunto se destinaram apenas a coligir o material de que me utilizei no livro A memria e o tempo. No era aconselhvel o procedimento porque ela poderia se deparar com um episdio extremamente doloroso e traumtico, que agravaria ainda mais a situao, em vez de minorar suas aflies. Por outro lado, eu no achava necessrio faz-lo. A razo era simples e lgica: no era difcil depreender que o problema com a me resultava de grave erro cometido pela senhora, em alguma existncia anterior, contra a que hoje era sua filha. No tinha eu a menor idia do que pudesse ter sido, mas imaginava at a possibilidade de um envenenamento, quem sabe se por alimentos previamente "preparados", e da a averso da moa pelas guloseimas que a m lhe preparava. O que parecia claro  que a moa deveria ter sofrido nas mos da outra, ou, provavelmente, teria mesmo sido assassinada por ela. Acontece, porm, que tudo isto era, hoje, passado superado. Ficaram desconfianas, temores e reservas, mas como fiz com que ela percebesse, a me estava fazendo grande esforo para se recompor, para recompens-la, para redimir-se dos erros cometidos contra ela. No meu entender, ela deveria esforar-se, de sua parte, em aceitar a me, que evidentemente no era mais a pessoa que fora. A moa ouviu atentamente toda essa explanao, pareceu meditar por breve instante e pude sentir que alguma coisa se desarmava dentro dela. Respirou fundo, como que aliviada, e me agradeceu, disposta a reconsiderar tudo aquilo para uma nova organizao de seus sentimentos em relao  me. Era tudo quanto eu pedia a Deus, por ambas. Disse-lhe que, caso houvesse necessidade, voltasse a me procurar. Como isto no ocorreu, sintome autorizado a concluir que pelo menos as tenses mais graves entre me e filha foram atenuadas.

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Nesse caso, portanto, as matrizes emocionais de duas vidas no se revelaram em toda sua extenso e profundidade, mas o conflito anterior parecia bem caracterizado e no muito dificil de ser depreendido das circunstncias que o envolviam. H casos, contudo, de crianas ou adultos que se lembram com incrvel nitidez de episdios marcantes de existncias anteriores ou at mesmo de vidas inteiras, com identificao, na existncia atual, de pessoas que, em outros tempos, desempenharam papis de vilo, de amigo ou de parentes. Alis  bom reiterar: no  por acaso que as pessoas se unem. No fosse ser indiscreto com meus familiares, poderia escrever uma novelinha de muitos captulos narrando as diversas histrias que, juntos, vivemos no passado, em diferentes existncias e contextos. Esses aspectos, contudo, so de extrema delicadeza e tocam pontos muito sensveis da maioria das pessoas. Amigos espirituais me disseram, certa vez, que fui preparado para conhecer alguns (alis, muitos) episdios de minhas existncias passadas, em razo da tarefa que me caberia desempenhar aqui, na carne. No sei, contudo, se aqueles que me cercam e a mim se ligam por laos de afeio, parentesco ou profissionais teriam sido igualmente preparados para absorver certos impactos suscetveis de criar conflitos ntimos. Observamos que nas experincias de regresses promovidas tanto pela dra. Wambach quanto pela no menos competente dra. Edith Fiore h sempre o cuidado em testar previamente o paciente, para verificar se ele ou ela est em condies de tomar conhecimento de eventos traumticos ocorridos no passado e potencialmente explosivos, se suscitados no presente. As vezes  preciso adiar ou at mesmo abandonar a pesquisa, a fim de que no acontea ficar a pessoa ainda mais perturbada do que est. Isso me faz lembrar um homem que desejava livrar-se de inexplicvel claustrofobia e que se sentiu profundamente decepcionado consigo mesmo ao descobrir que em antiga existncia havia sido pirata, daqueles que assaltavam navios carregados de riquezas, em alto-mar, e depois iam esconder os tesouros numa ilha secreta. A inteno deles era a de se "aposentarem" um dia de suas atividades criminosas, para ento poderem levar vida mansa e respeitvel. Numa das excurses feitas  ilha para esconder o produto dos mais recentes assaltos, um tnel cavado na terra desabou e ele morreu soterrado, a poucos passos da intil riqueza. Nesse, tambm, a lembrana ficara no inconsciente, mas no se apagara e consistentemente enviava seu recado, claro e firme, por intermdio da desagradvel e inexplicvel sensao de claustrofobia. Reiteramos, contudo, que em algumas pessoas, especialmente crianas, tais recordaes so de impressionante realismo.  bom que voc, mame ou papai, saiba como considerar problemas desses com seus filhos.  o que poderemos ver a seguir.

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15 PESSOAS QUE SE LEMBRAM DO ESQUECIDO
DOS SEISCENTOS CASOS PESQUISADOS e catalogados, at ento, o dr. Ian Stevenson (Twenty cases suggestive of reincarnation) publicou, em 1966, apenas vinte, de crianas que espontaneamente se lembravam de existncias anteriores, com maior ou menor riqueza de detalhes, mas o suficiente para produzir evidncias satisfatrias, escrupulosamente conferidas pelo eminente cientista. O dr. Stevenson, com o qual tive a honra de manter alguma correspondncia epistolar,  personalidade destacada nos meios cientficos internacionais, exercendo o prestigioso cargo de diretor do Departamento de Psiquiatria da Universidade de Virgnia, nos Estados Unidos.  certo que enfrentou resistncias e hostilidades ao apresentar-se, corajosamente, como cientista moderno, competente e de elevado status, disposto a aceitar a validade da doutrina das vidas sucessivas. Foi um pioneiro. Sem dvida, influiu para que, hoje, decorridos cerca de trinta anos do lanamento de seu importante estudo, a realidade da reencarnao comece a ser discutida, pesquisada e, finalmente, aceita, mesmo porque muitos outros estudos, documentos, relatos e depoimentos pessoais sobre o tema tm sido divulgados, encorajados ou suscitados pela atitude do dr. Stevenson. Mesmo com as ressalvas e cuidados naturais que um cientista responsvel coloca em suas concluses, o dr. Stevenson inclinava-se francamente, j quela poca, pela doutrina da reencarnao, aps hav-la confrontado com as vrias alternativas, tambm dignas de exame. Essa postura ampliou-se e consolidou-se posteriormente, como pde verificar quem acompanhou o trabalho do ilustre pesquisador. Vale a pena lembrar que um fator especfico contribuiu para que Stevenson comeasse a encarar com simpatia o que, para ele, fora, de incio, apenas uma hiptese: os casos de crianas que apresentavam marcas de nascena (birth narks) devidas a ferimentos recebidos em vida anterior, e, portanto, em outro corpo fsico. No decorrer deste (captulo) (escreve ele  pgina 340 de seu livro, de 1966) solicitarei a ateno do leitor para um tipo de evidncia (marcas e deformidades congnitas) que tambm no podemos atribuir  hiptese da percepo extra-sensorial e que, em casos aceitveis, somente poderia ser explicada por alguma influncia no organismo fsico anterior ao nascimento.  possvel, portanto, que o leitor e a leitora possam, inesperadamente, ter uma criana na famlia que se lembre de uma ou mais de suas existncias anteriores. Tais recordaes espontneas, mais comuns do que parecem, nem sempre so notadas, seja porque as pessoas que convivem com a criana no tm a mnima noo do que se passa, seja porque atribuem os episdios ocorridos e as referncias feitas pela criana a fantasias ou  sua superexcitada imaginao. Seria de admirar-se que no decurso de tantos anos de convvio com a realidade espiritual, alertado para suas demonstraes e evidncias, eu no tivesse tido, como tive, oportunidade de testemunhar alguns episdios desses.

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Vimos, h pouco, casos em que, embora sem se lembrar especificamente das vidas pregressas, as crianas manifestam sintomas e seqelas que so posteriormente identificados com situaes vividas no passado. No caso da querida priminha ex-guerrilheira maquis, claro, no nos foi possvel, pelo menos por enquanto, identificar sua personalidade anterior, O mais certo  que no seja mesmo possvel faz-lo, a no ser por um complexo jogo de "coincidncias". No importa. O caso relatado pelo dr. Jorge Andra no oferece, igualmente, o componente da lembrana espontnea. Sei, porm, que se desdobra dentro de um esquema previsvel, refletindo-se claramente, no menino, traos marcantes e inquestionveis da personalidade anterior, da qual o garoto  a continuidade. No sei at que ponto Andra pretende (deveria ou poderia) dar prosseguimento s suas interessantssimas observaes, mas estou certo de que se for possvel a divulgao dos fatos, sem prejuzo  personalidade da criana, teremos um depoimento do maior interesse cientfico e do melhor contedo humano, alm de curiosos aspectos histricos. De um caso que pude observar em primeira mo, ou seja, de um depoimento pessoal colocado  minha disposio por uma pessoa adulta, tenho me utilizado de amplo e rico material de estudo nesse sentido. Trata-se de uma mulher que durante toda sua existncia, desde os primeiros anos da infncia, conviveu com uma fantstica multiplicidade de fenmenos desse tipo, que a levaram a reconstituir, pelo menos em seus episdios mais marcantes, no apenas uma, mas vrias existncias. Alm disso, foi-lhe possvel observar o sutil mecanismo seqencial que leva umas existncias a se encaixarem -- com preciso, diramos, milimtrica -- nas outras, segundo um planejamento coerente, inteligente e claramente finalista, ou seja, voltado para objetivos inferveis. Alguns dos aspectos do material que a senhora colocou  minha disposio foram utilizados em dois de meus livros anteriores (O espiritismo e os problemas humanos e O exilado) e seria desnecessrio repeti-los aqui, ainda que sob diferentes angulaes e abordagens. Apenas para exemplificar, desejo me referir a um desses "encaixes" seqenciais evidenciados no material que to abundantemente aflorava  sua percepo. Em uma de suas existncias pregressas, elevada a destacada posio de mando e poder, permitiu ou determinou que algumas pessoas fossem sacrificadas, por motivos polticos. Trs ou quatro vidas aps, uma incurvel doena gentica promoveria o inevitvel "acerto de contas" com as leis divinas. Como em outros tempos, o sacrificio humano foi sangrento: onde, seno no seu prprio sangue, se instalaria a marca do equvoco? Foi o que lhe aconteceu. A certa altura da vida -- uma existncia nada fcil, em termos de privaes, angstias, renncias, humilhaes e no poucas conquistas, a despeito de tanta adversidade -- a moa descobriu que estava sofrendo de anemia falciforme. Nenhuma outra doena teria sido mais precisa para ensinar a uma pessoa a importncia que tem o sangue para o ser humano. A vida da pessoa portadora desse tipo de anemia  uma constante luta contra a insuficincia do sangue para distribuir, pelo corpo fisico, as necessrias cotas de oxignio, devido  precariedade e escassez de um elemento vital ao processo -- as hemcias! Em outro caso de memria espontnea de existncias anteriores, um senhor, que identificamos como Andr, viu-se inesperadamente envolvido. Fora

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apresentado a uma simptica e gentil senhora que estava em companhia de uma netinha de sete anos incompletos,  qual chamaremos de Renata. Facilmente atrado por crianas, Andr dirigiu  nova amiguinha algumas palavras de carinho e abaixou-se  sua altura para dar-lhe um beijo na face. Era escasso, naquele momento, o tempo para uma conversa, pois ele tinha compromisso da a alguns minutos. Aps afetuosa despedida, cada um partiu para seu lado. Poucos dias depois comearam a chegar a Andr notcias da nova amiguinha, que como logo se soube era amiga, sim, mas nada recente, pelo contrrio, era um afeto da maior pureza, de muitos e muitos sculos. O encontro, ou, por outra, o reencontro, causou a Renata (e a ele, naturalmente) considervel impacto emocional e parece ter destravado no psiquismo dela seu vdeo-teipe pessoal de lembranas. Sem saber como nem porqu, ela comeou a falar de aspectos da vivncia dele, dos quais no poderia, sob circunstncias normais, ter o mnimo conhecimento consciente. Ela no especulava ou imaginava coisas fantsticas -- ela simplesmente sabia de fatos e situaes com impressionante preciso. Alm do mais, parecia conhecer, com a mesma segurana e convico, traos da personalidade e psicolgicos de seu amigo. Essa criana, que na presente vida no tem vnculo algum de parentesco com Andr, comenta com naturalidade e espontaneidade situaes de sua vida anterior. Vivendo agora em lar equilibrado, com pais amorosos e de tranqila situao financeira, ela fala de uma existncia anterior de privaes e desconfortos, durante a qual no tinha roupas adequadas, nem uma casa razovel para morar. Lembra-se de que a "outra me" no podia, sequer, fazerlhe um modesto bolo de aniversrio. No parece, contudo, guardar mgoas de tais provaes e privaes. E, paradoxalmente, nenhum grande entusiasmo demonstra pela vida atual.  uma das que teriam preferido ficar onde estavam antes de nascer. -- Eu no queria nascer -- disse certa vez  me. -- U, mas por qu? -- Ah, porque no. Eu no queria voltar e comear tudo outra vez, no. -- Mas voc est bem contente; acorda todo dia feliz e sorrindo... -- U! Agora j nasci de novo! No adianta nada... Seu nascimento, nesta existncia, alis, envolveu complicaes que chegaram a pr em risco sua vida e, obviamente, a da me dela. O fato de terem conseguido superar tantas dificuldades , em si mesmo, o que mais prximo estaria de ser um milagre, se esta palavra no estivesse to desgastada. A primeira aluso de Renata a uma vida anterior -- espontnea, como as demais -- ocorreu entre os trs e quatro anos. Dizia chamar-se Shi-Ni-Nin e ser chinesa oujaponesa (ela confunde um pouco as duas nacionalidades). Lembra-se de ter sido danarina e ainda  capaz de reproduzir movimentos e expresso corporal de danas orientais. O interesse pela China permanece na existncia atual. Foi, no entanto, a partir do encontro com Andr que comeou a reproduzir, com maior freqncia e detalhamento, lembranas suscitadas, usualmente, por pequenos incidentes da vida diria. A me no os provoca nem fora a criana, limitando-se a ouvir os relatos com o maior interesse e, certamente, com forte carga de emoo. O interesse se traduz em ateno e em perguntas singelas que do seqncia  narrativa.

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Vejamos dois exemplos, apenas, para no alongar demais o texto. 1) Quando o pai se negou a comprar para ela uma pequena geladeira de brinquedo, dessas que vm com as miniaturas correspondentes, ela foi queixar-se  me, que justificou a recusa com diplomacia: -- Minha filha, seu pai no  rico, no pode comprar tudo o que voc quer. E ela, muito firme, positiva e franca, como de hbito, fez o seguinte `discurso' - No  verdade! Primeiro, eu no quero tudo. (O que verdadeiro, pois ela no  exigente, contenta-se com pouco e tem uma noo muito boa do significado do dinheiro.) E tambm no  verdade que ele seja to pobre assim. Meu outro pai, quando precisou consertar o telhado de nossa casa, teve de pedir a um e outro, porque no tinha nada. Esse aqui, no. Comprou este apartamento velho e feio e reformou ele todo sem pedir um tosto a ningum. Isso  ser pobre? E quando eu peo uma geladeirinha  toa ele diz que no tem dinheiro... -- Ento -- diz a mame --, voc no est feliz com seu pai de agora? -- No -- disse ela, aps um momento de reflexo. -- Estou, sim. Eu gosto do meu pai Z Carlos, sim. 2) Outro episdio de denso contedo emocional ocorreu quando a famlia passava alguns dias na casa de praia, no litoral fluminense. Eram, ao todo, seis pessoas: Renata, a me, o irmo, uma tia e duas primas. Renata insistia em entrar no mar, que estava agitado naquela manh. Ela nada muito bem, mergulha, demora-se na gua e no tem o menor receio. A me  que fica aflita com sua afoiteza. Ela parece considerar o mar um velho amigo para ser amado e no o poderoso gigante a ser temido. -- Mas, minha filha -- reitera a me, ante sua insistncia --, o mar est muito forte. E perigoso. -- Eu tenho cuidado. -- Mas o mar est agitado demais e voc sabe que eu morro de medo. J imaginou se voc se afogar? Que conta vou dar de voc a seu pai? -- Ah,  isso? Ento pode ficar sossegada. Euj morri afogada uma vez. Mas agora no vou morrer de novo, no. Tia e me se entreolharam. -- Voc j morreu afogada? -- pergunta a me. -- Que histria essa? Foi o "disparador" da historinha, que representa um conjunto de fragmentos de mais uma dramtica existncia, pobre, sofrida e, ao que parece, curta. Ela vivia com a famlia -- pai, me e dois irmos -- em um casebre nas proximidades do mar, mas no na praia propriamente. O pai vivia de biscates, sem trabalho certo. Eventualmente, comiam um pouco de peixe, dado por algum pescador mais caridoso. A me pedia esmolas, em companhia de Renata. Se tinha vergonha de pedir? No. Eram pobres mesmo, u! No havia outro jeito... O casebre era coberto de palha. Banho, s no mar (da, sua familiaridade com ele), mas como no possuam roupas apropriadas explica, com a mmica adequada, que era preciso enrolar o vestido at o pescoo e entrar na gua com a calcinha. Como tambm no tinham toalhas, devia esperar, depois, que o corpo e a roupa secassem.

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Naquele dia trgico, ela tivera uma discusso (que no especifica) com "um velho que morava ao lado". Aborrecida, disse  me que iria tomar um banho de mar. Ainda presa, talvez, ao desagradvel incidente com o vizinho, no se deu conta de que entrara muito mar adentro. Uma onda mais forte dominou-a e ela afogou-se. A praia estava deserta, quela hora. Havia apenas um barco  distncia, mas no dava para ouvirem-na gritar. Nessa altura da narrativa, faz-se um silncio denso de emoes, pois todos ali se sentiram envolvidos na dramtica atmosfera que se criara. Ao cabo de alguns instantes, o irmo de Renata lembra-se de perguntar-lhe se ela tinha irmos. Ela informa que eram dois, um de trs anos de idade e outro de dez. Seu nome era Bibi e o irmo mais velho chamava-se Guilherme. Do outro, ela no se lembra do nome. (Teria sido no Brasil? Pouco provvel. Guilherme  nome comum a muitas lnguas: William, em ingls, Wilhelm, em alemo, Guillaume, em francs, Guglielmo, em italiano, etc.) Para quebrar novamente o silncio, a me faz mais uma pergunta: -- E seu amigo Andr? Onde  que ele entra nessa histria? Ainda como que retida nas malhas da memria remota, numa espcie de transe, a expresso do rosto ilumina-se de ternura e ela informa que ele era um homem muito bom que freqentava aquelas paragens. Dava-lhe roupas, brinquedos, doces, calado, de tudo, enfim. E dava esmola  me dela. Quando lhe perguntaram com que idade morreu, ela, ainda com o olhar distante e vago, escreveu na areia o nmero 12, desenhando o algarismo 1 ao contrrio. Regredida ao tempo em que no passava de uma pobre mendiga analfabeta, parece ter escrito o nmero com a memria de ento, mas com os recursos desta vida, na qual apenas comea a desvendar os mistrios das letras e algarismos. H muitos exemplos de tais anacronismos. A importncia de seu testemunho no se limita  dramaticidade dos episdios com que ilustra suas convices, mas alcana mesmo o teor de tais convices, na firmeza e naturalidade com que considera a morte, acertadamente, como simples mecanismo de renovao da vida. -- No sei porque esse drama todo -- comentou ela, a propsito de uma personagem de filme de tev, que se mostrava apavorada ante a perspectiva da morte. -- Morrer no  nada. Euj morri muitas vezes. S que me lembro,  a quarta vez que estou voltando... Aps um dia em que ajudara a me mais do que de costume, a fim de suprir, na medida de suas foras, a ausncia da faxineira, a me, agradecida, beijou-a e disse: -- Mas que filha bonita e boa pra me dela que eu tenho. Sabe, s vezes nem acredito que voc seja mesmo minha filha. Que eu tenha uma filha assim to boa. -- Disso voc pode ter certeza -- comenta ela com segurana. --Sou sua filha, sim. Eu era um esprito. A entrei em sua barriga e agora sou sua filha. Como se pode observar, Renata  um ser amadurecido que traz para a nova existncia um conjunto de slidas convices, o que se revela na extrema competncia em avaliar situaes e expressar suas idias. Mesmo atravs de sua imaturidade biolgica percebe-se a vasta experincia acumulada no passado, em outras vidas. Embora referindo-se apenas a quatro dessas existncias,  fcil perceber que estamos ante um ser dotado de impressionante potencial e at mesmo de um tipo de autoridade que a sabedoria confere s pessoas que a possuem. Tivemos disso inesperada

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demonstrao. Certo esprito rebelde e difcil, do qual vnhamos cuidando em nosso grupo, apresentou-se certa noite como que sem alternativas e sem espao para insistir com sua obstinada rejeio ao nosso acolhimento amoroso. Ela havia exigido dele que fosse falar conosco. O vnculo afetivo que os une, de um passado que ignoramos, mas que est ali, presente, era a nica amarra que ainda o prendia  esperana de recuperao, pois muito errara pelos caminhos de muitas vidas... Observem, a seguir, como esta criana coloca, em seu prprio depoimento, o selo da autenticidade. Aps o relato da vida difcil, em que morreu afogada, a me, consternada ante aquele sofrimento todo, pergunta: -- Diga, Renata, por que voc se lembra dessas coisas? -- No sei, mame. Eu me lembro. No sei porqu. -- Mas -- insiste a me -- todo mundo gosta de lembrar as coisas boas que aconteceram com a gente, mas voc s se lembra de coisas ruins. Por qu? -- Porque  verdade -- diz ela, com desconcertante e lgica simplicidade. -- Se fosse mentira, eu no me lembrava. Quantos ensinamentos tm certas crianas a nos transmitir! Em meu livro A memria e o tempo adotei o melhor conceito que encontrei para caracterizar os enigmas da memria: -- A memria -- disse uma criana annima --  aquilo com o que a gente esquece. E no  mesmo? Pois s podemos esquecer aquilo que, um dia, soubemos, ou, como diz Renata, aquilo que, um dia, foi uma das verdades da vida. *** A recordao de episdios seqenciais ou isolados, de uma ou mais vidas, pode ocorrer de vrias maneiras: por flashes rpidos de vidncia, sob a aparncia de sonhos, em estados semelhantes ao onrico, ou suscitada por incidentes vrios, na vida presente, e que parecem estabelecer confrontos ou simetrias. Acho, porm, que so mais comumente provocadas por encontros com determinadas pessoas que, de uma forma ou de outra, tiveram conosco algum tipo de relacionamento, seja no campo florido do amor ou no tumulto de marcantes desafeies. A literatura especializada tem casos bem documentados em que as reencarnaes foram previamente anunciadas e cumpridas. Dois desses, alis, ocorridos no Brasil, na famlia do erudito professor Francisco Waldomiro Lorenz, foram includos pelo dr. Ian Stevenson em seu livro citado. Num deles, a pessoa anunciou, ainda em vida, sua futura reencarnao na famlia Lorenz e cumpriu a palavra, como se pode verificar, com abundncia de elementos evidenciais pesquisados pelo eminente psiquiatra americano. No caso da menina adormecida, que despertou apenas para me saudar com um belo sorriso, no ocorreram, da parte dela, lembranas espontneas da existncia anterior. As pessoas que com ela convivem, contudo, e que a conheceram, ainda na condio de esprito, tiveram oportunidade de identificla com preciso, no sculo passado, na Frana. Por isso no foi difcil prever

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que seria uma menina brilhante, hbitos um tanto aristocrticos, inclinaes artsticas, possvelmente literrias, delicada sensibilidade e amor  cultura do esprito.  o que est acontecendo com ela. No se preocupem, no obstante, os pais de tais crianas, se o caso ocorrer-lhes na famlia, em identificar de qualquer maneira as personalidades anteriores.  prefervel, quase sempre, deixar as coisas como esto. No  sem razo que nos esquecemos das existncias pregressas, como vimos. E bem mais confortvel para ns. Se, porm, situaes ou pessoas nos levarem a esta ou quela identidade passada, conhecida ou desconhecida, famosa ou annima, no nos deixemos impressionar. O importante  dar apoio e amor  pessoa que veio aninhar-se entre ns, para que possamos todos levar a bom termo nossos respectivos programas de vida, dando continuidade ao processo evolutivo de cada um e de todos.  tudo isso uma fina e misteriosa trama, cujo sentido s iremos perceber mais tarde, mesmo porque voc no consegue ver o desenho do tapete, contemplando apenas um de seus fios. No se assuste o leitor com revelaes ou confirmaes. Procure ser natural, ainda que interessado, sem excessiva curiosidade, pois poder inibir a criana ou nela despertar emoes e tendncias que melhor ficariam onde esto, ou seja, abaixo do nvel que Myers costumava chamar de subliminar. Em outras palavras,  soleira da conscincia, mas sem perturbar o funcionamento desta, uma vez que precisamos dela para os trabalhos desta vida. Seja como for, consciente ou no de nosso acervo de experincias, depositado na memria integral, tudo isso interage e contribui para que a resultante seja sempre aquela que melhor convenha ao nosso processo evolutivo. Se a criana comear a falar sobre vidas anteriores, sobre pais e irmos que teve, a casa em que morava, as roupas que vestia, no se assuste, no a repreenda, no a pressione para dizer mais do que sabe ou quer. Deixe-a falar, oua-a com ateno e respeito, no ironize, nem a castigue ou repreenda por isso. Oua, comente, demonstre o quanto voc est levando a srio o que ela diz. Mesmo que haja algum bordado fantasioso em sua pequena narrativa, o ncleo deve ser autntico. As crianas so dotadas de grande pureza e sinceridade, especialmente nos momentos em que assumem atitudes mais graves, como que solenes. Lembre-se de que ali est um esprito em razovel estgio de maturidade, que sabe muito bem do que fala, mesmo que no consiga expressar tudo o que sabe e sente, atravs de um corpo que ainda no lhe oferece o mnimo de condies de que precisaria para isso. A criana no tem ainda um vocabulrio satisfatrio, nem seus mecanismo cerebrais podem responder como os de um adulto. Deixe-a falar, portanto. E oua carinhosamente o que tem a dizer.  at possvel e muito provvel que ela transmita informaes de grande utilidade ao entendimento de aspectos mais obscuros de sua personalidade, com o que voc poder ajud-la melhor no encaminhamento que ela pretenda imprimir  sua vida. Outra coisa importante: crianas nas quais tais fenmenos ocorrem costumam ser dotadas de aguda sensibilidade, precisamente porque, apesar das inibies naturais que o corpo, ainda imaturo, oferece, conseguem expressar muito do que lhes vai nas profundezas do ser. Isso quer dizer que

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podem, paralelamente, apresentar condies medinicas em potencial e para as quais  preciso estarem os pais atentos e bem-informados. Este ser nosso prximo tema.

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16 NO  TRAGICO SER MDIUM
"MDIUM", ESCREVEU ALLAN KARDEC, com sua costumeira preciso de linguagem e economia de palavras, " a pessoa que pode servir de intermediria entre os espritos e os homens." Sejamos igualmente econmicos, mesmo porque no dispomos de espao para cuidar mais extensamente do assunto, que  trazido para este livro apenas como introduo indispensvel ao tema deste captulo. Ao leitor interessado no faltaro obras especializadas que lhe proporcionaro informaes mais amplas, a comear, evidentemente, por O livro dos mdiuns, do prprio Kardec. Suponho (e espero) que tambm ler com proveito meu livro Diversidade dos carismas, no qual o assunto  tratado com amplitude. No  nada impossvel que o leitor venha a ter, em sua famlia, uma ou mais crianas dotadas de sensibilidade necessria para "servir de intermediria entre os espritos e os homens", conforme caracterizou Kardec. A mediunidade , de fato, um tipo especial de sensibilidade ou percepo voltada para este ou aquele aspecto do mecanismo da comunicao entre ns e os seres invisveis. Alis no deve o leitor se esquecer de que as prprias crianas, como vimos ainda h pouco, eram espritos e, a no ser pelas pessoas dotadas de faculdades especiais, no podiam ser vistos, ouvidos, tocados ou percebidos pelo comum das criaturas enquanto estavam do "lado de l" da vida. Eu, por exemplo. Nunca vi um esprito. Costumo dizer que se dependesse de meu testemunho pessoal de vidncia ou de audincia, eu no aceitaria nada disso. Felizmente isso no ocorre, pois os fenmenos naturais nada tm a ver com nossas crenas ou descrenas - eles simplesmente so o que so. Se, ento, alguma criana sua, de sua famlia ou de amigos e conhecidos comear a apresentar indcios ou manifestaes de nascentes faculdades medinicas, no se assuste, no se aflija, no se espante, nem procure reprimir as manifestaes, com o que somente poderia complicar desnecessariamente as coisas. A mediunidade, como dizamos,  um tipo especial de sensibilidade, percepo ou acuidade para certos aspectos da vida que costumam escapar aos nossos cinco sentidos habituais. A pessoa saudvel, serena, equilibrada e razoavelmente instruda acerca de tais fenmenos tem condies para exerc-la de maneira adequada e proveitosa para si e para os outros. No receba, pois, os primeiros sinais ou sintomas de suas manifestaes em pnico ou com mal disfarada hostilidade, temor e inquietao. Deixe que a coisa venha naturalmente, sem forar seu desenvolvimento extemporneo e sem tentar reprimi-la com aspereza. Observe o que ocorre com a criana, sem assust-la. No  desgraa alguma ter filhos ou filhas dotados de faculdades medinicas; ao contrrio,  uma bno em potencial, se tudo for encaminhado de maneira correta, dentro de um contexto de equilbrio e bom senso. Afinal de contas os espritos so gente, tanto como ns somos espritos. Por que no poderamos nos entender e estabelecer um intercmbio proveitoso, atravs dos canais medinicos que a prpria natureza nos proporcionou para essa finalidade? Assim, se a criana diz estar vendo coisas ou pessoas que voc no consegue ver, ou ouve sons e vozes que seus ouvidos no captam, no salte,

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aflito,  apressada concluso de que ela est ficando doida. Tenha calma, observe, medite, consulte quem entenda do assunto e no tome atitudes precipitadas e afoitas, como proibies, ameaas, castigos, presses e gritarias. Muitas mediunidades fecundas, na verdade a grande maioria, comeam com manifestaes espordicas e fragmentrias na infncia.  s ler os relatos acerca de alguns mdiuns confiveis. Voc encontrar em inmeros depoimentos referncias documentadas da fase inicial da mediunidade, quando nem sempre os fenmenos foram considerados com o necessrio equilbrio e bom senso pelas pessoas que cercavam a criana e que longe estavam de compreender e aceitar serenamente os fatos. De casos outros, em que tais atitudes acarretaram conflitos que se arrastam pela vida afora, nem ficamos sabendo. Mesmo ignorando, de incio, as causas e a natureza dos fenmenos, a famlia deve estar preparada, pelo menos, para consider-los com sensatez e sem estardalhaos desnecessrios e prejudiciais. Raramente a criana  compulsiva mentirosa. Se ela diz que est vendo determinada pessoa ou ouvindo palavras que fazem sentido, conceda-lhe, pelo menos, o crdito preliminar de sua ateno, mesmo porque, se for mentirosa, tambm precisa de ateno e cuidados especiais. Vejamos um episdio desses, que Divaldo Franco me contou. Estava ele com cerca de quatro anos --  uma de suas mais remotas recordaes da infncia -- quando viu aproximar-se dele uma senhora que lhe pediu para dar um recado. Assim: -- Diga a Anna que sou Maria Senhorinha -- pediu-lhe a pessoa. O menino no tinha a menor idia consciente do que fosse um esprito e de que espritos podem apresentar-se  vidncia de determinadas pessoas e falar-lhes. Para ele, ali estava uma senhora como as outras, que lhe pedia para transmitir um recado  me dele, Anna. Divaldo fez o que "a moa" lhe pedia. O problema  que Maria Senhorinha era me de Anna Franco, e portanto av de Divaldo. Nem o menino nem sua prpria me tinham-na conhecido "em vida" porque ela morrera precisamente do parto de Anna, que fora criada pela irm mais velha, Edwiges. Anna Franco tentou dissuadir o menino, dizendo-lhe que Maria Senhorinha fora av dele e estava morta h muitos anos, e que, portanto, (no seu entender) no poderia estar ali mandando recados para ela. Gente morta no fala com vivos, pensava ela. Seja como for, Anna Franco ficou impressionada com a convico do menino a respeito de sua viso, mesmo porque tais fenmenos comeavam a ocorrer com certa freqncia com ele. Por via das dvidas, tomou uma deciso herica: tomou-o pela mo e foi  casa da irm que, vitimada por grave distrbio, vivia, h muito tempo, presa ao leito por uma paralisia. Na presena da tia, Divaldo foi instrudo a reproduzir a histria, o que fez da melhor maneira possvel, nos precrios limites de seu vocabulrio de ento, repetindo fielmente o recado e descrevendo a moa" que o enviara. Era uma mulher magrinha, de olhos verdes e usava um vestido branco, de babados plissados, mangas compridas e gola muito alta. Tinha os cabelos penteados para trs, presos em coque, como se usava antigamente. Tia Edwiges nem precisou falar muito, pois as lgrimas lhe escorriam pela face abaixo.

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Bastou uma frase, curta e emocionada: -- Anna,  mame! Era aquele o primeiro testemunho vivo de sua nascente mediunidade. Anna Franco, embora despreparada para a inesperada situao, era dotada de inato bom senso e inteligncia, a despeito de sua escassa cultura geral. No se deixou impressionar, nem se assustou mais do que era de esperar-se ante o inslito. J o restante da famlia, especialmente os irmos -- bem mais velhos que Divaldo --, no teve a mesma serena compreenso de Anna. Para eles, aquele menino era um tanto ou quanto desajustado. Algum tempo depois, Divaldo comeou a ter um companheiro inseparvel de brincadeiras. Era um menino, aproximadamente de sua idade, e parecia "crescer" juntamente com ele. Brincavam, passeavam e conversavam o tempo todo. O nico problema -- se  que era mesmo problema --  que somente Divaldo via e ouvia seu companheiro de folguedos, o que, para ele, no constitua novidade, nem apresentava dificuldades. Lembra ele, at, um curioso fenmeno, entre muitos. Brincavam, ambos, de puxar por um cordel um velho ferro de engomar abandonado. Cada um com o seu. Com uma diferena, porm, que Divaldo notou: enquanto seu "carro" deixava um sulco na areia, o do outro menino no deixava sinal algum por onde passava. Perguntado a respeito da anomalia, o "garoto" deu uma explicao que,  poca, pareceu satisfatria a Divaldo e no mais se falou no assunto. Nas suas conversas com os outros, Divaldo sempre se referia ao seu companheiro invisvel, que para ele era uma criana igual s outras. No  sempre que tais faculdades, em crianas, tm o desdobramento previsto nesta ou naquela forma de mediunidade. Como as recordaes espontneas de vidas passadas, podem apagar-se ai pelos dez anos de idade. Nem todas as pessoas dotadas de faculdades medinicas tm, necessariamente, tarefas especficas nesse campo, ou seja, nem sempre esto programadas para o exerccio ativo e pleno no intercmbio regular entre os espritos e as pessoas encarnadas. Se, porm, estiverem assim comprometidas, precisaro de apoio e compreenso das pessoas que as cercam, para levarem a bom termo seus compromissos, obviamente assumidos no mundo invisvel, onde viveram como espritos, entre uma vida e outra. Se pais, tios, irmos ou amigos no tm condies e conhecimento suficientes para proporcionar a orientao desejvel, que pelo menos procurem compreender e considerar com o melhor senso de solidariedade aqueles membros mais jovens da famlia nos quais os fenmenos comeam a revelar indcios veementes de faculdades inabituais, sim, mas no sobrenaturais ou indicativas de distrbios mentais e emocionais. No constitui tragdia alguma ser mdium. Ao contrrio,  recurso concedido para que a pessoa tenha condies de exercer to nobre funo: de intermedirio entre as duas faces da vida, que se do as mos por cima das fictcias barreiras da morte. Trgico pode ser, isto sim, a teimosa resistncia de tantos, que levam uma vida inteira de desajustes e problemas emocionais e psquicos porque se recusam a aceitar as coisas como so, ou seja, a exercer as faculdades de que vieram dotados, a fim de, com elas, servirem ao prximo. Considere tais predisposies como a revelao de um talento, como outro qualquer. Se seu filho ou filha denota inclinao para a msica, a

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literatura, a cincia ou o esporte, voc tudo far para que ele ou ela possa seguir o rumo que o levar  realizao de seus sonhos e aspiraes. Por que no proceder da mesma maneira quando os indcios apontam a direo da faculdade medinica? Acresce que a mediunidade pode e deve ser exercida sem interferir com nenhuma outra atividade normal, saudvel e honesta do ser humano. No se trata de uma profissionalizao, um regime de dedicao exclusiva, em tempo integral. Os melhores mdiuns de nosso conhecimento sempre conseguiram conciliar sua participao na sociedade e no exerccio profissional com o trabalho regular e disciplinado do intercmbio espiritual, durante anos a fio, em grupos equilibrados e bem dirigidos. Um amigo meu, muito querido, dotado de privilegiada inteligncia e de respeitvel cultura geral, desempenhou, a inteiro contento, suas responsabilidades como funcionrio graduado e exemplar de um grande banco, paralelamente com suas excelentes faculdades medinicas. No agiram de modo diferente mdiuns como Chico Xavier, Waldo Vieira, Divaldo Franco, Zilda Gama e Yvonne Pereira, para citar apenas uns poucos, dos mais conhecidos. Chico aposentou-se, aps longos anos, de modesta e assdua atividade burocrtica num rgo pblico do estado de Minas Gerais. Waldo Vieira exercia, cumulativamente com sua mediunidade, a profisso de dentista e, posteriormente, a de mdico. Divaldo trabalhou, at aposentar-se, como funcionrio de uma entidade de previdncia social. Zilda Gama foi professora, como, tambm, ao que eu saiba, Yvonne Pereira. Nenhum deles profissionalizou a mediunidade, nem permitiu que o exerccio de suas faculdades interferisse com a atividade normal de seres humanos participantes, dinmicos, interessados nos problemas habituais da vida.  certo que, uma vez manifestada em sua famlia, a mediunidade configura uma responsabilidade para a criana e para os pais e demais pessoas que a cercam.  preciso aceitar, compreender e entender o que se passa, a fim de ajudar a criana, no tempo certo e no ritmo que lhe for adequado, a seguir seu caminho. Nada, porm, de sustos, represses, ironias ou temores. Para relatar um caso especfico de mediunidade infantil emergente, achei melhor abrir espao no captulo seguinte, mesmo porque so muito instrutivas para as finalidades de nosso estudo as inteligentes e moderadas atitudes da me da criana que, embora nofamiliarizada com os aspectos espirituais correspondentes, teve o bom senso de aceitar as ponderaes de uma amiga versada em tais questes e na qual ela confiava.

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17 DOM BIAL E SEU AMIGO BLATFORT
FISICAMENTE PERFEITO E SAUDVEL - nascera com quatro quilos e duzentos gramas --, esse menino parecia feliz e tranqilo. Logo se percebeu, contudo, que se agitava bastante durante o sono e parecia ter pesadelos. Com trs meses de idade, resmungava enquanto dormia e at engatinhava, o que ainda no fazia em viglia. Foi nesse perodo, em que ainda no dispunha de um mnimo de vocabulrio para dizer o que pensava, que comeou a manifestar verdadeiro horror por cenas de violncia. At uma simples discusso mais veemente o deixava em pnico, muito plido e em pranto. Outro aspecto que contribua para compor um quadro meio traumtico, era o pavor que suscitava na criana qualquer som que lembrasse estampido de arma de fogo. Em vez de mero susto, que seria normal, ele se punha literalmente aterrorizado, rgido e plido, incapaz de emitir um som. Certa vez, depois de acalmado pelo pai, que lhe garantira sua proteo ante uma srie de estampidos de fogos de artifcio nas vizinhanas, o garoto conseguiu expor suas razes (j era um pouco maior): -- Nenm tava sentado -- explicou, muito srio --, irmo entrou e: pum!, pum!, pum! O dramtico relato foi acompanhado do gesto caracterstico: o dedinho apontado como arma de fogo. No  preciso falar da emoo do pai, ao ouvir aquilo de uma criana de ano e meio. Viveu os anos seguintes, at a pelos seis, sempre em sobressalto ante a simples viso de qualquer arma de fogo, mesmo de brinquedo, dessas que pais desavisados costumam dar a filhos pequenos. -- Mame -- perguntava ele --, guarda tem revlver? Revlver mata! Guarda mata nenm? Era preciso assegurar-lhe que o policial no estava ali para matar nenm. A pelos seis anos, entrou espavorido em casa e saltou no pescoo da me, a chorar. Momentos aps, entrou uma menininha de oito anos com um revlver de plstico na mo. Estavam brincando de "mocinho e bandido" e ela sacou a arma. Sem saber como cuidar daquela psicose que a punha tambm em sobressalto e aflio, a me comentou a situao com uma amiga, que lhe deu um conselho escorado em uma hiptese, a nica aceitvel sob tais condies: provavelmente o garoto havia sido assassinado a tiros em existncia ainda recente, e a lembrana do episdio se transferira para a presente. Em vez de reprimi-lo ou repreend-lo, o melhor era uma conversa adulta e franca, da qual se incumbiu a amiga, na presena da me. -- Flavinho -- comeou ela --, a gente vive muitas vezes. Nasce, cresce, fica velho, morre e depois nasce outra vez. Algum j matou voc com um revlver ou outra arma qualquer. Mas isso foi h muito tempo. Numa outra vida. Voc nasceu outra vez e agora tem outra vida. E nesta vida ningum vai matar voc de novo com uma arma. No precisa ter medo. -- Ento eu j morri, Didi? - J, sim, amor. J. -- Algum me matou e eu nasci outra vez? -- Exatamente.

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-- E no vai mais me matar? -- No, no vai. Agora voc tem o papai, a mame e eu. E ns no vamos deixar ningum matar voc. -- Eu nasci de novo? Da barriga da mame? -- , isso mesmo. Como se pode observar, a criana absorveu com naturalidade a explicao e formulou suas prprias dedues complementares. Na realidade o conceito de nascer de novo parece ter despertado nele profundo interesse, porque ele voltou vrias vezes ao assunto, em busca de mais informao. Isso parece t-lo tranqilizado, a ponto de poder, com o tempo, at tocar em arma de brinquedo, embora jamais a quisesse para si mesmo. Na festinha de primeiro aniversrio, Flvio revelou outro ngulo traumtico de suas memrias ocultas. Foi tudo muito bem at o momento em que se fez silncio para o incio do clssico "Parabns pra voc". A criana ficou lvida e tensa, deu um grito e se ps a chorar em altos brados. A amiga providencial, considerada pela famlia -- e pela criana -- como segunda me, retirou-a da festa e levou-a para seu apartamento, ao lado. Com muita dificuldade, o menino acalmou-se, para cair em visvel estado de depresso, caracterizado por um choro sentido e contnuo, com o qual, obviamente, traduzia emoes profundas que, de outra forma, no teria como expressar. Uma anlise posterior da situao levou  concluso de que, por ser o primeiro aniversrio, ele talvez tivesse se assustado com toda aquela agitao, e o incidente logo foi esquecido. No segundo aniversrio, desta vez em sua casa mesmo (o anterior fora em casa da av), repetiu-se o fato, para consternao geral. Me e av, sem saberem o que pensar e como agir, desataram tambm a chorar. Novamente a amiga tomou o menino nos braos, retirou-o do ambiente e saiu com ele, procurando distra-lo, at que se acalmasse, o que demorou bastante. A amiga (que o menino tratava de Didi) procurou a me para uma conversa esclarecedora. Decididamente, entendia ela, havia na memria dele um episdio altamente traumtico ligado quele tipo de festa e, mas especificamente, ao momento em que todos assumiam uma atitude mais ou menos solene. Era at possvel que o assassinato a que ele se referira, em sua linguagem infantil, houvesse ocorrido em semelhante festinha, de aniversrio ou casamento, em existncia anterior. Seja como for, parecia indicado para o caso uma reformulao nas festas, ou, eventualmente, a suspenso delas, se fosse o caso. Da em diante, as coisas se acomodaram. As festinhas de aniversrio continuaram a reunir os amiguinhos, havia bolo e brincadeiras, mas nada de parabns cantados. As velinhas permaneciam apagadas, e na hora que julgasse apropriada, a me cortava o bolo, sem nenhuma solenidade especial. Mas o trauma no se limitava s festas pessoais. Mesmo em festas alheias, ele sentia a inevitvel opresso do drama ntimo. Na hora da solenidade dos parabns, ele fgia para algum canto, onde poderia ser encontrado deprimido e, usualmente, em lgrimas. Aos quatro anos de idade um episdio desses deu margem a uma soluo inteligente para o caso. Contra sua vontade expressa, mas em obedincia  autoridade materna, Flavinho no teve alternativa seno acompanhar a me a uma das detestadas festinhas em casa de amigos.

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Acompanhar  bem a palavra, pois ele seguia a certa distncia, com evidente m vontade. A certa altura ela parou para esper-lo e notou, consternada, que as lgrimas escorriam dos olhos dele. -- Que  isso, meu filho? Voc est chorando? -- perguntou. -- Pois , mame. Voc sabe que eu no gosto de festas, mas me obriga a ir... ento eu vou. Foi o toque que faltava para a me entender, em toda a extenso e profundidade, o drama da criana. Bastante comovida, ela abaixou-se, enxugou-lhe as lgrimas e disse: -- No, meu filho, voc no precisa ir; se  assim to importante. Vamos voltar para casa. Mame nunca mais vai obrigar voc a ir a nenhuma festa que voc no queira. Assim foi feito. Embora tenha conseguido vencer suas inibies a ponto de aceitar uma festinha, com parabns e tudo, aos oitos anos de idade, Flavinho no gosta mesmo desse tipo de atividade. Prefere uma reunio informal com o pessoal da casa e pouqussimos amigos. Flavinho  dotado de uma personalidade muito marcante, firme, seguro de si, um pouco autoritrio. No gosta de ser repreendido e tem pouca tolerncia com a pessoa que lhe falta  palavra empenhada, seja isso simples promessa relativamente irrelevante. Tambm de si mesmo exige idntico comportamento.  correto, corts, educado e de hbitos aristocrticos. Com um ano e meio j comia sozinho; com dois anos sentava-se  mesa, como um adulto, manipulando adequadamente os talheres e o guardanapo.  certo que a me exerceu importante papel nisso tudo, pois sempre tratou seus filhos como pessoas dignas de ateno e at respeito, embora com a necessria autoridade, quando era preciso. O importante, porm,  que a atitude da me encontrava plena resposta na maneira de ser dos filhos.c Fragmentos de outras vidas pareciam, s vezes, aflorar na memria de Flvio, suscitados, certamente, por estmulos do momento. Desde os dois anos, por exemplo, com freqncia repetia uma palavra (Ou seria mais de uma?) que soava como (Dombial). Perguntado a respeito, certa vez, respondeu, com naturalidade: --  nenm. Nenm  Dombial! Teria sido algum nobre espanhol conhecido como dom Bial? Ou Vial? O certo  que ele sempre esteve convicto de ter sido essa personagem. Certa vez, deixou suas brincadeiras para vir colocar-se junto ao rdio, que estava transmitindo um trecho de msica erudita, uma pera, ao que se recorda a me. -- Que  isso, meu filho? Voc no gosta dessa msica! (Ela sabia que ele era f do Roberto Carlos.) -- E -- retruca ele. --Agora nenm no gosta, mas quando nenm era Dombial, nenm gostava muito! Em outra oportunidade, mergulhado em profundas meditaes, declarou, ao ser interrogado, que estava pensando em "sua" cidade, que no seu dizer ficava muito, muito longe, era bonita e s vezes ficava toda coberta de branco. E destacava o detalhe com um amplo gesto, como ilustrando a vasta rea sob o lenol de neve. Flavinho foi bastante assediado por entidades espirituais hostis, que lhe

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perturbavam o sono desde os primeiros meses de vida, como vimos, ou lhe acarretavam at movimentao sonamblica (engatinhando) e pesadelos. Mesmo a me, inexperiente em tais assuntos, era de opinio que parecia haver pessoas invisveis em torno do bercinho dele perturbando-o. A amiga esprita aconselhou-a a conversar mentalmente com essas pessoas, tentando apazigu-las e pedindo-lhes que deixassem em paz o menino, que era apenas um indefeso beb. Que lhe dessem uma oportunidade. Seja porque as entidades se deixaram convencer ante os apelos da me, seja porque foram afastadas, as coisas ficaram mais tranqilas.  certo, porm, que ele via tais entidades, pois dispunha, evidentemente, de faculdades medinicas, como demonstrou em inmeras oportunidades. Mesmo antes de conseguir emitir um som, via "coisas" que o deixavam literalmente apavorado, apontando aflitivamente para algum ponto no espao, onde os pais nada podiam ver. Havia, tambm, amigos invisveis, que pareciam proporcionar-lhe certa forma de proteo e companhia. Desde muito cedo, entre um ano e meio e trs de idade, ele brincava com "algum" que ficava sentado em determinada poltrona na sala de visitas. A me, muito nervosa, tentava distra-lo, mudava os mveis de lugar, mas no adiantava: Flavinho voltava a demonstrar que ali estava algum com quem ele se entendia de alguma maneira misteriosa. Certa ocasio a me acabara de dar-lhe a mamadeira e tentava faz-lo adormecer quando ele se virou para a poltrona e sorriu. Ela trocou de posio, insistiu em faz-lo dormir, e ficou a nin-lo, aflita, ansiosa para que ele se esquecesse logo "daquilo" que estaria vendo na poltrona. A essa altura lembrou-se de uma panela no fogo e deixou o filho por uns momentos, para ir  cozinha. Quando voltou, pouco depois, estacou na entrada da sala. O menino se levantara e estava diante da poltrona, com as mozinhas pousadas em invisvel colo, enquanto contemplava, satisfeito, um ponto mais alto da poltrona, onde "algum" deveria estar sentado. Dessa vez a me no conseguiu conter sua aflio e chorou. No dia seguinte, ainda profundamente abalada, foi confidenciar com a amiga e vizinha e logo comeou a chorar de novo, num desabafo do que vinha tentando reprimir h algum tempo: a angstia ante aqueles fenmenos to estranhos que, no seu entender, s podiam ter um sentido -- o de que seu querido beb era uma criana um tanto alienada. Vinha pedir socorro. Alguma coisa precisava ser feita, e logo, pois aquilo no podia continuar assim. --  horrvel -- disse -- ver meu filho ali, com as mos postas num colo que no existe e sorrindo para uma pessoa que no existe. A amiga tentou acalm-la, dizendo que a pessoa existia, sim, ela  que no a via, mas prometeu ajudar, sem saber no momento o que fazer. Teve, depois, a idia de conversar mentalmente com a pessoa invisvel que, intuitivamente, julgava ser a bisav do menino, falecida j h algum tempo. Disse-lhe mais ou menos o seguinte: -- Olha, sei que a senhora est l para ajudar e proteger o Flavinho. A senhora no iria querer fazer nenhum mal a ele, mas a me dele no sabe disso. No entende disso e est justamente assustada. No  justo que ela fique assim, nervosa. Portanto, peo  senhora que, por favor, fale com ela quando for possvel e lhe explique as coisas. Ela veio pedir ajuda a mim, mas s a senhora pode dar-lhe essa ajuda. Por favor, fale com ela para tranqilizla. Eu lhe fico muito grata.

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Essa pequena "conversa" foi  noite, pouco antes de adormecer. No dia seguinte, logo cedo, a me do menino foi procurar a amiga. Estava eufrica, os olhos brilhantes e foi logo perguntando: -- Voc fez alguma coisa, no fez? E contou a novidade. Deitara-se, na vspera, e estava quase dormindo quando, de repente, se viu em casa de sua me. Sua av estava sentada numa poltrona, com Flvio ao colo. -- U, vov -- disse ela --, ento a senhora est aqui? Comparem, agora, o que respondeu a av com os termos em que o pedido fora formulado (mentalmente) por Didi: -- Sou eu, sim, minha filha -- comeou ela. -- Trouxe voc aqui para dizer-lhe que aqui estou para ajudar a proteger o Flavinho. Mas no  justo que voc fique assim to nervosa. Se voc continuar nervosa, vou ter de ir embora. Dizendo isto, colocou o menino no cho e ele correu para o quintal, enquanto as duas se dirigiam para a varanda. -- Est vendo? -- perguntou a av. -- Ele fica l, brincando, e eu tomo conta dele para voc. Pode ficar tranqila, minha filha. No momento seguinte a me do menino despertou. S ento Didi contou o que havia feito, e a amiga ps-se a chorar. Desta vez, porm, era de alegria. Afinal de contas era apenas a vov que estava tomando conta de seu filho e no uma figura alucinatria. *** Em outra misteriosa personagem parecem emergir fragmentos de mais uma existncia passada de Flavinho. Trata-se de um menino -- tambm invisvel aos demais membros da famlia, como no caso de Divaldo Franco -- ao qual ele chamava de Blatfort, com especial pronncia que, a seu ver, ningum reproduzia com fidelidade. Ao que tudo indica, o esprito apresentava-se aos seus olhos como outro menino, mais ou menos de sua idade. Brincavam e conversavam o tempo todo e, s vezes, at pareciam desentender-se, no se sabe se com Blatfort ou com outro menino que participava das atividades. Acontecia, por exemplo, esconderem de Flvio um dos seus brinquedos e ou no permitirem que ele brincasse com eles. Prontamente a queixa era endereada  me: -- Me, o menino no quer me dar o carrinho! Mais familiarizada a essa altura com os fenmenos, graas a orientao colhida nas longas conversas com a amiga Didi, a me comeava a considerar com mais naturalidade os incidentes. Em vez de atemorizar-se ou repreender o filho, limitava-se a dizer-lhe, como se fosse a coisa mais natural do mundo (e no ?): -- Deixa com ele um pouquinho, Flvio. Depois ele devolve. Blatfort podia at cometer inocente indiscrio, contando a Flvio o prato que sua me estaria preparando secretamente para fazer-lhe surpresa, mas era ponderado, amadurecido e tranqilo. Deu-se um episdio revelador quando Flvio, com os naturais receios do "desconhecido", teve de enfrentar seu primeiro dia de jardim de infncia, aventurando-se por um universo que ainda no era o seu. Relutou e acabou cedendo, um tanto a contragosto. A sada, porm, as coisas tinham mudado radicalmente. Logo revelou  me o motivo:

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-- Sabe quem estava l, mame? O Blatfort! Ele disse que no preciso ter medo, que escola  bom para mim. A me guardou para si uma pontinha de inquietao. E se a professora ficasse sabendo da existncia desse Blatfort? Parece, contudo, que a interferncia foi s no primeiro dia, com a clara finalidade de encorajar o amiguinho. Flvio at passou a reclamar, dizendo que Blatfort no estava indo  aula com ele... Aos nove anos de idade, ocorreu dramtico incidente. Flavinho, em pranto, foi em busca da me, que naturalmente o recebeu um pouco aflita. Que foi?, que no foi?, e ele, muito sentido: -- eu vi o Blatfort, mame? -- U, e da? Por que o choro? -- eu vi ele, mame. Mas ele no  mais criana. Ele  um homem agora. E me disse que no vai mais aparecer pra mim. Que eu no vou mais ver ele.  claro que nem sempre a me sabia o que dizer ou fazer ante o inslito de tais situaes. Ao que parece, o esprito se incumbira de uma tarefa junto ao amigo encarnado e chegara a vez de deix-lo seguir, no propriamente sozinho, mas com espao suficiente para suas prprias iniciativas e decises. Na hora da despedida, apresentou-se tal como era, ou seja, como um esprito amadurecido e adulto, se  que tais palavras se aplicam mesmo, ao caso. Ou, ento, estaria partindo para uma nova existncia na carne; ou, ainda, iria apenas acompanhar Flavinho, sem mais aquela presena constante e visvel. Esse intercmbio com seres invisveis constitua eloqente testemunho das faculdades medinicas de Flvio. No somente sua vidncia era bem desenvolvida, como conversava e brincava com seus amigos de outras dimenses. Era freqente saber de coisas que no lhe haviam sido reveladas ou at mesmo lhe fossem deliberadamente ocultadas. Um desses casos foi a morte, por atropelamento, de um pobre beberro que morava numa tapera nas proximidades de uma casa de veraneio da famlia de Flavinho. Entendiam-se bem, Flvio e ele. Quando o homem desapareceu, a famlia preferiu dizer que ele ficara doente e morrera, para no chocar o menino. Flvio parece ter aceitado a piedosa mentirinha, mas dias depois de estar de novo na casa de campo "cobrou" a verdade aos mais velhos. No era fato que o homem tivesse ficado doente. -- No foi, no -- afirmou com segurana. -- Ele falou comigo e me contou. Ele foi atravessar a estrada e foi atropelado. Morreu, mas continua l, na casa dele. E todo dia vai l pro bar, como fazia antes. H tambm premonies bem marcadas e testemunhadas, dessas que costumam integrar as faculdades que compem o quadro medinico. Como a vez em que declarou, taxativamente, que a famlia no deveria tomar aquele nibus e sim esperar o seguinte, pois aquele iria enguiar sobre a ponte (RioNiteri). Foi o que de fato aconteceu. De outra vez foi uma kombi que, segundo sua convicta "profecia", iria atolar. Mas, como? Com um belo dia daqueles? No deu outra. J de volta do passeio, o motorista (tio do menino) resolveu tomar um atalho para encurtar o percurso e deu com um atoleiro memorvel, do qual custaram a livrar-se. Previso semelhante foi feita quando Flavinho conseguiu convencer o pai--j de passagem comprada para Minas -- a adiar a viagem porque, segundo o filho, se ele fosse naquele nibus, no voltaria vivo. Deu-se com o

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nibus fatdico grave acidente, no qual vrias pessoas morreram, entre os quais um parente de conhecido cantor popular nordestino. Em outra oportunidade, Flvio previu, sem nenhum estmulo especial ou solicitao, que o tio iria "tirar um carro na sorte", e que era um carro preto. (Parecia v-lo, portanto.) O tio, que comprara um bilhete de rifa e no pensara mais no assunto, viu-se premiado mesmo com o carro preto da sorte. Flavinho previu, ainda, o nascimento de uma prima e anunciou a gravidez da me, antes que ela prpria soubesse, acrescentando que seria uma menina. Ao escrevermos estas notas, Flvio est se aproximando dos treze anos de idade.  um menino perfeitamente normal, sadio, forte e intelectualmente muito bem-dotado. Aprendeu a ler praticamente sozinho, manipulando brinquedos educativos. Na escola, aprende com notvel facilidade, como se aquilo no exigisse nenhum esforo especial. (No  sem razo que Scrates ensinava que aprender consiste apenas em recordar.) A impresso de sua querida Didi, experimentada professora,  a de que o sistema educacional vigente no lhe proporciona as condies ideais para um desenvolvimento de mais amplas dimenses. Realmente, pesquisas modernas demonstram que a criana superdotada acaba prejudicada pela mediocridade dos mtodos pedaggicos, porque no encontra, na atividade escolar, o estimulo do desafio, importante ingrediente na formao cultural dos mais inteligentes, nem a liberdade de que necessita para fazer suas opes quanto ao currculo, e a nfase que deseja colocar nesta ou naquela matria de sua preferncia. Na verdade inteligncia no  dom especial, nem trao hereditrio, e, sim, testemunho de uma vivncia maior, marca de um esprito mais experimentado e amadurecido, j habituado, de muitas vidas, com o trato dos problemas da mente, da cultura, da sabedoria, enfim. Um dia saberemos como lidar adequadamente com essas pessoas especiais, muitas das quais se estiolam e se perdem no anonimato porque, no momento certo, no puderam contar com os estmulos necessrios. Apesar disso, so muitos os que superam tais dificuldades e seguem em frente, at mesmo abrindo novos caminhos para outros que venham atrs. Parece legtimo esperar que Flavinho seja um desses. A grande lio que ressalta desse caso  a do excelente relacionamento entre as pessoas envolvidas: pai, me, filhos e a amiga da famlia. Problemas e dificuldades que poderiam ter provocado pnico ou lamentveis conflitos so examinados com seriedade e a possvel tranqilidade, aps superado o impacto emocional do primeiro momento de perplexidade.  de reconhecer-se que operou aqui um feliz conjunto de circunstncias que desaguaram em solues de bom senso para as crises ocorridas. Inexperiente no trato de situaes potencialmente estressantes, como as suscitadas por certas manifestaes inabituais da psique humana, a me encontrou uma pessoa de sua total confiana, em condies de lhe proporcionar segura orientao. Seriam, contudo, imprevisveis as conseqncias, se a pessoa consultada fosse uma dessas afoitas e despreparadas "entendidas", que no hesitam em dar os mais extravagantes palpites sobre questes desse tipo. Vamos, pois, reiterar observaes feitas alhures, neste livro: no entrem em pnico se seus filhos comearem a lembrar-se de existncias anteriores, ou revelar algum potencial medinico.

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Mantenham-se calmos, dem aos incidentes a ateno que merecem, observem tudo com serenidade, faam perguntas com naturalidade, manifestem seu amor e compreenso  criana, assegurem-lhe sua proteo ante seus temores e jamais a ameacem ou castiguem para que deixe de "inventar" coisas. Procurem informar-se com algum que esteja familiarizado com esses problemas, mas  preciso que voc no apenas tenha confiana nessa pessoa como nos conhecimentos que diz possuir, antes de pr em prtica o que lhe for sugerido. Este ponto  o mais crtico de todo o processo, porque so muitos os que se julgam profundos conhecedores dos mecanismos do esprito, mas no passam de meros curiosos, totalmente despreparados, a pontificarem, cheios de empfia e mistrio, munidos apenas de lamentvel primarismo. A mediunidade no  uma doena mental ou desequilbrio emocional, e, sim, uma sensibilidade especial do psiquismo humano, uma faculdade nobre que, bem-orientada e adestrada, serve maravilhosamente bem de instrumento de ligao entre os seres que vivem encarnados e os que esto, no momento, vivendo no mundo que, para ns,  invisvel. Uma boa palavra aqui  esta: calma! Outra coisa, no menos importante,  a seguinte: se no sabe, aprenda a orar.

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18 A DEBATIDA INFLUNCIA DO MEIO
TODOS NS DESEJAMOS FILHOS BONITOS, sadios e inteligentes. Usualmente  o que acontece, mas nem sempre. Uma vez fui procurado por um pai aflito. Estava assustado ante a fantstica capacidade intelectual que vinha revelando seu filho desde os primeiros anos de vida. A criana no somente era dotada de excepcional inteligncia, como possua elevado grau de maturidade. No foi difcil entender as razes da preocupao daquele pai que, com sua sensibilidade e agudo senso' de dever, tinha conscincia da responsabilidade do casal no encaminhamento do pequeno gnio que viera abrigar-se em sua famlia. Que fazer, perguntava-me ele, com uma criana assim? Como educ-la, como guiar-lhe os passos, como trat-la, enfim, para que fosse possvel o desenvolvimento de todo o seu potencial? A preocupao  legtima, a meu ver, porque a inteligncia em si mesma  neutra, o que significa que tanto pode ser usada nas arquiteturas do bem como nas deformadas construes do mal. Ela pode ser a instrumentao de um esprito maquiavlico, voltado para tenebrosas maquinaes, como devotar-se de tal maneira  propagao do bem que deixar atrs de si, por onde passar, a marca do amor fraterno e da felicidade. No sei porque, contudo, minhas intuies acerca daquele menino eram as melhores possveis. Sugeri ao ansioso pai que ele e sua esposa dessem apoio material e moral e todo o amor que lhes fosse possvel quela criana. Quanto ao seu encaminhamento na vida, no se preocupassem, pois ele certamente sabia o que viera fazer aqui, entre ns. Expliquei-lhe, como pude, o mecanismo dos renascimentos, procurando faz-lo entender que a criana no  um ser que comea a vida, mas que recomea, que lhe d continuidade. J vem de outras eras e segue rumo ao futuro. No posso ter tido a esperana de que ele tenha concordado ou aceitado tudo o que lhe disse, mesmo porque predominavam em suas estruturas de pensamento e ao conceitos catlicos, que era meu dever respeitar. Tive a impresso, contudo, que ele se despediu mais tranqilo. Lembro-me, com estranha nitidez, daquele dia. Era um fim de tarde, j ao anoitecer. Mudramos, no h muito, para um novo apartamento e estvamos com a casa um tanto tumultuada, devido s obras de reforma. Ao escrever, hoje, estas linhas, quinze anos se escoaram e o menino , agora, um jovem de mais de vinte anos. Confirmaram-se nele as expectativas mais otimistas, realizando-se a modesta e involuntria "profecia". Ele sabia mesmo (e sabe) abrir caminhos, pelos quais vai trilhando. Dotado de inteligncia, de fato, superior, devotado aos estudos, srio, responsvel, equilibrado e sensato, vai se tornando rapidamente um sbio, mergulhando em assuntos que intimidariam, devido  sua complexidade, pessoas aparentemente mais amadurecidas. Como precoce poliglota,  praticamente ilimitado o escopo de suas leituras, mas ele sabe manter rigoroso critrio seletivo, para no ser apenas um amontoador de conhecimento livresco ou mero devorador de livros, qualquer que seja a natureza de seu contedo. Dentro de todo esse contexto de vida, no perdeu o senso perfeito do balanceamento de suas emoes, no permitindo que a busca do conhecimento, impulsionada por insacivel sede de saber, faa dele um frio

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intelectual.  um filho amoroso, devotado aos pais, com excelente nvel de relacionamento com eles. Em suma, um esprito amadurecido, experiente, no qual se pode entrever, com a maior transparncia, uma longa e proveitosa srie de vivncias. Onde quer que ele renasa, sejam quais forem a poca e as condies sob as quais viver, ele encontrar seu caminho, superando maiores ou menores dificuldades. Isso nos leva  discusso de um aspecto que tem alimentado infindveis debates tcnicos e especulativos: o ser humano, em geral, e a criana, em particular, so o que se habituou considerar como um produto do meio? Ou, em outras palavras, sofremos a influncia do meio em que vivemos ou nos impomos a ele, desenvolvendo virtudes (ou vcios) a despeito da exemplificao  nossa volta, num sentido ou noutro? A experincia e a observao de fatores ainda no considerados pela cincia oficial -- que no leva em conta elementos importantes do problema, como a realidade espiritual -- nos induzem a propor respostas cautelosas, matizadas, sujeitas a possveis confirmaes ou correes, como alis exige a grande maioria dos problemas humanos. Raramente tais questes podem ser eqacionadas e resolvidas com preciso matemtica, atravs de uma frmula prevista, que sirva para todos os casos da mesma natureza. Apenas em alguns aspectos bem especficos os seres humanos podem ser quantificados e classificados, e isso fica mais para os domnios da estatstica. Podemos saber, com preciso, quantos homens, mulheres e crianas existem em cada comunidade, que freqncia apresentam em cada faixa etria, grau de instruo ou de poder aquisitivo. Que tipo de religio ou crena professam, que atividade desenvolvem e em que tipo de habitao moram. Como, porm, avaliar-lhes o grau de felicidade, a natureza de seus sentimentos e at que ponto, precisamente, o amor fraterno os motiva a esta ou quela ao? A velha controvrsia acerca da influncia do meio sobre as pessoas poderia ser posta em termos menos radicais. Seria desavisado negar que o meio influencia as pessoas, pois no podemos ignorar o poder sugestivo do impulso imitativo, especialmente nas crianas.  comum encontrarmos filhos entregues ao esforo, consciente ou inconsciente, de imitarem o pai, a me ou ambos, seletivamente, nesse ou naquele aspecto da personalidade de cada um. Podem as crianas acostumar-se, por exemplo, a falar em voz alta, a comer esse ou aquele tipo de alimento, a valorizar mais o dinheiro e a acumulao de bens materiais do que a busca de realizao intelectual, tudo isso movidas pelo estmulo da imitao, pela simples inrcia da motivao ambiental. No  difcil perceber, por outro lado, que mesmo nascidas e criadas em ambientes sem o menor estmulo s coisas do esprito, por exemplo, h crianas que desde cedo manifestam inquestionveis inclinaes pelo estudo, pela especulao intelectual, pela nsia de conhecimento. Da mesma forma, encontraremos jovens criados com intelectuais que derivam para atividade completamente estranha s que v desenvolverem-se no ambiente em que vivem. Depreende-se, por isso, que dons ou tendncias especficas podem ser estimulados, suscitados, tanto quanto comprometidos e sufocados pela influncia do meio, mas tambm pode a criana impor-se a ele, com maior ou

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menor segurana e determinao. No , portanto, o meio que forma ou contribui, de modo decisivo, inquestionvel e inevitvel, para que a pessoa seja desta ou daquela maneira, embora possa contribuir com alguma pincelada, tonalidade ou matiz. Vamos repetir, para refrescar nosso entendimento: a criana um esprito que ainda h pouco estava no mundo invisvel, entre a vida que se foi, alhures, no tempo e no espao, e a que mal recomea, na carne. Entre uma existncia e outra, passamos todos por um perodo de reavaliao pessoal, de reviso do que fizemos anteriormente, de reestruturao de conceitos e, finalmente, de reprogramao da vida. Em suma, o que fizemos at ento, onde erramos ou acertamos, o que precisamos fazer para desenvolver esta ou aquela linha evolutiva? Como corrigir erros cometidos? Que fazer para recuperar afeies perdidas devido  nossa insensatez? Como nos recompor com pessoas que transformamos em adversrios ou mesmo inimigos difceis? Que tarefas temos a desenvolver na prxima existncia ou nas subseqentes? Que traos de carter devemos batalhar para retificar e que virtudes ou faculdades estimular? Onde, quando e junto de quem vamos renascer da prxima vez? Com que programa de trabalho ou projeto pessoal? Considerados esses e inmeros outros aspectos de maior complexidade e traada uma escala de prioridades, acabamos por elaborar, com a assistncia de devotados e competentes conselheiros, um programa de ao que envolve considervel nmero de variveis. Em tudo isso, porm, fica reservado espao para o exerccio do nosso livre-arbtrio, respeitado pelas leis csmicas que nos regem at limites bastante elsticos, mas no arbitrrios ou indefinidos. Em casos extremos, a lei interfere com um dispositivo inibidor que resulta, praticamente, no cerceamento da liberdade de continuar cometendo desatinos. Exemplo: depois de repetidos fracassos, vida aps vida, com idntico ou muito semelhante tipo de erro, pode ocorrer uma encarnao compulsria em corpo deformado, ou dotado de vida meramente vegetativa, a fim de que a pessoa fique, paradoxalmente, protegida de si mesma, ao abrigo de suas prprias paixes e insensatez.  como se a lei determinasse uma priso dita perptua, porque dura enquanto durar a prpria vida, e pode at transbordar para a seguinte e alm... Como a criana  um esprito que traz uma programao, um planejamento, um projeto a executar,  at possvel que venha para um ambiente hostil s suas aspiraes, precisamente porque, no passado, quando disps de facilidades e recursos adequados e suficientes, deixou de realizar sua tarefa, por negligncia, irresponsabilidade ou desinteresse. No entanto, para que possamos avaliar a dificuldade da posio de pais ou tutores da criana, a fim de compreendermos tudo isso, convm mostrar outros aspectos dessa complexa problemtica. Suponhamos que a criana venha para a nova existncia com uma carga mais pesada de deformaes pessoais e erros a retificar. No  difcil imaginar que, em um caso desses, trata-se de um espirito ainda um tanto rebelde, desajustado e desarmonizado, sobre o qual sero ponderveis as influncias do ambiente em que viver. Se encontra pessoas que o ajudem a combater suas inclinaes negativas, poder conseguir muito maior xito do que se conviver com pessoas que o abandonem a si mesmo, quando no contribuam para que mais se consolidem as deformaes emocionais que est programado para atenuar, seno corrigir de todo.

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 grave, pois, a responsabilidade de quem recebe uma criana para criar, seja filho prprio ou alheio. Se contribuir para que se consolidem nela tendncias negativas, em vez de ajud-la a refazer-se, estar assumindo quotas adicionais de responsabilidade e agravando suas dificuldades de relacionamento com aquele ser, em futuro prximo ou mais remoto, nesta ou em outras existncias. Nenhum de ns  uma ilha psicolgica ou emocional. Somos partculas de um s continente da vida. O que fazemos ou deixamos de fazer, por incrvel que parea, pode alterar condies e vivncias que somente daqui a alguns sculos ou milnios venham a resolver-se satisfatoriamente. Como dizem os modernos fisicos-msticos (Ver, por exemplo, O Tao da fsica de Fritjof Capra.), os movimentos, aparentemente imperceptveis, do nosso minsculo tomo individual -- pois somos partculas de conscincia -- acarretam movimentos correspondentes no prprio cosmos, no qual estamos integrados. De uma forma ou de outra, se agimos bem ou mal, criamos, naquele diminuto espao nosso, uma perturbao ou uma acomodao no universo, como um todo. Nenhum outro fenmeno  to fantstico e impressionante para o ser humano que o experimenta quanto o da chamada conscincia cs-mica, um estado semelhante ao xtase, que suscita no ser humano a certeza dessa participao e integrao no todo. As fragmentrias descries e depoimentos que temos a respeito nos do conta de uma sensao de perfeita identidade global, como se o indivduo fosse o universo inteiro e no apenas um tomo consciente. Mas isto, afinal de contas, seria matria para outra dissertao. Apenas desejamos caracterizar aqui a responsabilidade de cada um de ns, desde o momento em que um esprito comea a preparar-se para ser nosso filho ou filha, gentico ou adotivo. Na verdade, para ser mais preciso, a responsabilidade recua muito mais, pois ela se arma no momento em que, por uma razo ou outra, nossos destinos se cruzaram, alhures no mundo, em tempo que nem sempre podemos determinar, ou, sequer, imaginar. Problemas crmicos que esto sendo ainda hoje trabalhados e podero s-lo ainda pelos prximos sculos ou milnios vm sendo tecidos na tapearia da eternidade desde pocas que somente nossa memria integral poder revelar. Meu livro "O exilado" reproduz o depoimento de um esprito que j trazia compromissos a resolver quando foi trazido  encarnao na Terra, depois de muitos e persistentes erros em remotas regies do universo. Ento, aquele filho bonito, inteligente, saudvel e antigo que recebemos agora pode ser um amigo e respeitvel companheiro de longnquas eras, que nos concedeu a honra, a alegria e a responsabilidade de escolher-nos como me e pai. Recebamo-lo com a alegria a que fizemos jus, todos ns, e com o renovado amor que, desde muito, nos une nos inquebrantveis laos da luz imortal.

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19 FILHOS DEFICIENTES
BEM, E SE A CRIANA QUE RECEBERMOS no for bonita, inteligente e sadia? A primeira atitude a assumir, to logo tenhamos absorvido o impacto maior ou menor que nos causou essa verificao,  a de que a pessoa que nos foi entregue  um ser humano, to filho de Deus como cada um de ns. A segunda postura, to firme e urgente quanto esta,  a de que, por alguma razo concreta, veio para junto de ns um esprito condicionado a certas limitaes, contornveis umas, irreversveis outras, que nos compete aceitar para enfrentar as dificuldades decorrentes. O terceiro aspecto a considerar  o de que a dor, a desarmonia, o desajuste, so situaes transitrias. A lei divina prov para todos ns um estado final de felicidade permanente, e por isso tornou-se imperioso decretar, simultaneamente, a transitoriedade do sofrimento. No h sofrimento eterno em nenhum recanto do universo; h seres que sofrem por um espao maior ou menor de tempo, conforme a natureza de seus equvocos e na razo direta do esforo que procuram fazer para ajustar-se s leis csmicas desrespeitadas e que tudo prevem e provem para que se realize o objetivo final da paz interior. Algumas religies costumam chamar isto de salvao. O nome no importa, e sim a verdade nele contida. Um quarto aspecto deve ser mencionado e explicitado: o de que os pais de uma criana deficiente tm, necessariamente, um envolvimento pessoal na questo. Em outras palavras: tm uma quota de responsabilidade perante aquele ser, ainda que no obrigatoriamente resultante de uma culpa. O ser humano no  criado para a desgraa, para o desamor, o sofrimento, a angstia, e sim para a felicidade. Toda a legislao csmica converge para esse fulcro luminoso. No haveria o menor problema em l chegarmos todos, no tempo certo, se entendssemos que as leis divinas no operam contra ns e sim a nosso favor. E  precisamente por isso, ou seja, porque esto programadas para nos levarem aos ltimos patamares da perfeio espiritual que elas contm apropriados dispositivos para promover a correo de rumos em nossos roteiros evolutivos, sempre que enveredamos por atalhos. De que outra maneira iria a "Inteligncia Suprema" -- que foi como os espritos caracterizaram, sem definir, a Divindade -- guiar nossos passos, seno criando leis que nos trazem de volta ao caminho certo sempre que nossas paixes nos levam ao transviamento dos atalhos?  certo que o filho que nos chega com deficincias fsicas ou mentais vem com sua mensagem de sofrimento para si mesmo e para ns. Fica difcil convencer pessoas totalmente despreparadas a aceitarem situaes como essas, nas quais a dor que nos causam as limitaes a um filho ou uma filha que muito amamos  precisamente o remdio que a lei est ministrando, a ns e a ele, para que, futuramente, possamos chegar juntos ao territrio livre da paz, que est alhures,  nossa espera. Rebelar-se contra o medicamento prescrito para nossas mazelas resulta inevitavelmente em agrav-las. A lei est sendo, em tais oportunidades, generosa e compassiva, nunca mesquinha, dura, insensvel ou vingativa. O que ela est fazendo  oferecer-nos a tao sonhada oportunidade de recuperao, de refazimento, de purificao, pela qual, paradoxalmente, ansiamos.

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E certo que so severas, muitas vezes, as provaes e sofrimentos impostos sob essa forma. Conheo alguns casos desses, dos mais dificeis, e estou convencido de que o leitor, tambm, se rebuscar a memria, h de encontr-los. Um caso, em especial, deixou em mim profunda impresso. O menino nasceu aparentemente perfeito, mas logo se verificou que tinha apenas vida vegetativa. No andou, no falou, jamais saiu do leito, ou melhor, dos leitos, pois viveu mais de trs dcadas. Viveu? -- voc perguntar. Sim, viveu, embora aprisionado em um corpo sobre o qual nenhum controle exercia: movimentava apenas os olhos, profundos e assustados. Nos raros momentos em que conseguia cochilar, parecia mergulhar em alucinantes pesadelos, dos quais despertava em pnico, como se corresse a abrigar-se no corpo que, para ele, era a bno do refgio, no apenas o poste de dor ao qual estava amarrado. Era tambm ali, junto daquele corpo de morto-vivo, que ele encontrava a infalvel presena de sua devotadssima me. Um dia ela partiu, vitimada por inesperada complicao orgnica. Meses depois, ele tambm se foi. Libertavam-se ambos, tanto o prisioneiro quanto a doce companheira que amarrou seus prprios ps com as mesmas correntes que prendiam o filho quele corpo precrio. Jamais se ouviu dela uma queixa, um gesto de desalento, uma palavra de revolta, uma expresso de cansao. E ainda foi antes dele, para esper-lo do lado de l! Talvez um dia venhamos a saber um pouco da dramtica histria que se agitara, em outras eras, por trs de toda aquela concentrada dose de sofrimento, mas ainda que me fosse dada a oportunidade, jamais desejei conhecer esse drama. Foi a histria de uma dor, vivida com serena dignidade e amor, e por isso credora do nosso me-lhor respeito e da mais profunda admirao. Podemos imaginar que o esprito daquela me tivesse algum compromisso a resgatar junto do prisioneiro. E at possvel que ela tenha sido a causa de srios transviamentos morais dele, em algum remoto passado. Ou, ento, como tambm acontece, tenha aceitado espontaneamente a durssima tarefa apenas para servir e ajudar algum, a quem ela amou e ama, a dar os primeiros passos para fora do atoleiro. Como disse, no sei de suas histrias, seno aquilo que testemunhamos aqui, do lado de c da existncia. Estou certo, porm, de que se nos encontrarmos por a com o luminoso esprito de uma mulher serena,  bem possvel que estejamos na presena daquela me dedicada. Dizia o Cristo, com a razo que tem em tudo quanto nos legou de sua sabedoria inesgotvel, que  fcil amar os amigos, difcil  amar os inimigos; e  precisamente isto que precisamos fazer. Por extenso, podemos dizer que  fcil amar aos belos, aos inteligentes, aos sadios, mas, como tambm dizia o Cristo, so os doentes que precisam de mdico. E muitas vezes a doena da alma ocorre exatamente naqueles que dispem dos mais belos corpos e das mais lcidas inteligncias. E que beleza e inteligncia, tanto quanto poder ou riqueza, so testemunhos, so testes, so at provaes que nos experimentam, com o objetivo de verificar se j estamos suficientemente amadurecidos para identificar com segurana os valores permanentes da vida e aqueles que so apenas expresses da transitoriedade fugaz do brilho falso. Mas, no apenas isso, e sim para que, identificados uns e

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outros, tenhamos a sabedoria e a coragem de fazer as corretas opes. Lembro, neste contexto, outro caso que, alis, contei resumidamente alhures. O menino nascera em famlia de confortvel status social e econmico, de um jovem e belo casal culto e inteligente. Era at um bonito menino, de boa aparncia fsica, mas tambm sem o necessrio controle sobre o corpo. Disseram-me pessoas da famlia, que me procuraram para conversar sobre o assunto, que a criana tivera o crebro danificado ao nascer, por causa de um sufocamento que tardou mais do que deveria, ao ser clinicamente socorrida. Recuperadas a respirao e a vida, o crebro apresentava problemas irreversveis. Alm do mais, a tomografia revelara exgua massa cerebral, suficiente para que o poderoso computador vivo pudesse funcionar com um mnimo de condio, mas no com uma parte decisiva de seu potencial. Um detalhe era particularmente dramtico: o av, competente mdico, embora no responsvel pelo parto, nada pudera fazer, a tempo, para salvar o neto, com o que se sentia profundamente deprimido.  esta uma situao que suscita muitas perguntas angustiante: por qu? Por que meu filho? Ou meu neto? Por que no foi possvel fazer alguma coisa a tempo? Como poderia ter sido prevenido ou evitado o funesto acidente? De quem a culpa? Perguntas at respondveis, algumas, mas em que poderiam contribuir tais respostas para uma desejada modificao na situao? Consultados a respeito -- dado que a famlia se mostrou desejosa de uma orientao que, pelo menos, os levasse a melhor entendimento das coisas--, nossos amigos espirituais concordaram em trazer-nos alguns esclarecimentos e palavras de consolo e orientao. Segundo eles, pai, me e filho constituram, em passada existncia, componentes de um tringulo amoroso. A jovem e um dos rapazes estavam j com o casamento acertado quando ela se apaixonou pelo outro, atual pai da criana deficiente. No precipitado impulso, em momento de desatino, o jovem preterido atirou-se por um despenhadeiro abaixo, danificando de maneira grave precisamente seu crebro fsico. O atual av, que era ento seu pai, tudo fez para salv-lo, mas no o conseguiu, ficando marcado por profunda mgoa, pois muito amava o filho e nele depositava grandes esperanas. Quanto  moa, uniu-se, afinal, ao jovem de sua escolha. Na inexorvel simetria e preciso das leis divinas, o trio acabou marcando novo encontro para esta existncia. Programaram os dois novamente casar-se e receberem o que outrora fora rival do rapaz e noivo rejeitado da moa. A lei concedia, dessa maneira, aos pais, a oportunidade de restituir a vida fsica quele que a perdera por causa da rivalidade amorosa. O noivo abandonado, por sua vez, cometera o grave erro de suicidar-se, danificando irreparavelmente o mais importante dos centro vitais -- o crebro fsico, com as inevitveis e conseqentes repercusses no sistema perispiritual. Ao que tudo indica, mesmo que no houvesse ocorrido nenhum incidente no parto, a criana teria srias leses ou deficincias cerebrais, o que a condenava a uma existncia seno totalmente vegetativa, pelo menos obstruda por severas limitaes fsicas e intelectuais. De qualquer maneira, era inevitvel que ele constitusse pesado encargo para os pais, alm do sofrimento regenerador que a si mesmo impunha, como

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prisioneiro de um corpo deficiente, por ter, impulsivamente, rejeitado a oportunidade que lhe fora concedida, da vez anterior, em corpo normal e saudvel. Podemos ir at um passo mais atrs, onde, certamente, teramos observado que, em outra existncia, ainda mais remota, alguma falha de comportamento pusera-o na condio de ser rejeitado pela noiva em favor de um rival. Nada disso ocorre por mero acaso. No somos encaminhados para a existncia na carne programados para o suicdio, o assassnio, o crime em geral. Viemos para progredir, para testar nossas resistncias e conquistas, precisamente em situaes estressantes, que nossos equvocos anteriores criaram para ns. Em outras palavras, no era preciso matar-se porque perdeu a noiva. Poderia ter reformulado sua vida, pois  certo que aquele incidente especfico da rejeio por parte dela no era uma certeza e, sim, uma possibilidade, um teste a mais, se ocorresse, como ocorreu. Dessa maneira, em vez de resgatarem, os trs, alguns equvocos perfeitamente sanveis, complicaram-se ainda mais, no envolvimento com as leis. Este caso apresenta uma peculiaridade inesperada.  que os amigos espirituais que nos trouxeram a mensagem orientadora mantiveram com o esprito da criana uma entrevista, dado que, obviamente, fora do corpo deficiente, que lhe impunha severas limitaes, ele era perfeitamente lcido. Reconhecia seu grau de envolvimento no problema e lamentava todo aquele cortejo de aflies, mas estava disposto a levar a bom termo sua parte da provao. Pedia que se acostumassem a trat-lo com naturalidade, sem se afligirem mais do que o razovel com suas deficincias. Queria, tanto quanto possvel, participar da vida que se movimentava  sua volta. Preso ao corpo, sentia-se pressionado pelo desalento da solido, uma vez que se isolava, ao mesmo tempo, dos encarnados e dos desencarnados. Que falassem com ele, sempre que possvel. Ainda que sem poder expressar-se, ele era capaz de entender o que lhe fosse dito. Por algum tempo perdi de vista a famlia, cujo drama tanto me tocara. Soube, um dia, que o menino havia morrido. Oro por ele e espero que esteja bem agora, de volta ao mundo do esprito, a fim de preparar-se para retornar, no se sabe quando, onde e em que circunstncias, para dar prosseguimento  sua tarefa de viver e evoluir, rumo  perfeio que a todos ns aguarda. A paz se encontra mais  frente, logo ali, para aqueles que muito lutaram a boa luta em busca do equilbrio, e um pouco mais alm, para aqueles que ainda no entenderam que, como h pouco dizamos, a lei divina  mansa correnteza que nos leva para a imensido do oceano luminoso da paz.  bastante abandonarmo-nOS a ela, sem resistir-lhe insensatamente, no intil esforo de subir o curso das guas em vez de descer com elas para as plancies e, eventualmente, para o mar, onde tudo se aquieta. No nos preocupemos em escalar os cumes para mostrar que somos grandes, mas, sim, com a doce alegria do amor eterno que ilumina as planuras da vida, onde ningum  grande nem pequeno, porque todos so puros e felizes. Que lio, ento, nos fica deste captulo? Simples de entender e, ao mesmo tempo, reconhecidamente difcil de se pr em prtica: a de que filhos deficientes so tambm filhos de Deus, como ns, pessoas com as quais nos desavimos no passado e que nos incumbe recuperar para o amor

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fraterno. No para que deles nos livremos para sempre, mas a fim de que, juntos, sigamos rumo  felicidade. Como costumo dizer aos espritos com os quais dialogamos, no podemos afirmar que isso  fcil, o que asseguramos, convictamente,  que  possvel.  necessrio, indispensvel. No importa muito por onde passa o caminho, o que importa  que ele nos leve  soleira da sonhada paz, nossa por direito inalienvel de herana. *** Nota suplementar Os captulos de livro (pelo menos deste), como certas cartas, tem, s vezes, o direito e necessidade de PS. (post scriptum, como diziam os latinos). Este captulo  um deles.  que as histrias, como a vida, so interminveis, porque se renovam a cada momento, na deslumbrante riqueza de variaes em torno de si mesma. Decorrido algum tempo aps a morte do menino, nossos amigos espirituais me perguntaram se seria do meu interesse conversar com ele. Como iria eu recusar tal oportunidade? Certa noite, aps concludos os trabalhos regulares, o esprito que eu conhecera encarnado no beb deficiente assumiu discretamente os mecanismos de comunicao da mdium. Sua primeira palavra foi de reconhecimento e gratido por tudo quanto tentramos -- sem muito xito, admito -- junto dos seus. E muito difcil convencer a pessoas espiritualmente despreparadas para tais situaes de que est tudo certo nas imutveis leis da vida e que a palavra de ordem aqui  aceitao. Quanto a ele, estava em paz, to lcido quanto possvel quele que ainda no se desembaraara de todo o envolvimento com as substncias mais densas que constituem nosso instrumento de viver e, naturalmente, com os problemas da vida que mal terminara. Sua viso retrospectiva podia, agora, penetrar mais fundo e buscar mais distante, no tempo, as motivaes que compunham seu quadro de experincias. Lamentava o suicdio desastroso, que compreendia como gesto de rebeldia, de to trgicas conseqncias. Acrescentava que teria tido certos atenuantes (demorou-se um tanto na escolha da palavra, que reconhecia inadequada) se, pelo menos, no tivesse sido vitimado por uma pesada dosagem de dio, especialmente pela jovem que, a seu ver, o trara, preterindo-o ao outro. Alm do mais, podia ver, agora, a lamentvel inutilidade de seu gesto desesperado, ao saber que outra mulher lhe estava destinada. E que a esta ele amava de fato, no com os impulsos da paixo, como  outra, mas com as ternuras do amor. A rejeio teria sido apenas desagradvel incidente, pelo qual ele teria mesmo de passar, por causa de compromissos anteriores. Nunca, porm, a lei programa suicdios e tragdias. Seja como for, ficaram as lies de todos esses episdios dramticos. Estava ele informado de que, na prxima existncia, no estar mais sujeito  deficincia fsica que, desta vez, deixou-o literalmente prisioneiro de um corpo, atravs do qual no lhe fora possvel expressar-se. Resgatara, pois, o grave compromisso do suicdio, sempre encarado pela lei maior como um gesto de rebeldia e inconformismo, O mais importante para ele, contudo, era o fato de haver se libertado do rancor que nutria por aqueles que, de certa forma, contriburam para seu aflitivo gesto, embora reconhecendo que a

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responsabilidade pelo suicdio fora inteiramente sua. Deu, sobre isso, inequvoco testemunho: -- Se lhe for possvel -- pediu ele --, diga queles que foram meus pais que eu os amo. Confirmando suposio minha, esclareceu que sua deficincia fsica nada tinha a ver com a impercia mdica no momento do parto. Seu crebro seria inadequado, ainda que tudo houvesse corrido normalmente. --J imaginou voc -- perguntou-me ele -- como foi difcil repor o crebro danificado pelo suicdio, com um mnimo de condies para funcionar? O dano causado ao corpo fisico pode at ser considerado irrelevante, porque ele fica na terra e se desintegra. Graves mesmo so as repercusses no sistema perispiritual. Outro aspecto me ficou tambm bastante claro.  compreensvel que os pais de uma criana deficiente se sintam como que inadequados e at responsveis ou culpados pela gerao de seu corpo, como se todo o processo fosse resultante de um fracasso pessoal do casal. Foi, alis, o que pude detectar, no contato pessoal que tive com a famlia. Como se perguntassem a si mesmos: como foi possvel a pais to belos e fisicamente perfeitos como ns gerar uma criana em tais condies? Da, talvez, a tendncia a atribuir a causa ao incidente clnico. Na realidade o sentimento de culpa subjacente no tinha a suas razes, mas no drama da rejeio suscitado pelo noivado desfeito, em passado remoto, que ainda repercutia na memria inconsciente das pessoas envolvidas. Podia-se, ainda, perceber que ele ficara magoado com a moa, no tanto com ojovem que o substituiu no corao dela. (Teria sido impresso minha, ou seria mesmo fato que eu percebera no jovem pai uma ternura espontnea pelo beb deficiente?) Uma palavra a mais: a mdium, atravs da qual ele falou comigo, viu-o e o descreveu como um belo jovem, de tranqila aparncia. Era bvio que se sentia feliz e disposto a recomear a vida no ponto em que ela fora transformada. Disse-me ele que cogitara, h pouco, de renascer para nova experincia na Terra precisamente como filho daquela que fora (e ) seu verdadeiro amor e com a qual estava destinado a casar-se na outra existncia. Mas isso a lei vedava, pois ela possui seus dispositivos complacentes, mas severos. Em suma, a convivncia com os amores ficou adiada at que tudo isso se ajuste, como Cristo ensinou. Ao despedir-se, emocionado, como eu prprio estava, reiterou seus agradecimentos por tudo o que se tentara fazer junto dos seus. Parecia convicto de que tais esforos no foram muito bem-sucedidos. H sementes que custam mais a germinar do que outras, mas todas produziro alguma forma de vida renovada sempre que conseguirem romper as barreiras existentes entre o que Aristteles chamou de potncia e ato. Em muitos de ns, o amor  ainda potncia; em outros, j germinou e transformou-se em ato.

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20 DRAMTICO DEPOIMENTO DE UM ESPRITO
TEMOS FALADO MUITO, NESTE LIVRO, das programaes elaboradas no mundo espiritual para cada vida que reiniciamos na Terra. Tais projetos envolvem complexidades que mal podemos imaginar, tais como pesquisas do passado, avaliao de possibilidades fturas, identificao e localizao de pessoas com as quais devam ser negociadas futuras atividades, atento exame de condies sob as quais os espritos programados para uma tarefa coletiva tenham de renascer, como devero ser encaminhados, que tendncias estimular, desestimular ou combater, que virtudes enfatizar, que erros corrigir, at onde podero suportar presses corretivas, que problemas devem "ficar para mais tarde", em outras existncias. Enfim,  um mundo de imponderveis, de incertezas e de probabilidades, nas quais inmeras variveis so postas em discusso e avaliao, a fim de armar-se um esquema vivel dentro do possvel, ainda que nem sempre o ideal. No entanto quantas vezes, depois de tudo eqacionado e montado, os espritos vm para a carne e deixam de cumprir a parte que lhes toca e tudo se desarma de novo! No obstante tais especulaes mais ou menos tericas serem da maior utilidade, minha preferncia sempre se dirige para a abordagem prtica, experimental, a experincia vivida e sentida, que nos proporciona exemplos concretos, colhidos na vivncia de cada um. Entendo mesmo que s se aprende a viver vivendo, e no teorizando sobre a vida. Por feliz entrelaamento de circunstncias, muitas e preciosas oportunidades nos foram concedidas, ao longo dos anos, de "ver" desdobrarem-se ante nossa atenta observao exemplos vivos dessa desconfortvel realidade de que, dificilmente, conseguimos levar a bom termo, na carne, com a preciso e na extenso e profundidade desejadas, a tarefa planejada no intervalo que vai de uma vida  seguinte. Em uma oportunidade especfica, contudo, um companheiro espiritual que acabava de despertar de longo pesadelo de equvocos seculares abriu para ns todo um riqussimo acervo de experincias e observaes maduramente meditadas e, confesso, inesperadas, honestas, comoventes, na sua impressionante sinceridade. Como disse, vinha ele de um longo perodo de graves equvocos, atravs de muitas existncias sacrificadas s suas paixes desencontradas. No que no est sozinho, infelizmente, pois esta tem sido, praticamente, a regra para quase todos ns, at que uma espcie de terremoto ntimo nos sacode as razes do ser e, ento, nunca mais seremos os mesmos. O que se l a seguir , pois, um resumo comentado do que ele nos relatou naquela noite. - As vezes -- comeou ele -- os compromissos perante a lei so to srios que os espritos acham que no h mais como retornar sobre seus passos, a fim de reconstruir seus destroados mundos ntimos. Foram muitos os fracassos, no passado mais remoto e mais recente.  certo que em tudo isso h sempre algum disposto a ajudar, mas tambm esse muitas vezes falha, como por exemplo a companheira que combina voltar para uma vida de dificuldades comuns. Ela promete fidelidade, que foi o ponto fraco, onde falhou mais gravemente. Monta-se um esquema

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que atenda aquele mnimo de necessidades pessoais; de volta  carne, porm, ela falha e volta a trair, movida por uma compulso que ainda no aprendeu a dominar. E ele falha porque, uma vez mais, no consegue ser tolerante e compreensivo com as fraquezas alheias. Esquemas programados para serem superados acabam gerando situaes irreparveis, criadas, de incio, no a partir de desentendimentos propriamente ditos, mas de simples mal-entendidos, perfeitamente contornveis. Bastaria, para isso, uma pausa, um momento de reflexo, a fim de tornar possvel um debate sereno do problema, que no representa, naquela fase, nenhuma dificuldade intransponvel. Em vez disso, exaltam-se os nimos e complicam-se as coisas. Dificuldades superveis viram impasses de relacionamento.  que, por melhores que sejam as intenes que trazem os espritos, uma vez no corpo, mergulhados atrs do denso vu da carne, parece que as tendncias negativas so reativadas e potencializadas e voltamos a cometer os mesmos enganos e a excitar o mesmo tipo de paixo que viemos precisamente para combater e dominar. A nsia de poder  uma dessas resistentes infeces espirituais que parecem contaminar vidas para as quais as melhores providncias de assepsia mental foram tomadas. Renascemos para aprender a dominar a ns mesmos e voltamos a ceder ao impulso de dominar os outros. Os problemas comeam a ser suscitados ante as situaes-teste, em grande parte porque esquecemos, na carne, a programao feita ou porque nos ficam, na memria de viglia, apenas vagos e imprecisos traos. -- Diziam-me coisas que, de alguma forma, eu sabia que eram corretas (ou erradas) -- confessou-nos aquele companheiro espiritual --, mas eu no sabia precisamente por que o eram. Muitos se queixam desse esquecimento e at lhe atribuem a culpa e a responsabilidade pela reiterao no erro, mas o que a lei deseja  que a gente aprenda a lio do bem, dentro de nossos prprios recursos, iniciativas e disposies, ante as vrias alternativas que se oferecem  nossa livre escolha. Precisamos provar a ns mesmos que, postos diante de tal ou qual situao, comeamos a ter condies para decidir pela melhor alternativa, no porque nos lembramos de um compromisso assumido e temos de acertar, ou porque temos obrigao de conciliar-nos com este ou aquele adversrio de outras eras, mas porque esto se formando em ns as estruturas do bem, que iro servir para todas as situaes futuras. O problema consiste em que, trazendo ainda mais ou menos intactas persistentes matrizes do mal, a que nos acostumamos, nosso programa de vida comea, imperceptvelmente, a desviar-se. Antigos comparsas insistem em arrastar-nos de volta ao crime, aos desatinos dos sentidos,  bebida ou  irresponsabilidade. Faculdades de inteligncia ou medinicas, de que somos dotados, so desvirtuadas porque representam formas de poder que ainda no aprendemos a utilizar para servir e, sim, para dominar e oprimir, a fim de sermos servidos e incensados. E que tais recursos, que a lei nos proporciona como instrumentos do progresso, atraem um squito de admiradores fascinados, que de certa forma desejam partilhar das regalias que o poder sempre tem condies de proporcionar queles que o exercem. Acresce que se torna mais fcil encontrar aquele que reacende em ns antigas paixes, que esto apenas adormecidas sob as cinzas, do que o companheiro mais experimentado e consciente, que se torna

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desagradvel e  rejeitado porque nos recorda deveres e sugere renncias que no estamos ainda dispostos a praticar. Costumo, em situaes como essas, lembrar que sempre nos fica a alternativa de buscar nos evangelhos as inspiraes de que necessitamos para encontrar o rumo certo e nele nos mantermos. Mas, quem quer saber de evangelho, a essa altura? S se for para combat-lo. Mesmo porqu, assegurou-nos esse companheiro espiritual, o combate ao evangelho  recurso do desespero. No  porque ele falso, como ficou dito alhures, mas porque  verdadeiro. -- O mal -- disse ele -- contemporiza e se acomoda; o evangelho, no. Da ser, aparentemente, to cmodo a esses espritos desarvorados partirem para a tentativa de criar um mundo  parte, onde as leis de Deus possam ser esquecidas ou desobedecidas, pelo menos por algum tempo. Criado esse bolso de rebeldia e irresponsabilidade, muitos so os que a ele acorrem para viver a plenitude de suas paixes e de seus desatinos. Sabem que a tentativa  utpica e somente pode gerar mais desacertos, em vez de atenuar os que j se alojam, h tantos sculos, na conscincia anestesiada, mas no extinta. Mas quem ir convenc-los de que esto apenas tentando a impossvel fuga de si mesmos? Qual a motivao de tudo isso? Uma s: o medo da dor. Todos que ali esto, hipnotizados por uma filosofia invivel de vida, sabem que, um dia, tero de ajustar contas com a harmonia csmica perturbada, mas, pelo menos enquanto esto por ali, vivem suas fantasias e alienaes. Sabem perfeitamente bem que o territrio da paz vai ficando cada vez mais distante e de difcil acesso, pois o caminho que leva at l passa por pantanais e espinheiros, sobe rochedos ameaadores, atravessa a aridez dos desertos e se precipita em tenebrosos desfiladeiros, mesmo porque temos de voltar pelo mesmo caminho que percorremos na "ida"... -- Fomos valentes para errar -- acrescenta o amigo, em seu catrtico depoimento --, mas somos covardes para enfrentar as conseqncias do erro. H, por outro lado, um agravante nesse processo. Retornamos a um mundo onde  muito mais fcil e atraente deixarmo-nos levar pela acomodao com o equvoco do que resistir ao envolvimento e viver com bravura uma existncia, seno austera e severa, pelo menos razoavelmente decente e contida. Esse envolvimento sutil do mal atinge tambm instituies devotadas, em princpio,  difuso de doutrinas autnticas, ao trabalho redentor,  prtica do amor ao prximo, porque tambm elas, as instituies, so dirigidas por seres humanos imperfeitos, quase sempre interessados na busca da projeo e do mando, mais do que no aperfeioamento de indivduos e de coletividades. Isso  vlido para as grandes religies, quanto para as inmeras seitas que hoje proliferam pelo mundo afora. Por isso combate-se insensatamente o exerccio da mediunidade limpa, ativa, nosso canal de comunicao com os companheiros dej ornada evolutiva que moram do lado de l da vida. Ou desvirtua-se sua prtica. Dentro de movimentos voltados basicamente para o trabalho do amor, do esclarecimento, da assistncia material e espiritual, implanta-se sutilmente o gosto pela cincia, pelo fenmeno, pelas fantasias psicografadas, que acarretam desvios e retardamentos para os que desejam adiar seu encontro com a Verdade. E

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assim espritos profundamente desajustados, desarvorados mesmo, assumem, subrepticiamente, posies em que figuram como mentores ou guias espirituais, consultados a cada passo e ouvidos com verdadeira uno e devoo beata. No que tais espritos sejam despreparados ou ignorantes. Ao contrrio, so muito inteligentes e experimentados, pela vivncia de incontveis experincias na Terra e no mundo espiritual. Alm disso, dispem de profundo conhecimento das leis divinas, que colocam, em tudo quanto lhes for possvel, a servio de suas paixes. E mais, conhecem o suficiente dos mecanismos da psique humana para saberem onde tocar, que sentimentos movimentar, que atitudes assumir para obter apoio, suscitar interesse e capturar a ateno servil dos incautos e vaidosos. Eles conhecem as motivaes de cada um, sabem de suas histrias pregressas, dos seus vnculos de compromisso com este ou aquele ser ou episdio. Fica fcil, por isso, manipular tanta gente, manobrar influncias, promover encontros desejveis e articulaes verdadeiramente maquiavlicas. -- Se falo do evangelho -- disse o esprito --, sou ouvido com aparente ateno e respeito, mas com mal disfarado enfado, mas se lhes digo que so maravilhosos, inteligentes, devotados e que os aguardam as glrias da santidade, todos me acham excelente e se deixam levar docilmente. H, pois, um perigoso desequilbrio de foras que se opem, uma vez que a maioria ainda est do lado negativo, puxando a corda com toda a fora de seus temores e o empuxo de suas paixes negativas. - Que adianta -- pergunta ele, desalentado -- renascer num mundo desses, no qual apenas inexpressiva minoria est realmente empenhada em melhorar? *** Eis a uma dura e crua realidade dentro da qual renascem hoje nossos filhos e netos. Que programas trazem? Que decises? Que fraquezas? Que traos mais fortes e consolidados na personalidade? Que tipo de experincias? Que correes pretendem fazer? O que podemos ns fazer para ajud-los, evitando que sejam novamente arrastados para mazelas que vieram precisamente para eliminar das suas estruturas psicolgicas e ticas?

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21 A MENINA QUE CHORAVA NA CALADA
NUMA DESSAS MANHS ensolaradas de domingo, samos para a habitual caminhada pelas ruas mais tranqilas do bairro em que moramos. Logo ali em baixo, a uma quadra de distncia, chorava uma menina na calada. No tinha mais que trs ou quatro anos, era bonita e estava bem vestidinha, como se acabasse de se aprontar para um passeio. A poucos passos dela um jovem senhor contemplava-a, amargurado. No era um choro escandaloso, birrento e malcriado, o dela, mas pranto sofrido, vindo de um sofrimento maior e mais profundo que se mostrava no seu olhar angustiado. A dor da querida e desconhecida irmzinha doeu em mim tambm. Antes que desse conta do que fazia, aproximei-me dela e coloquei minha ternura de av em algumas palavras de solidariedade e consolo. Por que razo estaria chorando aquele ser que apenas reiniciava suas experimentaes com a vida? No quis ser indiscreto, nem invasivo, dado que todos ns temos direito  privacidade, mas o jovem fez, voluntariamente, um comentrio sucinto: a menina queria que a me tambm fosse com ela. No me caberia perguntar mais nada e nem precisava. Desenhou-se logo todo o quadro. Papai e mame estavam, certamente, separados. Ajustia decidira que papai ficaria autorizado a vir busc-la aos domingos para passar o dia com ele. Teria ele outra companheira? Ou mame estaria de marido novo? No sei. Para a menina que chorava na calada, eles continuavam sendo papai e mame, s que, agora, separados. Falavam pouco ou nunca, um com o outro, mal se olhavam, pareciam inimigos. Mal comeara a vida para ela e j as coisas mudavam de maneira brutal, no seu pequeno universo pessoal. De repente, ficaram confusas e incompreensveis. Por exemplo: por que razo mame no podia ir com ela passar o dia com papai? s vezes bem que a gente gostaria de fazer umas mgicas, como naquelas antigas histrias de fadas. Como a de reunir aquele tringulo, me, pai e filha. Mas isto importava desfazer outro tringulo, mame, papai e a `outra', ou, quem sabe, papai, mame e o `outro'. Ou, ento, pegar aquela criana ao colo e lev-la para uma terra onde ningum se separasse de ningum. Mas isso eu no podia fazer e ainda que pudesse, no o faria, sem interferir no livre-arbtrio de cada uma das pessoas envolvidas. Tratava-se de um drama pessoal com vrias pontas espinhentas que machucavam a todos, especialmente a sofrida menina que queria levar consigo a me naquele passeio de domingo de sol. S me restava seguir meu caminho e v-los seguirem o deles. Seja como for, levei comigo um pouco daquela dor e deixei com a criana confusa uma vibrao de ternura. Levei mais que isso, um tema para meditar. Vindo de casamentos duradouros, minhas matrizes de avaliao de certas situaes da vida encontram-se -- reconheo-o honestamente --, talvez desatualizadas e inservveis para muita gente. Me e pai, sogra e sogro s se separam pela morte. Ao escrever estas linhas, minha prpria unio j passou pelo marco nmero 50. No posso, obviamente, responder pelos nossos antepassados; quanto a ns, contudo, sim, houve problemas de relacionamento ao longo do percurso. Quem no os tem? Ademais, estamos

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aqui precisamente para esmerilhar arestas, corrigir desafeies, ampliar afetos, cultivar entendimentos, pacificar antigos rancores, testemunhar dedicaes e devotamentos. Se no primeiro ou no segundo embate, ou no centsimo, damos o processo de ajuste por encerrado, estaremos apenas adiando para no sei quando e onde e como, a oportunidade da paz.  que as harmonias da paz a gente no consegue comprar na farmcia, ou no supermercado --  trabalho lento e difcil para uma vida e at mais. Exige compreenso, tolerncia e renncia. O lar  um ponto de encontro, o momento csmico  aquele, as condies esto ali criadas para que tudo d certo e, se cada um tiver que tomar diferentes rumos aps o trabalho da conciliao, partiro todos como amigos que apenas se despedem por algum tempo, com encontros marcados no futuro, para dar prosseguimento aos projetos em comum, e, portanto, para novas etapas evolutivas, dado que somos todos companheiros de viagem. No adianta a gente abandonar de repente a tarefa do entendimento ou da convivncia para seguir sozinho, mesmo que se esteja em condies de fazlo. Vai faltar alguma coisa no futuro. Alguma coisa que a gente deixou de fazer quando tinha tudo para concretiz-la. Uma entidade espiritual contou-nos, a respeito disso, uma historinha ilustrativa. Ela--uma mulher vinha caminhando com um companheiro de jornada evolutiva. Acerta altura, precisavam dar um passo decisivo. Figurativamente, pararam ambos a uns poucos passos de um portal que prenunciava nova etapa de realizaes e progresso, dado que percebiam luzes brilhando l adiante. Houve um momento de confabulao, pois ele relutava em seguir adiante. Acabaram separando-se. Ele ficou e ela foi em frente. Sofria, agora, por no ter insistido um pouco mais ou, quem sabe, ter permanecido com ele por mais algum tempo, at que ele se decidisse a acompanh-la. No o fez e, daquele momento em diante, cada um seguiu sua prpria rota. Ela nos contava agora, em pranto, o desacerto da deciso. Perderam-se de vista por muito tempo. Ela caminhou um bom trecho pelos caminhos da luz, mas ele demorou-se pelos seus prprios espaos, provavelmente, porque no estavam mais juntos para negociar com a vida a estratgia da paz. --  como se voc tivesse, l no futuro -- contou ela --, um valioso tesouro guardado num cofre  sua espera. Voc chega primeiro, mas o cofre s poder ser aberto com duas chaves e voc tem apenas a sua; a outra est com a pessoa que ficou para trs. Ou voc a espera ou tem que ir busc-la, para terem, juntos, acesso ao tesouro. A histria daquela irm ficou em mim como uma parbola. Ser que no estamos sendo impacientes demais com os companheiros de viagem? Ser que um pouquinho mais de tolerncia e compreenso no teriam evitado os desacertos? A famlia  a nossa universidade. Ou samos dela diplomados, com mestrado ou PhD concludos, prontos para as conquistas pessoais, ou dela nos retiramos precipitadamente interrompendo o curso das esperanas. Tanto quanto pude apurar, na pesquisa feita para escrever a parte que me coube no livro de Deolindo Amorim, ainda no se chegou, aps vrios milnios de experimentao, a um modelo melhor de clula social do que a famlia. E posso garantir que no faltou experimentao. Tentou-se de tudo, numerosas frmulas e processos foram testados, mas o modelo antigo resistiu. Se agora as coisas no esto dando certo, acham os entendidos que a falha no  do

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modelo, mas das pessoas. Como no sou especialista do ramo, prefiro no entrar na discusso, o que no significa, de modo algum, que deixe de ter minha opinio a respeito. Tenho-a e muito ntida. Acho que sejogou fora a frmula antes de ter uma que a substitusse com vantagens, se  que um dia a teremos. Penso mais ainda: que a falncia do sistema comeou a partir do momento em que se separou sexo para um lado e amor para outro. Vejo nessa dicotomia "amor sexo" a projeo, no plano em que vivemos, de outra dicotomia mais ampla, ou seja, matria e esprito, na qual o amor  atributo da entidade espiritual e o sexo instrumentao meramente biolgica, a fim de assegurar a todos renovadas oportunidades de reencarnao. Juntos, realizam a tarefa da continuidade da vida na carne, ao passo que a separao deles cria turbulncias imprevisveis, porque, desligado do componente espiritual do ser o sexo recorre ao artifcio da paixo, que, em vez de chama que ilumina e aquece,  labareda que consome e logo se extingue, em sombras. Enquanto nossas paixes vo e vm, ofuscam-nos e apagam, sofrem os seres que se dispuseram a conviver conosco, nesta dimenso. Conflitos entre pai e me, repercutem no mago dos filhos, sopram-lhes temores aos ouvidos, criam para eles um clima de incertezas e insegurana, paralisam esperanas. Eles precisam de ambos para levar a bom termo o projeto de vida que lhes cabe implementar. Alguns deles vm para a aventura da vida terrena com o propsito de cimentar a unio, reparando fraturas remanescentes de passadas disputas. A tarefa da conciliao constitui elevada prioridade para todos e, por isso, no h esforo ou sacrifcio, tolerncia ou compreenso que sejam demais. Se o preo parece excessivamente alto  porque a dvida , igualmente, vultosa. Se, porm, a despeito de tudo o que for dito, planejado e considerado, a ruptura ocorre mesmo, pelo menos que se faa tudo civilizadamente, sem rancores ou agresses, com um mnimo possvel de dor para todos, mas, principalmente, para os filhos. Estou dramtico? Talvez. Apocalptico? No.  o que vemos nos painis que a vida em sociedade vem exibindo nestes tempos difceis. Se, por acaso, voc me perguntar que tenho eu a ver com isso, um septuagenrio j no poente da existncia, poderei dizer das minhas razes. H uns poucos anos, numa das viagens aos Estados Unidos, fui convidado para fazer uma palestra a um grupo de pessoas interessadas nos enigmas e perplexidades da vida. No que eu tenha solues prontas e acabadas para as mazelas humanas, mas porque venho insistindo teimosamente, obstinadamente, em que est fazendo uma falta terrvel  sociedade em que vivemos a viso da realidade espiritual. Em vez de nos vermos como espritos temporariamente acoplados a um corpo fsico, assumimos a identidade desse corpo, confundimo-lo com a nossa prpria individualidade e estamos levando o esprito a reboque, como um traste intil e que, alm de tudo, estaria atrapalhando a plena realizao da insensatez que parece instalada na memria coletiva. Mas e da? Por que a preocupao, se j est chegando a hora de voc ir embora, para essa dimenso csmica da qual voc tanto fala? -- insistir voc.  simples, "meu caro minha querida". Esta no ser, certamente, minha derradeira passagem pela matria bruta. Terei que voltar para aqui de outras vezes, como tambm voc. Ao

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retornar, em novo corpo fsico, para mais uma existncia, no me importa qual ser a minha raa, cor, nacionalidade ou condio social. O que desejo, pretendo e peo a Deus  que tenha me e pai que se amem e que me amem. E que me proporcionem o apoio e o carinho de que vou necessitar at que possa recomear a explorao do mundo com meus prprios recursos. Foi o que disse aos americanos. No desejo, se isto for possvel, ficar chorando em alguma esquina do mundo futuro, porque minha me no pode ficar junto de mim e de meu pai. Vou precisar deles, minuto por minuto, do amor que desejo que tenham por mim, tanto quanto do amor que tenham um pelo outro, por Deus e pela vida. Quero que me falem de Deus, me ensinem de novo a falar com ele, a v-lo atravs das minhas lgrimas e a senti-lo em mim, nos momentos de harmonizao csmica. Como iria cumprir um programa desses numa sociedade que se esqueceu d'Ele, tanto quanto de si mesma, porque s cuida do momento que passa e do prximo prazer?

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22 NO  PRECISO "TORCER O PEPINO"
MEU LIVRO A MEMRIA E O TEMPO comea com a narrativa de uma regresso de memria durante a qual a sensitiva descreve o procedimento adotado nos primeiros estgios da iniciao, no Antigo Egito. Os testes, que ela no apenas descreve, mas dos quais revela alguns segredos, serviam para proceder-se a uma avaliao preliminar do candidato. Se ele fosse aprovado, mesmo assim ficaria, por prazo indeterminado, sob observao atenta e competente, ainda que no ostensiva. J ficara demonstrado que reunia algumas condies para o ensinamento superior, mas no bastavam as aptides reveladas nas provas. Muito mais do que aquilo era exigido para que ele fosse admitido ao intenso aprendizado, que implicava severo regime disciplinar. Vencida esta fase, ele era levado a uma cmara secreta, onde era submetido  regresso de memria. Habilmente orientado e interrogado, ele mergulhava fundo nos arquivos de sua memria integral, a fim de reunir os dados pessoais necessrios ao seu programa de trabalho para a vida que tinha pela frente na Terra. Seus mestres e orientadores ficavam, dessa maneira, informados de traos predominantes de seu carter, de faculdades desenvolvidas em existncias anteriores, experincias que trazia do passado, tendncias a corrigir, conhecimentos e recursos a expandir, tarefas a realizar, preferncias por esta ou aquela atividade, compromissos assumidos no mundo espiritual, envolvimento pessoal com personalidades vivas, na carne, ou ainda na condio de esprito, e inmeros outros aspectos semelhantes. De posse de todos esses elementos, tornava-se relativamente fcil compor um quadro ntido da pessoa e do programa de trabalho que melhor lhe assentava, dentro de seus compromissos e objetivos pessoais e coletivos. Ns, porm, pessoas comuns, vivendo uma poca de tumulto ideolgico, em que os grandes valores da vida so questionados e o conhecimento de aspectos transcendentais perderam-se ou foram aviltados, como devemos proceder para melhor encaminhamento de filhos, netos, parentes e amigos? A verdade  que no dispomos de condies para faz-lo tal como no Egito. E ainda que dispusssemos (H gente fazendo regresso de memria a tantos cruzeiros ou dlares por vida...), muitas regresses seriam realizadas em pessoas totalmente despreparadas, por outras igualmente sem preparo suficiente, e sem qualquer finalidade, seno a mera curiosidade (esta, sim, gratuita), apenas interessada em saber quem fomos no passado. Como o leitor percebeu, a regresso no Egito somente era feita em pessoas que, comprovadamente, haviam demonstrado, nos testes de avaliao, condies suficientes e necessrias ao procedimento. Alm do mais, a regresso tinha uma finalidade nobre e especfica, qual seja a de levantar uma espcie de mapa psicolgico, intelectual e tico da pessoa, a fim de ajudla a desenvolver, na vida terrena, atividades para as quais havia sido programada no mundo espiritual. E mais, em pessoas que houvessem demonstrado estar em condies de tornar conhecimento de eventos documentados na sua memria sem se perturbarem com as lembranas suscitadas. Nada disso temos condies de fazer hoje, porque, embora recuperada a tcnica da regresso em si, que no oferece dificuldade insupervel, no temos

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 nossa disposio aqueles seres excepcionais, mestres de profunda sabedoria, que manipulavam com notvel competncia e respeito os secretos arquivos da mente humana. Por outro lado, o leitor pode estar pensando que, uma vez que nossos filhos renascem, via de regra, com to rico acervo de experincias e conhecimentos, nada h que possamos ou precisemos fazer para ajud-los. Nada disso. Podemos, sim, e como! E devemos faz-lo, como vimos h pouco, pginas atrs. Pelo fato de renascer em sua famlia um esprito como Beethoven, Einstein ou da Vinci, voc iria cruzar os braos desalentado ou indiferente? A verdade  bem outra. Em primeiro lugar, porque passamos todos, em maior ou menor extenso, por um perodo de recapitulao e reaprendizado, adaptao e preparo. Einstein renascido ser novamente um beb choro, no qual a mame vai precisar trocar-lhe as fraldinhas, dar-lhe de mamar, ensinarlhe os primeiros passos, repreend-lo por uma ou outra manha e at, quem sabe, administrar-lhe oportunas palmadas, na regio prpria, na hiptese de uma rebeldia maior.  at possvel que ele seja sujeito a pesadelos, por ter concorrido de maneira to decisiva para que fossem produzidas as primeiras bombas nucleares. As vezes nasce, tambm, um Mozart, extremamente precoce, que mesmo aos quatro ou cinco anos de idade na carne consegue superar inibies e bloqueios fsicos para expressar as maravilhosas concepes que traz no fundo do ser. Alis, poucos fenmenos constituem evidncia to veemente da reencarnao como a precocidade dos gnios, que j vm sabendo tudo o que precisam saber. So pessoas que, obviamente, trazem longa e consolidada experiencia na atividade que comeam a desenvolver, seja no campo das artes, das cincias, ou em qualquer outro. Algum precisou ensinar estratgia militar a Napoleo? Pois ele no sabia disso desde que fora Alexandre ou Jlio Csar, pelo menos? Quem precisaria ensinar fsica a Einstein, que como Demcrito, na Grcia, j falava do tomo? Quem iria ensinar poltica a Rui Barbosa, que vinha de uma existncia fecunda (e recente) como Jos Bonifcio de Andrada e Silva? Seja qual for, porm, a grandeza e a experincia ou maturidade do esprito que vem renascer junto de ns, precisar sempre de apoio no perodo em que est promovendo os necessrios ajustes no novo corpo que recebeu dos pais para viver na Terra. O ser humano tem uma longa infncia, a maior de todos os animais. Um cachorro, com trs anos,  adulto, tanto quanto um boi ou um cavalo. Os pssaros precisam apenas de umas poucas semanas; os insetos, de horas, ou, no mximo, de poucos dias. O ser humano com sete anos ainda  um infante indefeso que no tem nem como alimentar-se adequadamente se for abandonado aos seus prprios recursos. Com a crescente exigncia de formao cultural para enfrentar os desafios da competio numa sociedade em crescente grau de sofisticao, ele, ou ela, somente estar pronto para o trabalho, em p de igualdade com seus semelhantes, ao se aproximar dos 30 anos, ou alm. Enquanto isso ocorre, h toda uma estrutura de apoio, uma logstica de desenvolvimento fsico, moral, psicolgico, cultural e social. A criana, mesmo genial, precisa ser orientada, encaminhada e corrigida em suas tendncias de agressividade, por exemplo, ou de desleixo, preguia e indiferena, tanto quanto estimulada a desenvolver faculdades incipientes que no exigem

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grande esforo de observao para serem identificadas. Os pais precisam estar atentos, observando com serenidade e, tanto quanto possvel, sem que a criana se sinta estudada, pesquisada e vigiada como um bacilo ou cobaia de laboratrio. O instrumento preferencial para essa busca  a conversa, a comunicao. Por isso recomendamos, logo de incio, conversar com os bebs, mesmo na fase em que no tm condies para nos responderem da maneira que gostaramos, ou seja, tambm conversando conosco. Pelo menos estaro sabendo o que pensamos a respeito deles e do mundo que nos cerca. Mais do que isso, porm, estaremos abrindo canais de comunicao com eles, tendo acesso ao pequeno cosmos individual que cada um de ns traz consigo. A criana no  dotada de toda essa plasticidade que se proclama por a, barro macio do qual podemos fazer aquilo que desejarmos. H quem costume dizer que " de pequeno que se torce o pepino". Mas no  bem assim que funcionam as coisas. Isso no quer dizer, contudo, que a criana deva ser abandonada s suas inclinaes, quaisquer que sejam, ou, ao reverso, oprimidas ao ponto de ficarem sem espao para movimentao de sua personalidade.  claro que espritos rebeldes, agressivos, dados  violncia ou  crueldade, precisam ser reorientados atravs de um regime disciplinar sem exageradas severidades, mas firme. Fazer-lhes todas as vontades, realizarlhes todos os caprichos e fantasias, achar uma gracinha todas as suas demonstraes de falta de civilidade corresponde a um processo de deseducao que ir contribuir para que se consolidem tendncias negativas j em si mesmas de difcil erradicao. Se me permite o leitor, poderemos ilustrar os aspectos tericos desse jogo de interesses e tendncias com uma historinha que voc, se assim o entender, poder tomar como fictcia. Tanto me impressionou esse episdio que escrevi sobre o tema um artigo, em ingls, publicado nos Estados Unidos, creio que em 1965, e o reescrevi, muitos anos depois, desta vez em portugus, para publicao no Brasil. Convencido de que o compositor Felix Mendelssohn-Bartholdy fora a reencarnao de Wilhelm Friedemann Bach, um dos filhos do grande Johann Sebastian, estabeleci um paralelo entre as duas vidas, que ocorreram na Alemanha, com um intervalo de vinte e cinco anos entre elas. Ou seja, Friedemann morreu em 1788, aos 74 anos de idade, enorme talento esbanjado numa existncia de indisciplina e desajustes; enquanto Mendelssohn nasceria em 1809, para morrer em 1847, com apenas 38 anos de idade. O desenvolvimento dessa vida, como Mendelssohn, relativamente curta, parece indicar que sua tarefa especfica consistiu mesmo em recriar condies para que a magnfica msica deJohann Sebastian Bach fosse posta no lugar de honra e destaque que lhe era devido. E que Wilhelm Friedemann tratara com lamentvel descaso a obra de seu genial pai, e muito contribuiu para que ela fosse logo esquecida, mesmo porque originais de importantes partituras se perderam por sua culpa, algumas para sempre. Um esprito assim, to generosamente bem-dotado, porm bastante irresponsvel e indolente, desordenado e rebelde, certamente precisa de pais amorosos, compreensivos e dedicados, mas que sejam, tambm, severos disciplinadores. Foi o que aconteceu a Felix, que renasceu em famlia rica, harmoniosa, inteligente e culta. Tanto seu pai Abraham como sua me Lea Salomon demonstraram raro equilbrio emocional entre a severidade disciplinar

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para com os filhos e um excelente relacionamento de compreenso e amor. Submetidos a esse regime disciplinar, contando com o apoio financeiro e amoroso dos seus, Felix pde desenvolver seu vasto talento, com uma precocidade segura de quemj viera sabendo de tudo aquilo. Tenho minhas dvidas de que ele houvesse conseguido realizar tanto, em apenas trinta e oito anos de existncia fsica, no fosse aquele maravilhoso grupo de amigos espirituais entre os quais renasceu. Um firme regime de disciplina, portanto,  perfeitamente compatvel com um relacionamento amadurecido, afetuoso e criativo. As vezes at parece que o grande Bach, do mundo espiritual, ajudava a supervisionar seu trabalho e at escrevia msica pelas mos de Felix, como se pode inferir ao ouvir a belssima introduo da Terceira Sinfonia, denominada Escocesa, uma homenagem a Mary Stuart. Posso acrescentar uma nota, na qual tambm no exijo que o leitor acredite: encontrei Wilhelm Felix reencarnado novamente, desta vez no Brasil. O imenso talento e a apurada sensibilidade continuam l, no seu esprito, mas como no conseguiu dominar de todo as tendncias dispersivas do passado, no se realizou, desta vez, como seria de esperar-se de seu magnfico potencial. Recaiu na antiga fase de indisciplina mental e segue pela vida a esbanjar talento, indiferentemente, tanto quanto nos tempos em que era Friedemann.  lenta, sem dvida, nossa caminhada evolutiva, e embora o esprito no regrida, como nos ensinam os que sabem de tais coisas, podemos ter recadas, quando as conquistas espirituais ainda no esto bem consolidadas. Com o que voltamos a cometer o mesmo tipo de equvoco, do qual j de h muito poderamos estar livres se exercssemos um pouco mais de autodisciplina. No digo, pois, que " de pequeno que se torce o pepino", nem que "pau que nasce torto nunca endireita". Nada disso! No  preciso torcer o pepino, basta reg-lo com o orvalho de nosso afeto, evitando que predadores ou pragas o ataquem. No h, porm, a menor dvida de que, se temos em relao aos filhos uma grave responsabilidade, cabe-nos uma quota correspondente de autoridade. Essa autoridade deve e precisa ser exercida, com amor mas, tambm, com firmeza; sem berros e pancadarias, mas sem tibiezas. H o momento do --No! tanto quanto o do -- Sim. Como vimos, h uma slida razo para que o esprito recm-encarnado viva um perodo em que se torna mais acessvel  influncia e ao aconselhamento orientador. Tenho visto pais arrependidos de haverem sido excessivamente tolerantes com o que encaravam como meras travessuras de seus filhos, mas nunca os ouvi lamentarem-se por terem sido severos, a no ser que hajam cometido algum excesso. Estranho como parea,  comum ouvirmos filhos adultos manifestarem seu reconhecimento pelo regime disciplinar a que foram submetidos na infncia. E no raro ouvimo-los lamentarem a fraqueza dos pais ante suas turbulncias ou o desinteresse deles em dar combate s tendncias negativas de carter dos filhos. No  fazendo todas as suas vontades que estaremos demonstrando nosso amor por nossos filhos. Pode haver perfeito equilbrio entre respeito e descontrao, entre liberdade e disciplina, entre amor e autoridade. Estaremos, assim, ajudando-os a desenvolverem suas potencialidades,

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de vez que para isso foram eles programados pela me natureza. Quanto ao pau torto... tambm precisa de apoio e compreenso. Um dia ele perceber, pela sombra que projeta no cho, que  feio ser torto. Por isso, da prxima vez que ele "reencarnar-se atravs de uma de suas sementes ou mudas, ele prprio vai cuidar de crescer reto e elegante, na direo do cu azul, como toda rvore que se preza. Deus nos deseja purificados e redimidos, mas no nos atropela, nem exerce sobre ns qualquer presso insuportvel ou deformadora. Prefere que cresamos, fsica e espiritualmente, segundo nosso prprio ritmo pessoal, dentro de um esquema em que o mximo possvel de espao nos  concedido para faz-lo. Certamente, a disciplina  ingrediente indispensvel  receita de viver. Ainda h pouco me dizia um esprito muito amado que se Deus exagerasse sua complacncia conosco, no teramos oportunidade de evoluir. Em suma, no se torce o pepino, ele deve ser cultivado. E por falar em Deus, a que tipo de religio ou crena devem nossos filhos ser encaminhados? Ou ser que  melhor lev-los logo  descrena, para que eles prprios decidam o que fazer?  o que vamos considerar a seguir.

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23 PRESENA DE DEUS
O LEITOR ATEU OU DESCRENTE (devo imagin-lo de muitos matizes ideolgicos) h de estar perguntando a si mesmo: mas que tem Deus a ver com tudo isso? Se perguntou, deixe-me responder com outra pergunta. Assim: o que no tem Deus a ver com isso e com tudo o mais no Universo? Quanto aos demais, crentes e praticantes de muitas religies ou seitas, tambm podem pensar que isso  problema pessoal, que cabe a cada um de ns resolver. Em princpio, estaramos de acordo. Prticas religiosas ou atitudes agnsticas so posturas estritamente pessoais e representam opes, igualmente pessoais, que devem ser respeitadas. O que no impede que possamos conversar, de modo educado e civilizado, acerca dos vrios aspectos envolvidos. Devo portanto dizer, como que para tranqilizar o leitor, que no  minha inteno fazer pregao ou tentar induzi-lo a esta ou quela seita. Isso tudo faz parte de um contexto bastante complexo, como resultante de no poucos fatores mais ou menos imponderveis. Em minha opinio,  mais importante um legtimo sentimento de religiosidade do que a adoo ou filiao formal a esta ou quela instituio religiosa. Creio (e espero) que, a esta altura, estejamos todos convictos de que as crianas so seres preexistentes e que trazem na bagagem espiritual ampla experincia religiosa, entre outros tipos de vivncia. Sabe-se que, em tempos mais remotos, astros, fenmenos naturais, bichos, totens e at seres humanos constituram objeto de adorao e divinizao. Gregos e romanos tinham deuses para tudo, mas seria tolice pensar que eram ignorantes. A mitologia, ao contrrio,  uma forma muitssimo inteligente de montar um sistema religioso que nos mostre, sob forma alegrica e de fcil assimilao, as complexas relaes entre as diversas foras da natureza, ou, para dizer a mesma coisa com outras palavras: como se manifesta, no mundo em que vivemos, a vontade de um Deus nico. A verdade  que no so muito satisfatrios os critrios usuais quanto  escolha da religio que nossos filhos podero, eventualmente, adotar (ou no). Ou costumamos deixar que as coisas simplesmente aconteam, ou foramos as crianas a adotarem "nossa" religio, ou seja, a dos pais ou responsveis. Por isso encontramos tantas pessoas desorientadas em questes de vivncia religiosa. E no so poucos os conflitos suscitados por divergncias e desentendimentos nesse campo, usualmente to sensvel. Para muitos, a religio  apenas um hbito, uma obrigao social, um aspecto secundrio da vida, ou, como tantos dizem, um "freio". (Seremos automveis ou, pior ainda, animais de trao ou montaria que necessitem de freios?) Em famlias mais ou menos acomodadas a esta ou quela religio, os filhos so encaminhados para as instituies freqentadas pelos pais, o que  compreensvel, e l ficam para o resto de suas vidas, sem mesmo cogitar de saber se  aquilo mesmo que desejam, o que  questionvel. Costumo dizer que so catlicos, protestantes ou ateus genticos, como se houvessem herdado dos pais um determinado gene especfico embutido na cadeia do DNA, como, alis, pensa muita gente.  certo que uma educao religiosa deve ser ministrada s crianas, da

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mesma forma e intensidade com a qual outras disciplinas lhes so ministradas. As instituies espritas, por exemplo, prestam relevante servio atravs das escolas de evangelho para a infncia. Creio mesmo que o ideal seria interessar a criana, em fase mais amadurecida, a pela adolescncia, por estudos de religio comparada, ainda que os pais sejam irreligiosos ou at refratrios a qualquer filosofia religiosa. No que isso seja essencial  escolha de uma religio adequada para cada um de ns, mas porque nos proporcionaria tal exame uma viso mais ampla de aspectos vitais ao entendimento da vida. Trazemos em nossa bagagem cultural matrizes ideolgicas consolidadas ou ainda imprecisamente definidas. As experincias passadas no so decisivas na escolha de uma postura religiosa ou agnstica em cada vida que se inicia na Terra. No poucas vezes, a escolha  decidida previamente, ou seja, antes de nascer, quando a pessoa resolve se dirigir ou  encaminhada, por motivaes que lhe so respeitveis, a uma famlia catlica, protestante, judia ou muulmana, por exemplo. E nem sempre  para adotar, automaticamente e sem restries ou dificuldades a religio de seus pais e irmos, e, sim, para tentar influenci-los para que considerem outras opes. Da encontrarmos, s vezes, crianas que, desde que conseguem expressar um pouco do que lhes vai na mente, comeam a mostrar sinais de rejeio  religio de seus pais, irmos, amigos e parentes, o que costuma resultar em penosos conflitos, se no prevalecer o bom senso da tolerncia. Na verdade, ao contrrio de unir as pessoas, mesmo porque a maioria dos cultos expressam de maneira diversa as mesmas crenas bsicas, as religies costumam, paradoxalmente, suscitar incrvel volume de intolerncias, de dios e rancores de difcil conciliao. Os religiosos mais intransigentes tendem a considerar suas respectivas seitas no apenas como a melhor, mas a nica, fora da qual no h salvao possvel para os "infiis" de todos os matizes. O pior  que nem todos, e nem sempre, se limitam a lamentar os que no pensam exatamente como eles, mas tudo fazem para convencer aos outros da sua verdade pessoal ou, pior ainda, querem obrigar todos a adotarem sua frmula de crer ou de no crer. No h como disfarar: a descrena  tambm uma forma de culto, com rituais, intolerncia e fanatismo, semelhantes aos encontradios nas diversas instituies religiosas. Nutro a esperana de que os conceitos que vimos debatendo neste livro possam contribuir para uma viso mais aberta, ampla e inteligente do problema religioso. Afinal de contas no estamos vindo todos, sem uma nica exceo, de um desconhecido nmero de existncias, nas quais adotamos tantas e to diversas maneiras de considerar os aspectos religiosos? Quem diria que j adoramos o sol, a lua, dolos, pedras, animais, objetos, rvores e tantos e tantos deuses e deusas? Tudo isso  experincia,  aprendizado, e disso resulta um seguro e incessante processo de abordagem da Verdade, por sucessivas aproximaes. O trato com os espritos, ao longo de muitos anos, em nossos trabalhos de intercmbio com eles, proporcionou-nos uma viso, diramos, privilegiada, do delicado problema religioso. O que observamos junto deles  a multiplicidade de experincias religiosas e as mudanas que se vo operando em cada um, no correr dos tempos. A medida que trocamos de corpos fisicos e de contextos sociais, histricos, geogrficos e culturais, vamos tambm substituindo, por outras mais racionais, nossas crenas. Infelizmente, muitas vezes, mudamos apenas as aparncias externas, as vestes sacerdotais, os

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cultos, ritos e posturas, deuses e dogmas, frmulas e estruturas hierrquicas, mas continuamos fanticos, dogmticos, intolerantes, exclusivistas e ambiciosos, interessados em seitas religiosas apenas na medida em que podem servir de plataforma de lanamento para ambies pessoais e exerccio do poder. Temos dialogado com espritos que foram to fanticos e intolerantes ao combaterem e ajudarem a condenar o Cristo, porque pertenciam s hierarquias sacerdotais da poca, como fanticos e intolerantes seriam, sculos depois, agora nominalmente cristos, ao perseguirem e condenarem os que no queriam ser cristos ou, pelo menos, no conseguiam aceitar a forma de cristianismo que lhes estava sendo oferecida. Tivemos depoimentos de outros que, de tal maneira se comprometeram perante a lei divina, no exerccio do poder religioso (E que estrutura de pensamento proporciona mais imperiosa forma de poder do que a religiosa?), que passaram a combater toda e qualquer idia, instituio ou conceito de natureza religiosa. Sejamos, portanto, realistas: as crianas so pessoas que trazem consigo denso contedo de experincia religiosa do passado. Dificilmente teria sido possvel viver tantas vidas sem um envolvimento maior ou menor, aqui ou ali, no tempo e no espao, com as inmeras seitas que o mundo tem conhecido. Muitas, seno a maioria de tais vivncias, foram desastrosas, deixaram seqelas de dificil erradicao e indelveis marcas na mente e no corao de muita gente. E no foram somente os que praticaram erradamente as religies ou as usaram como instrumento de opresso, mas tambm os que sofreram em conseqncia de tais erros e penaram sob o peso de insuportveis opresses. Isso acontece porque a lei costuma determinar a reverso das posies e o fantico de hoje ser, fatalmente, a futura vtima do fanatismo alheio. Ante esse quadro um tanto aflitivo, parece irrealista esperar crianas perfeitamente ajustadas aos conceitos de religiosidade e dispostas a optar, desta vez, por uma expresso religiosa equilibrada, serena, convicta e de elevada condio tica. Foram muitos e severos os desequilbrios, os desacertos, os equvocos e at mesmo os crimes cometidos em nome de Deus, e desastrosamente justificados como expresses mesmas do prprio amor a Deus ou ao Cristo, ou aos cdigos tidos por sagrados, nicos e irretocveis. Nesse aspecto mais sensvel para muitos,  meu propsito no ilustrar o relato com casos alheios. Resta-me a alternativa de um depoimento pessoal. Deve se lembrar o leitor de que, pginas atrs, disse-lhe eu que me foi concedida a oportunidade de conhecer larga faixa de minhas vivncias anteriores.  verdade isso e sou muito grato aos orientadores e instrutores espirituais que contriburam para que tais coisas me fossem ensinadas. Com elas eu consegui armar o painel panormico que hoje me proporciona uma viso de fntstica beleza e harmonia que, decisivamente, contribuiu para a elaborao de uma filosofia de vida fundamentalmente religiosa, no como atitude para ser assumida uma ou duas horas por semana, mas como postura permanente. No  a religio um aspecto da vida, mas a vida em si  religio, no sentido de que tudo est em Deus, tudo se move Nele, tudo se regula pelas leis naturais que a Inteligncia Suprema criou, tudo converge para Ele e d'Ele reflui.

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Sei, pois, de existncias vividas em templos egpcios, em pocas mitolgicas, como na Grcia, em estruturas hebraicas de pensamento, tanto quanto no poucos sculos de militncia ativa na Igreja Catlica e, em seguida, na derivao reformista do sculo 15I. Que lies posso tirar de tudo isso seno a de que muita coisa somou e outras tantas subtraram-se na manipulao dessa espantosa massa de experincia religiosa? Foi o que tornou possvel destilar-se,  chama de no poucos sofrimentos, equvocos, desenganos e erros mais graves, conceitos purificados que hoje me sustentam acima da mera crena, para assumir a estatura e a solidez de uma convico. Esta: somos espritos imortais, indestrutveis, perfectveis, e para isso  que vamos e voltamos, entre um mundo e outro, ou seja, entre as duas faces, os dois aspectos do mesmo mundo. Um deles, de maior densidade material, exploramos com os sentidos limitadores que a carne nos proporciona; no outro, mais difano, exploramos diferentes formas de vida no menos real do que esta, para a qual dispomos de outras sensibilidades, refinadas, sutis, abrangentes e superiores. Ao iniciar-se esta vida, vi-me naturalmente encaminhado para o catolicismo, a religio de minha me. Foi ela quem me ensinou a orar, essa magnfica e insubstituvel maneira de conversar com Deus. Era quem me falava de Deus, do Cristo e do Evangelho. Era quem me pregava, na singela e veemente expresso do exemplo, tanto quanto da palavra, uma tica limpa e de fcil entendimento. Como viria eu a observar mais tarde (ou como j observara antes, no sei), a Verdade  simples, discreta, silenciosa, transparente, to singela que muitas pessoas nem se dignam olhar para ela. Julgam-na uma inexpressiva e annima figura, perdida na multido do erro que grita, que usa roupas berrantes e se mostra aos passantes e at os segue, a puxar-lhes pelas vestes. Era simples e prtica a deciso de minha me a nosso respeito, ou seja, quanto aos dez espritos que acolheu generosamente para gerar-lhes os corpos e guiar-lhes os primeiros passos na nova vida. Manteve-se catlica at o fim, praticando, de modo assduo e convicto, a religio de sua escolha, mas sem fantasias ou beatismos. ("Primeiro a obrigao", ensinava ela, "depois a devoo.") Enquanto estivssemos sob sua responsabilidade, ficaramos sob a tutela da Igreja Catlica. Da em diante, a opo seria nossa, tanto quanto a correspondente responsabilidade. Lembro-me que, ainda na dependncia de seus devotados cuidados e canseiras, comecei a sentir o desencanto pela religio de sua preferncia. No me atraam os rituais, os sacramentos e obrigaes paralelas, mas, principalmente, as estruturas de pensamento que me eram oferecidas. Eu comeava a question-las e nem sempre as respostas e esclarecimentos eram satisfatrios. Estou certo de que ela percebia tais vacilaes e inquietaes, como tambm  certo que me solicitava docemente a insistir na prtica religiosa na qual via tantas consolaes para suas dificuldades, lembrando-me a missa, ou as obrigaes sacramentais de praxe, nas pocas devidas, para que no pusesse em perigo minha alma, pela qual, certamente, ela se interessava, e muito. Nunca, porm, forou nada e nada imps, a nenhum de ns. Era de supor-se que teria preferido todos abrigados devotadamente sob as asas da sua amada Igreja, mas no desejou tomar por ns decises que entendia

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pertencerem a cada um, a no ser no perodo da infncia, quando no tnhamos condio para considerar os fatos, analis-los e decidir o rumo a seguir. Sou grato a ela por tudo isso: o bom senso, o equilbrio, a inteligente maneira de agir. Mais do que grato, considero-me privilegiado por ter tido a oportunidade de conviver com um esprito generoso e pacfico, embora decidido e firme, que nos impregnou com seu verdadeiro senso de religiosidade. Lembro-me de como isso foi importante para que eu pudesse atravessar, sem maiores conflitos ntimos, o perodo em que, sem conseguir aceitar mais as estruturas doutrinrias da sua religio, no tinha, ainda devidamente conscientizadas, as que eu certamente trouxera comigo, nas profundezas da memria, como programa de ao para esta existncia. Foi uma poca de incertezas,  verdade, de dvidas e inquietaes, de desalento e desencanto tambm. Se no era aquela a maneira de expressarme como ser humano perante Deus e o universo em que eu vivia, qual seria ento? Dois importantes pontos de apoio se salvaram em mim e sobreviveram a esse perodo de reformulao: a existncia de Deus, que me parecia mais do que bvia, indispensvel a um universo claramente orgnico e harmonioso, e a grande admirao e respeito carinho mesmo -- pela majestosa figura de Jesus e sua filosofia bsica, tal como eu podia v-las nos textos evanglicos. Essa fase ficou, de certa forma, documentada, de vez que, com o primeiro salrio ganho em um emprego melhor, recm-obtido, comprei, em 31 de julho de 1939, um exemplar da Bblia. Tinha 19 anos de idade. Minha me, sempre atenta, advertiu que se tratava de uma "Bblia protestante", certamente porque no encontrava nela o esperado e tranqilizador Nihil Obstat e o respectivo Imprimatur da autoridade eclesistica competente. Procurei tranqiliz-la, chamando sua ateno para a traduo, de responsabilidade do padre Antnio Pereira de Figueiredo, mas ela percebia determinadas notinhas de rodap, de aparncia um tanto suspeitas para seu gosto. De forma alguma, contudo, interditou o livro s minhas pesquisas. Creio que confiava em mim, e, talvez, na traduo do padre. Ademais, havia a nota seguinte: "Da edio aprovada, em 1842, pela Rainha D. Maria 2 com a consulta do Patriarca Eleito de Lisboa." No fundo, porm, ela sabia que isso no queria dizer muita coisa, pois o texto que eu tinha provinha da edio aprovada pelo arcebispo, o que no queria dizer que era a edio aprovada, mesmo com os dois pp. Seja como for, essa  a Bblia que me tem servido, entre vrias outras mais recentes, h mais de meio sculo. Desde logo passei a encontrar ali ressonncias harmnicas com meu oculto diapaso ntimo. Penso hoje que, talvez, naqueles momentos em que eu estudava os textos com a firme deliberao de penetrar-lhes o sentido, desmaterializavamse as barreiras do tempo e eu ouvia o Cristo ensinando as belezas de sua inesgotvel sabedoria. Tantas vidas levara ouvindo e repetindo aqueles conceitos que j os trazia escrito no corao e na memria integral. Era como se reencontrasse velhos amigos e redescobrisse caminhos que trilhara em outros tempos, no sei onde, nem como. Em suma, o Cristo chegara, de novo, s profundezas do meu ser, ou ser

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que nunca houvera estado ausente e eu apenas no me dera conta de sua presena? Muitos anos depois, uma pessoa mergulhada em suas memrias do passado me diria que conceitos que eu costumava rejeitar, no contexto das tradicionais seitas crists, eram os que no conferiam com aquilo que meu esprito sabia, de alguma forma ainda obscura para mim, no serem expresso fiel do pensamento de Jesus. No tenho a pretenso de achar que minha experincia pessoal sirva de modelo a ser adotado por todos ou pelo menos por alguns. Nem me coloco, eu prprio, como um ser redimido, dotado de luminosas virtudes e inatingveis perfeies. Estou bem consciente de minhas limitaes e do muito que me falta percorrer at chegar a um estgio de razovel serenidade. Alm disso, embora os mecanismos psicolgicos sejam idnticos ou muito semelhantes em todos, cada um de ns tem sua peculiar maneira de agir e reagir aos estmulos que a cada momento nos chegam. Essa complexa dinmica  resultante de todo um conjunto de experincias e vivncias que por sua vez determinam certo grau de maturidade ou imaturidade de cada um de ns. Somos seres singulares, nicos, universos miniaturizados, partculas de conscincia, meros pigmentos coloridos que, juntos, aos milhares, aos milhes, emprestamos cor  comunidade em que vivemos, s pocas, aos contextos histricos, geogrficos e sociais em que nos inserimos, de tempos em tempos, vida aps vida. Acabamos encontrando o caminho, pois no h outro seno aquele que leva a Deus. Se muitos so os que resolvem passar pelos atoleiros, pelos desertos e espinheiros, que fazer? No  direito de cada um -- e responsabilidade -- o livre decidir pelas opes que se vo apresentando? Afinal de contas Deus no tem pressa, porque est alm e acima do tempo e do espao, mas  muito pouco inteligente e di muito, e demora demais chegar, quando nos obstinamos, infantilmente, em fazer a caminhada sem ele, como se isso fosse possvel. Um dia fazemos uma parada para pensar e nos dizemos: "Meu Deus! Quanto tempo perdido! Quanto sofrimento intil!"  a que comea a subida para a luz. Ela ser tanto mais rpida e fcil, mesmo em sua lentido e dificuldade, quando mos generosas se estenderem para nos ajudar, acendendo fachos pelos caminhos, sustentando-nos no momento do tropeo, ou fazendo junto ao nosso ouvido a concha amiga para que seja sussurrada uma palavra de encorajamento, de amor fraterno e de solidariedade. O que importa  isso, no esta ou aquela religio especfica. O que importa  a presena de Deus em ns, claro, mas no apenas isso e sim a nossa conscincia de tal presena. E isso comeamos a perceber, primeiro, no corao de mes generosas, antes de notar que tambm em ns ele est. Se l no conseguimos v-lo, qualquer que seja a razo, podemos estar certos de que ficar mais difcil encontr-lo em ns mesmos.

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24 COMO CONVERSAR COM DEUS
SUGERI, ALHURES NESTE LIVRO, que voc deve orar e que, se no sabe, trate de aprender. Por incrvel que parea, h muita gente que no sabe faz-lo. A prece  uma conversa com Deus, e conversa no precisa de frmulas, ritos ou posturas especiais. O tom da conversa est sempre relacionado com o grau de intimidade com a pessoa  qual voc se dirige. Com Deus, o relacionamento se caracteriza como da maior intimidade. Quem melhor do que ele para nos conhecer, saber de nossas mazelas, necessidades e potencialidades? Do mais alto nvel deve ser o respeito no trato com ele. O cantor e compositor Gilberto Gil sugere, na sua bela cano, como deve preparar-se aquele que deseja falar com Deus. Os poetas sabem das coisas... Como tambm sabia Francisco, ojovem Bernardone, de Assis. Na dcada de 50, vivamos em Nova Iorque, Estados Unidos, quando ganhamos da Malvina Dolabella um pergaminho com a prece de Francisco que ela havia posto em versos e divulgava entre os amigos. Dizia assim: Atende-me, Senhor, Torna-me, entre os mortais, um instrumento fiel da Tua grande Paz! Onde a ofensa existir, que eu coloque o perdo. Onde o dio raivar, d que eu possa, Senhor, deixar em seu lugar um sorriso de amor! Onde houver a discrdia, eu proponha a unio. Onde o erro gritar, com toda a mansido, eu ensine a Verdade! E ao ouvir duvidar, mostre o esplendor da F que nos leva a Te amar! Que ao que desesperar -- nufrago sem confiana --, mostre o luzeiro incomprvel da esperana! Torne as trevas em luz, tristezas em alegria. E que chegue, afinal, aquele grande dia... (Graas a Ti, Senhor, o dia h de chegar!) Em que eu console sem buscar ser consolada. Em que eu compreenda mais que seja compreendida. Ame, sem procurar saber se sou amada. Porque  sempre no dar que tudo se recebe, o que de outrem matou a sede --  o que mais bebe, ao esquecermos de ns --  que nos encontramos. E o perdo s nos vem... quando tambm perdoamos! E esperarei a morte a sorrir, convencida, que s depois da morte...  que se conhece a Vida! So numerosas as preces da Bblia, tanto no Antigo como no Novo Testamento. Uma das mais remotas dessas conversas com Deus est em Deuteronmio (9,26-29), onde se l isto: Senhor Deus, no destruas o teu povo e a tua herana, que resgataste com teu grande poder e que tiraste do Egito com tua mo poderosa. Lembra-te de teus servos Abrao, Isaac e Jac; no olhes para a dureza deste povo, nem para a sua impiedade e pecado, para que no digam os habitantes do pas, de onde nos tiraste: "O Senhor no podia

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introduzi-los na terra que lhes havia prometido e como se aborreceu com eles, os tirou para mat-los no deserto". Eles so teu povo e tua herana, que tiraste com tua grande fora e com o teu brao estendido. A est uma boa conversa, de corao aberto, na qual a pessoa em prece, reconhece os desatinos do povo, mas apela para que no sejam todos destrudos. Afinal de contas, ainda que merecedores de uma severa corrigenda, continuam sendo aquela gente que foi retirada da escravido. Se fossem aniquilados que iriam dizer os egpcios? Lutero costumava orar diante da janela aberta, contemplando a imensido csmica. Em carta ao amigo Melanchton, escreveu certa vez: meu Felipe,  a prece que governa o mundo; por ela, tudo conseguimos realizar, levantamonos das nossas quedas, suportamos o irremedivel, destrumos o mal, conservamos o bem". Certa vez, ao encontrar Melanchton deprimido e praticamente nas ltimas, virou-se para a janela e orou como nunca, com aquela convico inquebrantvel que sempre demonstrou. Falou, em seguida, com o amigo, que, a partir daquele momento, comeou a recuperar-se, para dar continuidade  luta. Mais tarde, diria como foi aquela dramtica conversa com Deus. "Ainda bem que o Senhor me ouviu" -- explicou. "Atirei-lhe o fardo  sua porta; enchilhe os ouvidos com todas as suas promessas de apoio. Disse-lhe que era preciso que me atendesse para que eu continuasse a crer". Tambm o Cristo orava com freqncia, nas suas longas e sofridas meditaes, pois a prece  o fio invisvel de nossa ligao com Deus. O recurso da prece est sempre  nossa disposio, em qualquer lugar, momento ou situao. No precisa nem mesmo ser verbalizada em voz alta, basta ser pensada. A criana deve ser habituada a orar desde o incio, de preferncia com suas palavras, a seu jeito. H numerosas oportunidades para isso, em diferentes horas do dia, quando acorda de manh, quando se deita,  noite, para dormir, quando se prepara para sair  rua, ou se pe  mesa para a refeio, quando algum da famlia est doente, ou, simplesmente, para agradecer o privilgio da vida, da sade, das oportunidades de aprendizado e maturao espiritual. Enfim, so muitas as situaes, qualquer que seja a filiao religiosa dos pais. Ore, cada um, dentro do contexto de suas crenas e costumes, judeus, muulmanos, cristos, espritas, budistas. No importa. Por mais que se esforce tanta gente em achar que  dono de um Deus especfico e exclusivo, s h um Deus, pai de todos ns, o que nos faz membros de uma s famlia universal e, portanto, irmos e irms. Quando desperto, peo a Deus que abenoe o dia que tenho pela frente. Ao abrir a janela, contemplo a manh, l fora, e digo mentalmente: - Bom dia, dia! Se me preparo para ir  rua, peo a Deus que me ajude no relacionamento pacfico e harmonioso com as pessoas com as quais me encontrarei, no supermercado, no banco, nas caladas, na conduo. Muitos de ns temos uma hora predileta para a prece mais longa e a meditao. Eu optei pelas seis horas da tarde, aps concludas as tarefas do dia. Costumo compor minhas prprias preces e as renovo de tempos em tempos, a fim de que no se automatizem e passem a ser repetidas mecanicamente. Quero estar consciente do que estou dizendo a Deus ou ao Cristo.

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A prece tem, contudo, algumas peculiaridades para as quais precisamos estar preparados. Muitas vezes elas so atendidas exatamente por que no so, aparentemente, atendidas. Est confuso? Vamos dizer de outra maneira; pode bem acontecer que, se obtivssemos aquilo que pedimos, seramos prejudicados e no beneficiados. Alm do mais, a prece no deve ser transformada em petitrio, como se Deus estivesse  nossa disposio para atender a qualquer capricho ftil. Ela constitui um processo atravs do qual somos fortalecidos para as lutas que nos aguardam, no um recurso para a gente ganhar na loteria ou conseguir que os obstculos sejam removidos dos nossos caminhos. Primeiro, que os obstculos e as dificuldades foram postos ali pela nossa prpria insensatez; segundo, que temos de aprender a superar tais dificuldades, pois  assim que nos fortalecemos e realizamos o aprendizado que nos compete. O leitor dever estar pensando, a esta altura, que estou apelando para a pregao. No  isso. Estou falando de indiscutvel realidade objetiva. Fora do campo religioso, a prece tem sido pesquisada cientificamente e as descobertas surpreenderam muita gente. O meticuloso trabalho do dr. Franklin Loehr, nos Estados Unidos, demonstrou o poder da prece sobre a sade e o crescimento das plantas, por exemplo, como relata seu livro The power of prayer on plants. Os resultados foram mensurveis, comparando-se dois lotes de plantas da mesma espcie, semeadas e tratadas da mesma maneira. Anica diferena entre os dois grupos consistiu em que um deles, alm de solo, gua e luz, foi tratado com preces dirigidas s plantinhas ou gua com a qual foram regadas. No era preciso nem dizer quais as plantas rezadas, elas eram mais saudveis, mais fortes, cresciam mais e produziam mais. Remeto o leitor interessado ao texto nmero 40 "O poder da prece sobre as plantas" -- (pginas 143 a 145), do livro De Kennedy ao homem artificial. Esse livro rene crnicas que, a pelo final da dcada de 60, Luciano dos Anjos e eu escrevemos, durante cerca de trs anos, para o extinto Dirio de Notcias, jornal de grande tiragem e tradio, do Rio de Janeiro. Um desses textos, publicado em 29 de novembro de 1968, foi sobre a prece (pginas 100 a 102). Recorro a ele para alguns comentrios adicionais. A meu ver, h dois tipos de pessoas que no oram: as que no sabem e as que no querem. Esta conversa  endereada de preferncia s primeiras, mas sem excluso das demais, porque tanto umas como outras esto deixando de recorrer s energias superiores que sustentam o universo. Falando s que no aprenderam a orar,  de esperar-se que tambm alcancemos os indiferentes. Bem pensado, alis, creio que poderamos colocar mais um grupo: o daqueles que oram mecanicamente, recitando frmulas que a repetio infindvel esvaziou de todo o seu contedo emocional. E para que serve uma prece sem emoo. Muitos ainda no descobriram que o valor e a eficcia da prece no esto no nmero de vezes que a recitamos e sim no que sente o nosso esprito ao pronunci-la. Por isso, aqueles a quem no mais satisfaa a prece repetitiva, ficam sem saber o que dizer a Deus. A Enciclopdia Britannica que andei consultando para escrever isto  muito erudita e tcnica no exame da prece. Divide-a em trs tipos, segundo seja dirigida a um ser superior quele que ora, a um ser do mesmo nvel ou a

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um ser inferior, ou que pelo menos o suplicante assim considere. A Deus se pede com humildade e confiana. A um santo com o qual se tenham tomado certas liberdades muita gente prope uma barganha, isto , faz uma promessa, mais ou menos nos seguintes termos: -- Voc me d isto que eu te prometo fazer aquilo. O terceiro tipo -- ainda segundo a Britannica --  uma verdadeira ameaa: -- Voc me arranja isto, ou te quebro a cara! No  preciso dizer que estes dois ltimos tipos de `prece' esto fora de nossas cogitaes aqui. Preces decoradas ou repetitivas tambm no so de minha preferncia, como j vimos. Se a prece  um entendimento direto entre o ser humano e Deus ou com um esprito superior, em quem a gente confia -- o Cristo, por exemplo --, basta abrir o corao e deix-lo falar, numa conversa franca, leal, respeitosa e recolhida. No  preciso procurar palavras difceis, expresses rebuscadas que quase sempre so insinceras. Com isto a prece vira discurso de poltico em campanha. No se envergonhe da sua linguagem com Deus -- ele a entender perfeitamente, e quanto mais singela e humilde, melhor, porque  o sentimento por trs dela que vale, no as "palavras bonitas". Jesus no se preocupou em ensinar preces especficas; a nica que nos deixou em palavras suas foi a chamada "orao dominical", ou melhor, o "Pai Nosso". Quanto ao mais que disse ele? Que quando tivssemos de orar, entrssemos para o quarto e, em segredo, nos dirigssemos a Deus. Disse do valor da prece do publicano sincero e humilde e que de nada servia a orao pomposa do fariseu hipcrita. Declarou tambm que era preciso bater para que se abrissem para ns as portas. Se conseguiremos ou no o que pedirmos,  outra coisa. Nem sempre aquilo que pedimos  o que mais convm ao nosso esprito. Segundo o Cristo, Deus no nos dar pedra se lhe pedirmos po, mas, como pai prudente, "recusa ao filho o que for contrrio ao interesse deste", conforme disseram os instrutores ao prof. Rivail. Insisto em dizer que a criana deve ser ensinada a orar to cedo quanto possvel, como so ensinados os hbitos de higiene, limpeza, ordem e educao social. So os costumes adquiridos na infncia que testemunharo pela vida inteira sobre o tipo de lar em que a pessoa viveu na infncia. Como em tantos aspectos da vida em famlia e em sociedade, o aprendizado pelo exemplo  o mais eficaz. A criana deve sair de casa, para suas primeiras atividades sociais, a partir do jardim de infncia, com um mnimo de preparo para resistir aos inevitveis impactos do desaprendizado que ir enfrentar na rua, na escola, nos meios de transporte... Se os pais, ou um deles, tm o hbito de orar, as crianas se acostumaro a essa prtica. O melhor  fazer isso com regularidade. Muitas famlias adotam o Culto do Evangelho no Lar. Renem-se todos, um dia por semana, de preferncia  noite, para orar, ler uma pgina e coment-la. Meia hora  o bastante. Se voc no  cristo, faa o culto em torno do Tor, do Coro ou dos ensinamentos de algum mestre de sua preferncia. Estimule a criana a participar e comentar os temas abordados. Alis, o poder da exemplificao  decisivo em outros tantos aspectos da vida, como j vimos, no somente na prtica religiosa. Venho, por exemplo, de um tempo em que o palavro era, no mnimo, deselegante e grosseiro, prprio de gente sem educao, inaceitvel na conversa em famlia. Nem meus irmos

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nem eu nos acostumamos a empreg-los, porque nossos pais no o faziam. A tradio continuou na famlia que minha mulher e eu iniciamos. Nenhum de ns  dado ao palavro, usado hoje praticamente como pontuao, na conversa de rua, no teatro, no cinema, na TV e nos textos publicados. Aceito, neste ponto, e sem nenhum constrangimento, a pecha de quadrado, antiquado ou puritano; sempre me choca o palavro, especialmente, na voz infantil, ou na boca de uma mulher. Ainda penso que a boca fica suja para falar com Deus e no fao questo alguma de mudar esse modo de avaliar as coisas. No tenho preces padronizadas e nem miraculosas para ensinar. Cada um de ns tem que se expressar de sua maneira pessoal e nica. Gosto do Pai Nosso, claro. Atj fiz sobre ele uma longa palestra, porque vejo nele muitos ensinamentos. Um exemplo, apenas: j notaram que h, no Pai Nosso, um nico pedido material -- o do po? E mais ainda, somente o po de cada dia, no uma carroa de po. Gosto tambm da prece de Francisco de Assis. E embora no seja para ficar repetindo-a indefinidamente, gosto da prece composta por um esprito que se assinou Agar e a escreveu pelas mos do querido Chico Xavier.  assim: Pai de Infinita Bondade, sustenta-nos o corao no caminho que nos assinalaste. Infunde-nos o desejo de ajudar queles que nos cercam, dando-lhes das migalhas que possumos para que a felicidade se multiplique entre ns. D-nos a fora de lutar pela nossa prpria regenerao, nos crculos de trabalho em que fomos situados, por teus sbios desgnios. Auxilia-nos a conter nossas prprias fraquezas, para que no venhamos a cair nas trevas, vitimados pela violncia. Pai, no deixes que a alegria nos enfraquea e nem permitas que a dor nos sufoque. Ensina-nos a reconhecer tua bondade em todos os acontecimentos e em todas as coisas. Nos dias de aflio, faze-nos contemplar tua luz, atravs de nossas lgrimas, e, nas horas de reconforto, auxilia-nos a estender tuas bnos com os nossos semelhantes. D-nos conformao no sofrimento, pacincia no trabalho e socorro nas tarefas difceis. Concede-nos, sobretudo, a graa de compreender a tua vontade, seja como for, onde estivermos, a fim de que saibamos servir em teu nome e para que sejamos filhos dignos de teu infinito amor. Assim seja!  ou no  uma belssima prece? Vejam bem que coisa linda "contemplar a tua luz, atravs de nossas lgrimas ou partilhar o pouco que tivermos "para que a felicidade se multiplique entre ns... Uma prece dessas fica acima de qualquer denominao religiosa. Serve a qualquer pessoa, at mesmo ao descrente; naquele momento de aflio ou angstia. Minha me dizia desses, que s se lembram de Santa Brbara quando troveja. Orar no , pois, uma obrigao enfadonha, da qual temos de nos livrar diariamente.  aquele momento especial em que ligamos nossas tomadas espirituais no grande reservatrio de energia csmica.

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25 O PS-ESCRITO QUE VIROU CAPTULO
EU ESTAVA PENSANDO EM ACRESCENTAR ao captulo anterior algumas notas suplementares quando percebi que o mero ps-escrito seria insuficiente para comportar o assunto, que transbordava e exigia status de captulo. Vamos, pois, a ele. Como ficou dito, cedo encontrei-me, na vida, insatisfeito com as estruturas religiosas de minha infncia. No que as houvesse rejeitado sem mgoas. Foi bom enquanto durou, mesmo porque eu via em tudo aquilo a tranqila imagem de minha me e em tudo ouvia suas observaes e ensinamentos. Na verdade foi to forte a vinculao que houve um tempo em que pensei seriamente em dedicar-me  vida religiosa. Estranho como possa parecer, meus colegas de ginsio me puseram o apelido de Vigrio, por causa de meus hbitos de recluso, um pouco austeros, avesso a envolvimentos com os distrbios prprios da idade e incapaz de pronunciar um palavro, hbito que conservei a vida inteira. Sabia-se at que eu no gostava de anedotas ditas "picantes", ou conversas de teor duvidoso, que ento me constrangiam, como ainda hoje. Eu me vira, de repente, sem uma religio especfica, e isso, de certa forma, me incomodava e desencantava. Muitos anos depois, leria em Silver Birch, o sbio guia espiritual de Maurice Barbanell, que ns, as criaturas humanas, nos preocupamos demais com rtulos. Coisa semelhante encontramos em Saint-Exupery, que faz o Pequeno Prncipe dizer que as pessoas so muito fixadas em nmeros. Realmente, logo que uma pessoa conhece a outra, quer saber quantos anos tem, quantos francos, cruzeiros ou dlares ganha por ms, quanto vale sua casa ou apartamento, quantos filhos possui, se os tem, e coisas dessa ordem. Naquela poca, contudo, eu no sabia ainda que no tinha a menor importncia termos ou no rtulos. Eles podem servir para facilitar nossa identificao com os outros, mas pouco nos servem, se no simbolizarem uma convico. Quisesse ou no, acho que isso me incomodava. O rtulo de catlico no me servia mais, e eu no tinha outro para colar por cima. O de protestante no me assentava, no sei por que misteriosas razes... Quanto ao de muulmano ou budista, deles no cogitara. O de ateu me repugnava liminarmente; o de esprita no me ocorrera ainda considerar, mesmo porque ficara em mim um resduo de desconfiana, depositado por sermes e prdicas que ouvira e livros que lera, advertindo quanto aos "perigos" dessa "seita" ou "heresia" patrocinada diretamente pelo demnio, a mais segura para levar a pobre alma indefesa e incauta para os subterrneos do inferno. Seja como for, a busca para mim continuava. Eu tinha de ter algum rtulo, mas onde encontr-lo e como saber que me serviria para repor o que eu recusara? Paradoxalmente, contudo, eu "sabia" que havia um rtulo minha espera, em algum lugar, ao qual eu ainda no chegara. Era, portanto, uma questo de esperar com a possvel dose de pacincia. Enquanto isso, percorria regularmente as pginas do Evangelho e voltava a examin-las nos pontos de meu maior interesse, especialmente as epstolas de Paulo, que mais me atraam, se bem que muitos aspectos de seus ensinamentos me parecessem obscuros ou mesmo incompreensveis.

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Como, porm, tudo aquilo deveria ter um sentido e uma razo de ser, eu entendia que me faltava uma chave qualquer, com a qual pudesse abrir portas e cofres, que certamente guardariam riquezas de sabedoria. Posso hoje perceber que eu era cristo, mas num sentido que no conferia com os modelos de cristianismo que me eram oferecidos. Alm do mais, autoridades religiosas -- eu as ouvira e lera durante tempo suficiente -- decretavam que s era cristo -- com direito a ir para o cu -- aquele que pertencesse, com exclusividade,  Igreja que elas representavam. Os dicionrios me diziam a mesma coisa, ou seja, cristo era o indivduo batizado e que professava o cristianismo. Eu fora batizado,  verdade, mas no podia, honestamente, dizer que professava o cristianismo. Sem rtulo especfico e em busca de um, vivi um bom punhado de anos. Na verdade considerava-me cristo e tinha, portanto, meu rtulo, mas de nada servia ele para os outros, que no o reconheciam como tal. Foi somente a pelos 35 anos de idade que comecei a examinar com seriedade a doutrina que os espritos haviam transmitido a Allan Kardec. Pedira a um amigo pessoal, que sabia profundo conhecedor do assunto, que me indicasse um roteiro de leitura, e segui meticulosamente sua "receita", prescrita num pequeno pedao de papel, onde ele anotara alguns nomes de autores de sua confiana. No houve dificuldade alguma na aceitao dos conceitos contidos nessas obras. Pelo contrrio, eu tinha a impresso de que chegara, afinal, ao caminho que me estava destinado percorrer. Estranho como possa parecer -- e para mim foi estranhssimo, naquela poca --, os novos ensinamentos no eram novos para mim; ao contrrio, iam tendo ressonncia em minha mente, como coisas que eu conhecia e que estava apenas transplantando de alguma gaveta secreta do inconsciente para a conscincia de viglia. Em suma, eu era esprita e no sabia! Restava um srio problema a resolver. Minha me permanecia catlica convicta e praticante. Fiel  sua maneira de ser, continuava considerando com srias reservas e desconfianas tudo quanto se referisse a espritos e espiritismo, que segundo lhe fora ensinado consistentemente, ao longo de toda sua vida, eram coisas do demnio. Como nunca foi fantica, conviveu pacificamente com parentes e pessoas de suas relaes, simpatizantes ou praticantes do espiritismo. No sei se ainda em vida soube que eu me bandeara para o lado dos "hereges". Se o soube, deve ter temido honestamente pela sorte de minha alma e muito deve ter orado por mim. Seu presente de aniversrio -- no tinha prata nem ouro, como disse Pedro -- era assistir auma missa e comungar por mim. Estou certo de que a pureza da sua f e a convico de suas preces muito contriburam para que todos ns fssemos encaminhados corretamente pelos caminhos da vida. Ela parecia ter certa intimidade com Deus, e tinha mesmo, porque era hbito de uma vida conversar com ele, nos silncios das suas horas de meditao ou enquanto velava, pelas horas mortas da noite,  cabeceira de um filho doente. O certo  que eu no podia e no queria mago-la. Guardei para mim minhas convices, pois afinal de contas nosso Deus era o mesmo, como tambm nosso Evangelho, do mesmo Cristo, que ambos amvamos, cada um a seu jeito. Havia, porm, uma dvida a resolver: eu queria escrever sobre as coisas

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que, agora, circulavam pela minha mente. Queria transmitir um pouco daquelas idias que vieram dar sentido s minhas aspiraes. Mais do que isso, eu comeava a entender, nos evangelhos e nas epstolas, aspectos que antes me pareciam obscuros ou de todo impenetrveis ao entendimento. Em dezembro de 1956, com 36 anos de idade, fiz minha estria como bisonho e tmido articulista, nas pginas de Reformador, que me abrigaria durante 24 anos. Mantinha meu compromisso de irrestrito respeito s idias de minha me, e por isso os primeiros trabalhos sairam apenas com as iniciais de meu nome, exatamente iguais s dela: H.C.M. Senti-me, contudo, no dever de escrever-lhe uma carta aberta, a fim de explicar-lhe como e porque me tornara esprita. Chamei a esse pequeno depoimento de "Carta  Me Catlica", como se pode ver em Reformador de maio de 1961. Assinei-a com o nome de Joo (de Joo Marcus, pseudnimo que adotaria logo em seguida e continuaria tambm a utilizar, mesmo depois que passara a assinar meu nome real). Anos depois de sua partida para o mundo espiritual, Divaldo Pereira Franco, o querido amigo e mdium baiano, transmitiu-me um recado que ele no estava entendendo, mas que reproduziu fielmente. Apresentara-se  sua vidncia uma senhora, cuja aparncia ele descreveu, que lhe pedia para dizer a Joo Marcus -- e apontou para mim -- que lera com muita emoo minha carta e agradecia as palavras de carinho. -- Quem  Joo Marcus -- perguntou ele? Expliquei-lhe o melhor que pude, sob o impacto das emoes do momento, o que tudo aquilo queria dizer. Outros recados me mandaria ela e de outras vezes se apresentaria  vidncia de sensitivos de minha confiana. Certa vez, quando atravessava eu um perodo de mais doloridas aflies ntimas, ela resolveu comunicar-se psicograficamente, ou seja, pela palavra escrita. Ora, minha me ficara conhecida na famlia pela singela beleza e correo de suas cartas, escritas com uma letra muito pessoal, lmpida, sem floreios ou sofisticaes, tal como seu estilo e sua prpria maneira de viver. Levou para a vida no alm o hbito de escrev-las, como aqui, com a mesma serena beleza, naquele mesmo estilo fluente, sem literatice intil, com a mesma tranqila emoo subjacente, com a mesma naturalidade, como quem conversa. Ressalvados os aspectos pessoais, que no poderia transcrever, eis, em parte, o que ela me disse, naquele documento. "Um corao de me  como uma fonte, donde o amor jorra constantemente, num fluxo ininterrupto que se perde pela eternidade afora. Os olhos de me, quando j no choram mais suas prprias lgrimas, ainda deixam escorrer, por eles, as lgrimas de seus filhos. "(...) Nunca frui de muito falar, nem de escrever. E sabes que jamais me senti  vontade com as letras. De certa forma, elas sempre me intimidaram. Agora sei que era o receio que meu esprito trazia de desviar-se do trabalho que deveria fazer. "Em meus muitos silncios, conversava com Jesus, tentando compreender-lhe os desgnios e obedecer-lhe a vontade. Agora sei que ele no era Deus. Mas agora, tambm, sinto-o mais junto de meu corao, mas real. Contudo, no tive dificuldades em encontrar-me na nova realidade, porque

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minha f, embora simples e sem atavios, era sincera e profunda. Aprendo agora que, para Jesus, no h santos nem pecadores, apenas irmos a caminho da elevao. "Encontrar familiares e amigos vivendo vida comum foi, sem dvida, surpresa para quem esperava um cu inexistente. Mas foi tambm imensa alegria saber que inferno e demnio so palavras inventadas pelos preguiosos, abrigados no comodismo do menor esforo. "Agradeo-te, meu filho, seres o que s. O teres prosseguido nas convices de tua f, apesar do respeito e amor por mim. Hoje vejo que teria lucrado se, embora bastante avanada na vida fsica, tivesse escutado a melodia da f nova que flua de teu corao. Mas tudo so lies e hoje sigo aprendendo contigo quanto aprendeste comigo. Hoje sou eu que anseio passar de lio depressa para chegar logo ao fim do livro, que na verdade no existe, porque o Livro da Vida se desdobra nas pginas do infinito. "No esmorea, filho. Se muito no pude dar-te, ao menos dei-te o exemplo da tenacidade e perseverana, confiando na vida e acreditando nos meus deveres. "Estamos todos trabalhando e estudando. Aqui aprendemos que no existem separaes de famlias ou convenes de sociedade. Aqui todos se identificam pelos anseios, esperanas ou dores. Marche para a frente. No permita que a adversidade te afaste do caminho de teus deveres para com o Cristo e para com a tua f. Tu sabes, melhor do que eu, o que ela vale. Prossiga, filho.  tua me quem te pede. Teu corao est guardado no meu corao. "(...) Esta cartaj se alonga mais do que o desejado e por certo j te perguntas como tua me, sempre to calada, pde dizer tanto. Agradeo a Jesus a oportunidade e rogo por ti, filho meu, para que o Senhor te recolha em seu regao e te embale a cabea cansada, acalentando-te na sua paz. "Todo o amor de meu corao humilde. Helena, tua me." *** A est esse belo e comovente documento. Sei que no faltar quem diga, com uma ponta de ironia inconseqente, que no acredita nessas radicais converses pstumas de devotados catlicos. Acontece que ironizar no  argumentar. O testemunho firme e claro do fato dispensa o argumento. No  que as pessoas se tornem espritas depois que morrem,  que elas descobrem que so espritos! E que apenas estavam aprisionadas em um corpo fsico perecvel. A nica diferena em relao aos espritas  que estes j sabiam que eram espritos mesmo aqui, na carne. Nada mais, mesmo porque somos todos irmos, ainda que nem sempre amigos, e todos programados para o mesmo destino de felicidade e harmonia. Uma pequena informao deve ser acrescentada para esclarecer o leitor acerca da "carta" de minha me. Apesar de suas canseiras e lutas domsticas, a lidar, dia e noite, com dez filhos, ns j amos para a escola primria sabendo ler, escrever e contar. Sem ser particularmente brilhante, eu aprendera com notvel facilidade. Para mim era enfadonho ficar retido em cada lio at que ela encontrasse tempo disponvel para "tom-la". Por isso lhe pedia dispensarme desse encargo, mesmo porque, mal iniciado o processo, euj estava lendo as ltimas lies da saudosa Cartilha da infncia, de Thomaz Galhardo. Da

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sua observao: "Hoje sou eu que anseio passar de lio depressa para chegar logo ao fim do livro (...)" E logo a seguir a nova lio aprendida, adeque "o Livro da Vida se desdobra nas pginas do infinito". Desse depoimento pessoal, para ilustrar o problema da formao religiosa das crianas, s resta esclarecer uma dvida que deixo com o leitor, j que no sei como decidi-la. Quem  mais grato a quem? Minha me, que agora me agradece, at pelo que no pude ou no soube fazer por ela, ou eu, pelo que ela fez por mim, embora achando que muito no pde dar, seno o magnfico exemplo da sua f? Pois no  isso o "muito" e o "tudo" que ela deu?

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26 DO ESTADO SLIDO AO GASOSO
J QUE TANTO FALAMOS DA VIDA, precisamos falar tambm da morte, que  uma diferente modalidade de vida, e at que no muito diferente, sob certos aspectos.  medida que a existncia prossegue e crescemos e nos casamos e envelhecemos, pessoas queridas vo morrendo  nossa volta. H pouco falava eu de minha me, que partiu a um tempo em que eu, j adulto, e razoavelmente instrudo acerca da realidade espiritual, estava convencido de que a separao  apenas temporria, ainda que possa durar alguns anos, pois tambm eu, como todas as pessoas, renasci programado para voltar  dimenso espiritual de onde vim. A vida aqui  apenas um estgio de aprendizado e trabalho, etapa de um ciclo evolutivo, como os diferentes nveis de ensino das escolas que freqentamos. A medida em que vamos sendo aprovados em testes, sabatinas, exames vagos , escritos e orais, vestibulares, mestrado ou doutorado, vamos seguindo em frente, rumo a novos patamares. Um dia ser o da "formatura", espcie de colao de grau de csmicas dimenses, a partir da qual no mais teremos de voltar ao que, na conhecida prece catlica, se chama de "vale de lgrimas". Teremos, por essa poca, escapado para sempre ao que os msticos orientalistas chamam a "roda da reencarnao". A caminhada prosseguir da em diante, mas no mais estaremos atados, de tempos em tempos, a um corpo fsico que nos impe tantas limitaes, a fim de que possamos realizar esse longussimo curso, em que aprendemos o ABC da vida. Escrevendo certa vez a Godofredo Rangel (A barca de Gleyre), amigo de muitos anos e de muitas cartas, dizia Monteiro Lobato que a morte  apenas uma mudana de estado: passamos do estado slido ao gasoso. Isso tudo no quer dizer, porm, que no sintamos, com maior ou menor intensidade, a morte de parentes e amigos, e at simples conhecidos. As partidas so sempre carregadas de certo contedo emocional, seja uma simples despedida de quem vai passar frias em local mais distante. Sentimos falta do filho que foi trabalhar fora, da filha que se casou, do irmo que foi viver em outra parte do mundo e at do bom colega de trabalho quando se transferiu para outra filial.  apenas natural e compreensvel que sintamos a morte dos que fazem parte integrante do nosso grupo espiritual, especialmente aqueles que mais amamos, pelas suas virtudes e pelo grau de afinidade e entendimento, parentes ou no. Com maior razo e impacto, potencializa-se a dor resultante da perda de um filho ou filha, qualquer que seja sua idade, ou as condies que interromperam sua existncia na carne. Nos primeiros momentos da dor, mal percebemos as tentativas de consolo e raramente tomamos conhecimento consciente das palavras de carinho e solidariedade que nos trazem amigos e parentes. Tudo parece irremedivel, a perda se nos afigura definitiva, a dor inconsolvel, a aflio insuportvel.  intil, nesses momentos de intensa crise emocional, desejar que a pessoa estanque as lgrimas e volte a sorrir, por um inadmissvel passe de mgica.  preciso dar tempo ao tempo para que as

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emoes em tumulto se acomodem em outro nvel e possamos dar prosseguimento ao ofcio de viver, por maiores que sejam nossos desencantos e mais profundos os desalentos. H, quase sempre,  nossa volta, outros seres que necessitam de ns, tarefas que solicitam nossa participao, ou atividades que simplesmente no podem ser abandonadas. A vida no tem ponto final, apenas vrgulas, pontos e vrgulas, reticncias, exclamaes e interrogaes, e muitos traos de unio. No somos ilhas, mas partculas, como dizamos atrs, de um s continente ou, se quiser, ftons -- menos ou mais luminosos -- que integram um s foco de luz, pois em Deus vivemos e nos movemos e nele temos nosso ser, como disse, de modo irretocvel, nosso carssimo Paulo de Tarso. No h perdas, ningum morre para sempre, ningum "desaparece", ningum  encaminhado para uma destinao irrecorrvel e final aps a morte. Se o amor nos vinculava a seres que conosco conviviam aqui, os vnculos permanecem aps a morte, muitas vezes fortalecidos e consolidados. Jamais concordo com um esprito sofredor quando me diz que algum o amou, ou que ele amou algum. Dizia Mrio de Andrade que amar  verbo intransitivo. Acho que , tambm, defectivo, pois no tem passado --  s presente e futuro. Quem uma vez amou, continua amando, se  que  amor e no paixo. Ao escrever o belssimo poema constante do captulo 13 de sua Primeira Epstola aos Corntios, Paulo preferiu o termo grego agape, em vez de qualquer outro, para seu primoroso ensaio sobre as excelncias da caridade. Agape, esclarecemos comentaristas da Bblia de Jerusalm, " um amor de benevolncia que quer o bem alheio", e no o amor passional e egosta. To puro e belo  esse tipo de amor fraterno que os tradutores preferiram traduzir agape com o termo caridade. Releiam, porm, o texto, a partir do versculo 4, pondo, em vez de caridade, o termo amor: "O amor  paciente,  benfico; o amor no  invejoso, no  temerrio; no se ensoberbece, no  ambicioso, no busca seus prprios interesses, no se irrita, no suspeita mal, no folga com a injustia, mas folga com a verdade, tudo desculpa, tudo cr, tudo espera, tudo sofre. O amor no acaba nunca." Como poderia acabar se  da prpria essncia de Deus? Por isso, o amor sobrevive com o esprito, pois este tambm no morre jamais, apenas muda de estado, como dizia Lobato. A pessoa que partiu para o outro lado da vida no deixa para sempre aqueles que ficaram; apenas adiantou-se um pouco mais, por alguma razo que, um dia, conheceremos. Quando chegar nossa vez de partir, os que se anteciparem a ns, se de fato nos amaram, l estaro  nossa espera, com o mesmo sorriso de felicidade, o mesmo abrao amigo, o mesmo corao generoso.  s uma questo de tempo e pacincia, aceitao e serenidade. As leis divinas so severas quanto  rebeldia,  impacincia,  revolta,  falta de aceitao daquilo que nos  prescrito.  durssimo para um casal, como certos amigos meus, assistir, impotente,  inexorvel partida do filho nico, belo, inteligente, cheio de vida e esperanas, recm-formado por uma universidade, que se preparava para um futuro promissor. Mesmo conscientes de importantes aspectos do mecanismo das leis divinas,  certo que muito sofreram e foi longo o perodo de recuperao, a retomada da vida naquele ponto sensvel, onde se fez o grande silncio da separao. Esses, contudo, sabiam que somos todos espritos imortais e estamos aqui de passagem, e,

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ainda que sofridos e desalentados, aceitaram, confiantes, a determinao da lei, pois sabem muito bem que ela no  punitiva e sim corretiva. Alguma situao passada, esquecida, mas documentada na memria integral dos espritos, certamente h de explicar a motivao de toda aquela dor. Alm do mais, como ficou dito alhures, neste livro, antes de serem nossos, os filhos so de Deus, que apenas no-los confia, por algum tempo. No somos donos deles, no so propriedade nossa, particular, sobre a qual tenhamos posse e domnio, como dizem as escrituras de cartrio. So companheiros de jornada que vieram caminhar uma parte da estrada conosco e, de repente, se foram, para aguardar-nos um pouco mais adiante, no tempo. Junto ao leito de Magdalena, sua filha adolescente, Lutero chorava e rezava: -- Senhor -- dizia ele --, eu a amo muito, mas se  da Tua vontade tom-la, eu concordo. Como eu gostaria de ficar com ela! Mas, Senhor, que Tua vontade se faa. Nada melhor poderia acontecer-lhe. Em seguida, voltando-se para a menina, agonizante, manteve com ela um pequeno e comovente dilogo: -- Minha querida Magdalena, voc bem que desejaria ficar junto de seu pai, no  mesmo? Voc ir voluntariamente para junto de teu Pai, que est l em cima? -- Sim, querido papai -- respondeu ela. -- Como Deus achar melhor. -- Sim, filha, voc tambm tem um pai no cu, e  para ele que voce ir. Mas a dor tambm estava l, sufocando as consolaes de sua f, e ele, virando-se para os amigos presentes, comentou: -- O esprito  forte, mas a carne  fraca. Amo-a tanto! -- O afeto dos pais -- comentou Melanchthon --  a imagem do amor divino. Se o amor de Deus em relao aos seres humanos  to grande quanto o dos pais pelos seus filhos, pode-se dizer que tal amor  uma chama. Quando, afinal, a menina partiu, s nove horas da manh do dia seguinte, Lutero comentou, sufocado pelas lgrimas: -- Sinto-me to feliz em esprito, mas muito triste segundo a carne. Ai de mim, a carne recusa-se a concordar. A separao  muito dolorosa. No  admirvel saber-se que, de tanto haver sofrido, ela est, agora, em paz, em um lugar excelente? Mesmo convictos da continuidade da vida aps a morte do corpo, no podemos simplesmente ignorar a dor, como quem desliga um circuito eltrico com o mero toque de um interruptor. O esprito sabe e quer, mas, como lembrou Lutero, a carne  fraca e discorda, e por isso a viso atravs dela fica nublada pelas lgrimas. Lembro-me de estar em situao semelhante vrias vezes, e se ainda viver mais algum tempo poderei confrontar-me de novo com essa realidade. Uma dessas oportunidades foi quando morreu minha av. Estava bem velhinha, a pobre querida, e um tanto incerta nos seus passos, mas lcida e participante. Sempre que ia ver minha gente, a primeira visita, depois dos cumprimentos da chegada, era ao seu quartinho quieto e limpssimo. Ela estaria, usualmente, com uma pea de costura ou de croch nas mos, muito junto aos olhos, mas sem culos, pois jamais precisou deles. Tomava-lhe a bno, beijando-lhe a mo magrinha e elegante, e por ali

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ficava a conversar com ela e podia ver o quanto se sentia feliz em estar comigo e saber que eu a amava. Eu  que no imaginava o tamanho do vazio que sua partida deixaria em meu espao interior. Ajudei a levar seu leve corpo cansado ao cemitrio e fiquei um pouco mais, depois que os outros se retiraram. Queria orar em silncio por ela. Mas a prece achou de vir sob forma de lgrimas, que me escorriam, sem cessar, pelo rosto abaixo, suscitadas por um profundo sentimento de saudade antecipada. No tinha, porm, o sabor amargo da revolta. Como dissera Lutero, Deus a queria de volta, e quem era eu para dizer que no? Passado aquele momento de emoo, retirei-me dali, confiante e tranqilo. Ela estava em boas mos, "na mo de Deus, na Sua mo direita", como escreveu Anthero de Quental. No h, pois, palavra de consolo ante a partida de um ente querido, apenas a de solidariedade, a da ternura fraterna, O consolo vir depois, quando entendermos e aceitarmos a morte pelo que realmente  -- ou seja, breve separao, nada mais que isso. Uma verdade nem sempre reconhecida poder abreviar esse perodo de angstia.  a de que a aflio dos que ficam e o inconformismo do desespero repercutem, como espinhos envenenados, no corao daquele que partiu. E esse o unnime testemunho das mensagens pstumas. Tanto quanto a dor contida  testemunho do amor, a aflio do desespero, vizinho da rebeldia, constitui redobrada angstia para o que se foi. So lgrimas, essas, que em vez de levarem uma mensagem de consolo e saudade ao esprito revolvem-se em correntes de ao que o prendem aos desenganos e frustraes da Terra, e criam obstculos ao prosseguimento de sua jornada. Encontramos, s vezes, um tipo exaltado de ligao afetiva que pouco falta -- quando falta -- para ser sentimento de posse, como se Deus no tivesse o direito de determinar, atravs do infalvel mecanismo de suas leis, a melhor maneira de conduzir-nos pelos roteiros da evoluo.  como se o pai e a me desesperados reclamassem de Deus por ter tido a "ousadia" de priv-los da companhia de um filho ou filha. Afinal de contas, ho de pensar, ela era minha filha, ou ele era meu filho! Outros tantos, informados -- e no muito bem -- da possibilidade de intercmbio com os espritos, querem logo, a toda fora, saber notcias do ente que partiu. E se nada conseguem, ou se o que conseguem no os convence, redobram as reclamaes e se revoltam contra Deus e contra as religies em geral que, no seu entender, de nada lhes serviram na hora da dor. No entanto as coisas no se passam assim. Como muito bem costuma dizer nosso querido Chico Xavier, a ligao com o mundo pstumo s funciona de l para c, e quando possvel e permitido. No se pode exigir, daqui, que nossos "mortos" nos falem a qualquer momento que desejarmos, como quem faz uma ligao internacional pelo sistema DDI. O mundo espiritual tem suas ordenaes e leis prprias, respeitveis e respeitadas. O trabalho desenvolvido pelo Chico, na fase final de sua longa e fecunda existncia, voltou-se para esse aspecto da vida -- o da palavra de consolo. So incontveis os depoimentos de seres, principalmente jovens e, entre estes, com predominncia os que morreram em acidentes de trnsito. No  s aproximar-se a me inconsolvel, do Chico, para que ele mande chamar o esprito do filho morto e o obrigue a dar uma mensagem, na hora.

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H uma disciplina a ser considerada, um sistema de prioridades e possibilidades a observar. No h como fazer exigncias, reclamar ateno, ignorar empecilhos ou impor condies. Os testemunhos podem vir, e viro, quando possvel, sob normas que ignoramos, segundo um contexto que desconhecemos, em suas mincias e disciplina. Em muitos e muitos casos, temos de nos contentar com a convico de que o ser que partiu continua vivo, consciente e feliz (ou infeliz), segundo suas prprias condies espirituais. No agravemos sua situao de mal-estar nem perturbemos sua tranqilidade com o incontrolado e rebelde desespero. Infinitamente mais inteligente e humano  orar por ele ou ela, em paz, ainda que com saudade. A prece  sedativo para a alma que ora, tanto quanto para aquela que recebe suas vibraes. O que desejam de ns os espritos que se foram  que possamos dar prosseguimento  nossa vida, realizando-nos na prtica do bem e do amor ao prximo, para que um dia possamos estar juntos novamente, mas no com a possessiva exclusividade dos egostas. Ningum  de ningum, porque somos todos de Deus. O filho de hoje poder ter sido o pai ou o irmo de uma vida passada, ou de uma existncia que ainda est nas brumas do futuro. No h separaes para aqueles que se amam, mas h, sim, para aqueles que se julgam proprietrios dos outros, apenas porque lhes proporcionaram um corpo fsico para viverem por algum tempo na Terra. Por isso, dizia Edgar Cayce, o sensitivo americano, que "o amor no  possessivo, ele apenas ".

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27 "AT UM DIA!"
QUERIDA LEFFORA E CARO LEITOR,  chegada a hora de nos despedirmos. Pelo menos por algum tempo. Nunca se sabe onde e quando iremos encontrar uns com os outros novamente, mesmo porque, comoj foi dito pginas atrs, a vidajamais se utiliza do ponto final. Nosso livro no foi concebido e realizado com o propsito de resolver tdos os problemas possveis nesta rea to ampla e complexa, ou de responder a todas as perguntas formulveis, mesmo porque no teramos todas as respostas. Limitou-se a ser uma reflexo acerca da infncia do ser humano na Terra, e que ainda vemos envolvida em denso vu de equvocos. Como pudemos observar, temos a respeito de tudo isso muitas coisas para desaprender e inmeras outras para aprender. Dificilmente poderemos botar mveis novos na casa em que moramos --nossa mente --, a no ser que se desocupe espao, que antigas peas inservveis esto atravancando indevidamente. Mas a renovao no consiste apenas em desfazer-nos de tudo o que possuamos para adquirir tudo novo em folha. Para certos aspectos, basta nova disposio nos arranjos ou restaurao das peas antigas que ainda podem ter serventia. Sabemos, por exemplo, de remotas crenas, que o ser humano  dotado de alma e que essa alma  imortal, ou, pelo menos, que sobrevive  morte do corpo que ocupa na Terra. Tudo bem. H, porm, um mvel imprestvel obstruindo a sala, num dos seus pontos mais importantes --o de que essa alma  criada no momento da concepo ou do nascimento, quando em verdade ela j existia antes, em outras vidas e, certamente, voltar mais vezes, em futuras existncias na carne. O conceito da responsabilidade pessoal de todos os seres pelos atos que praticam pode e deve continuar compondo nosso mobilirio intelectual, mas tem de passar por certas alteraes e modernizaes. No se responde, com a condenao eterna, ao cabo de uma s vida e de maneira irrecorrvel, pelos erros dessa existncia. Como, tambm, no vamos direto para o cu, por mais perfeita que tenha sido a vida, do ponto de vista humano. Mesmo porque o cu tambm  pea que s nos pode continuar servindo se passar por boa restaurao. Oportunidades de recuperao nos so incansavelmente concedidas pelas leis divinas. Se a ns o Cristo recomendou perdoar setenta vezes sete, quantas vezes nos perdoaria Deus? A resposta : sempre. Acontece que tambm o conceito de perdo precisa de umas escovadelas e talvez de um estofamento novo, porque perdoar no apagar o erro cometido com um passe de mgica. A mgica  iluso e as leis so realistas e objetivas. O perdo, que as leis nos concedem, expressa-se em oportunidade de fazer de novo aquilo que fizemos errado. At aprender. Morrer no  tragdia alguma e quase sempre -- se o procedimento da pessoa foi satisfatrio, mesmo dentro de suas bvias limitaes -- um momento de libertao e de reencontro com inesquecveis amores. Nascer  que  problemtico, porque trazemos programas e tarefas, obrigaes e compromissos que nem sempre conseguimos cumprir de maneira adequada, quando no os agravamos com novos erros. Entre vivos e mortos, ou seja, entre pessoas vivendo na carne e pessoas que vivem no mundo pstumo, h um intercmbio muito mais intenso e ativo do

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que suspeitamos, ainda que dele nem sempre tomemos conhecimento consciente. Pessoas dotadas de faculdades especiais podem servir de intermedirias entre essas duas faces da vida, pondo em ao um processo que nos mostra importantes aspectos das condies que nos aguardam do lado de l. Sempre  bom lembrar, porm, que tudo  vida, tanto deste lado como do outro. E que os "mortos" so pessoas, como ns. As crianas so gente, tambm. Pessoas adultas, vividas, experimentadas e dotadas, s vezes, de maior capacidade intelectual e maior bagagem cultural do que muitos de ns. A dificuldade que experimentam, nos primeiros anos de vida na carne,  apenas a de movimentar satisfatoriamente sua maquininha de viver na Terra, que s fica "pronta" para funcionar a pela adolescncia e, nas suas melhores condies, l pela maturidade. As limitaes demonstradas pelas crianas, portanto, no so devidas  precariedade de seus espritos, mas s deficincias do instrumento de que esto se utilizando para viver na Terra, ou seja, seus corpos fsicos. No poucos anos so consumidos em adaptar-se a esse corpo,  espera de que possa responder adequadamente aos comandos da mente que a ele se acoplou, quando o esprito dele se apossou no incio da gestao. O aprendizado  lento e difcil, pois envolve muitas complexidades, ditadas pela necessidade de adaptao ao meio, desenvolvimento de um correto sistema de comumcao, formao cultural, recuperao de habilidades fsicas e mentais, bem como uma tcnica de convivncia com os seres junto aos quais fomos colocados. Os mecanismos da vida so sutis e inteligentes. Na formao do corpo fsico pode-se observar uma recapitulao de multimilenares conquistas biolgicas. E como se o corpo repassasse, em cerca de nove meses, todos os milnios de sua experincia filogentica, desde que, no dizer de Lyall Watson, a vida aprendeu a duplicar-se, ou seja, a reproduzir-se. Se Watson no se aborrece comigo, eu diria de outra maneira: no foi a vida que aprendeu o processo da duplicao, foi ela que o ensinou aos seres, porque tinha sobre todos ns planos que nem de leve poderamos imaginar, pois no dispnhamos, sequer, de imaginao. Tambm o esprito parece fazer uma espcie de recapitulao do seu processo evolutivo. Embora venha para a existncia corporal com todo seu potencial devidamente preservado e pronto para interagir com o meio, esse conhecimento e essa experincia pregressa ficam como que segregados em compartimento fechado, mas no de todo inacessvel. Ele precisa de uma oportunidade, de um recomeo, como se recm-criado, simples e ignorante, como dizem nossos instrutores, o que vale dizer, em estado muito semelhante ao de pureza e inocncia que se costuma atribuir s crianas. Talvez tenha sido por isso queJesus recomendou aos discpulos que no impedissem que viessem a ele as crianas, porque delas era o Reino de Deus. Regredido  sua infncia espiritual, o esprito costuma ser simples, puro, ingnuo, espontneo e autntico. Est na fase em que se pe ao alcance de alguma influncia, seja num sentido ou noutro, isto , para o bem ou no. Muito do sucesso ou fracasso de tais influncias vai depender das estruturas e matrizes comportamentais que a criana traga consigo, como esprito preexistente que . Em intensidade maior ou menor, estaremos sempre abertos a certo grau de influncia alheia, mas em nenhuma fase  to evidente essa

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predisposio como na infncia. Da a grave responsabilidade de pais, tutores, orientadores e educadores de crianas, que podero ser estimuladas a dar importante passo  frente, desenvolvendo faculdades e potencialidades que trazem em si mesmas, como tambm podero estacionar na ociosidade, ou at mesmo recair em situaes que j poderiam ter sido superadas se lhes fossem incutidos os adequados hbitos de vida, as motivaes corretas, o sadio propsito de caminhar no sentido da realizao pessoal, como esprito, na ampla e luminosa perspectiva do processo evolutivo.  da maior importncia, em tudo isso, a presena de Deus, no como mero conceito teolgico, ou necessidade de crer e convenincia de pertencer a esta ou quela instituio religiosa, mas como convico, como princpio ordenador de toda a existncia, essncia mesma do processo da vida. No temos de ser, necessariamente, cristos, muulmanos, budistas ou judeus para "salvar" nossa alma, de ir ao encontro das huris, de alcanar o nirvana ou de nos aninharmos no seio de Abrao. Tudo isso so imperfeitas imagens, maneiras inadequadas de figurar uma realidade nica -- a da perfeio espiritual, que Jesus conceituou como sendo a realizao do Reino de Deus em ns. Os livros sagrados de todas as religies dignas de seu nome e tradio contm princpios aproveitveis, mas no  lendo tais livros, como se fossem meros tratados de filosofia ou praticando uma bateria de ritos e posturas, que vamos chegar ao estado de perfeio que a todos nos aguarda.  praticando mesmo, com convico, as singelas leis do amor fraterno, pois o universo  uma s e imensa fraternidade, distribuda em incontveis comunidades de seres inteligentes, espalhados pelo cosmo afora, de galxia em galxia. Teramos, pois, muitas perguntas a colocar em debate. A belssima aventura de viver apresenta inmeras facetas e aspectos. Um de tais aspectos , justamente, o estimulante esforo da busca. Um esprito amigo, dotado de poderosa inteligncia e rico de conhecimentos confessou-me, certa vez, que, longe de sentir-se frustrado pelo que ainda ignorava, a respeito das maravilhas da vida, mais fascinado se sentira perante as belezas que ainda tem a aprender nos imensos livros do infinito, mesmo porque ele, como ns, aqui, levava consigo mais perguntas do que respostas. Viver nunca ser um ofcio rotineiro. No foi nosso propsito, por isso, ensinar como so as crianas, como devem ser encaminhadas ou como podem ser desencaminhadas por nossa incria: o objetivo foi o de questionarmo-nos juntos, trocar idias, suscitar a doce nsia de aprender mais, de decifrar outros enigmas da vida, ampliando o espao do conhecimento, sempre conquistado pacificamente ao territrio desconhecido da ignorncia, onde permanece a imensa reserva do saber futuro. Se posso pedir-lhe algo, leitor,  que continue pensando, questionando e meditando. Se soubermos perguntar, com verdadeiro propsito de aprender e com a dose certa de humildade, a vida ir respondendo, ou, para dizer a mesma coisa de outra maneira, Deus em ns responde com a luz, fazendo recuar as sombras.  assim que podemos ver o quanto  belo e vasto o mundo que Ele fez para ns e que no estvamos percebendo precisamente porque a sombra estava em ns, no no mundo. Como somos todos companheiros de jornada e a vida  um modo de

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viajar -. e no uma estao, como disse algum --,  provvel que nos encontremos por a, durante a viagem. Ou que j nos tenhamos encontrado alhures, no passado. At um dia, portanto... *** PS. -- Alguns aspectos deixaram de ser aqui considerados, em primeiro lugar, para no avolumar demais o livro; em segundo, porque foram tratados em outros estudos meus, ou alheios. Ocorre-me lembrar quatro de tais aspectos: a educao, a famlia, a sexualidade e as drogas, que tm, todos, muito a ver com a temtica deste livro. Ao leitor interessado recomendo o livro do querido amigo e companheiro de ideal Deolindo Amorim, O espiritismo e os problemas humanos, para o qual escrevi os captulos finais, precisamente sobre os temas acima mencionados.  preciso no esquecer, contudo, que aprendemos mesmo abrindo o livro supremo da prpria vida, para que ela mesma nos revele seus mistrios...

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28 O OFCIO DE VIVER
OFICIALMENTE, ESTE LIVRO terminou no captulo anterior, no qual at nos despedimos, o leitor e eu. Um problema, contudo, me restou ainda, como que "engastalhado" nos canais por onde circulam os pensamentos, no sistema que o amigo espiritual referido alhures caracterizou como sendo o condutor, sem chegar especificamente ao expressor. Resolvi examin-lo de perto e disso preciso dar conta ao leitor, mesmo depois de devidamente despedidos um do outro.  o seguinte. No h dvida de que o leitor e a leitora familiarizados com os aspectos da realidade espiritual abordados neste pequeno debate sintam-se perfeitamente  vontade com as idias aqui ventiladas e com os conceitos colocados sobre a mesa. Acontece que o livro  objeto que circula por toda parte e a todos leva sua mensagem, s vezes potencialmente perturbadora, no sentido de que pode causar certa "desarrumao" em nosso microcosmo pessoal. Nossas idias tm certo arranjo, ao qual estamos acostumados. Sabemos perfeitamente onde encontrar isto ou aquilo e como caminhar pelos corredores e aposentos da mente, com a segurana da pessoa que, aps viver muitos anos numa casa,  capaz de achar at um livro em determinada estante em plena escurido, porque tudo lhe  familiar. De repente algum se mete em nossa casa, muda tudo de posio e troca at a serventia dos cmodos, levando os mveis do quarto de dormir para a sala de almoo e a biblioteca para a copa, ou os estofados para o jardim. Como reordenar toda essa catica situao?  justo, pois, considerar o caso daqueles leitores inteligentes e abertos a novas idias e propostas mas que no haviam ainda pensado na possibilidade de tais coisas serem mesmo verdadeiras, ou, pelo menos, no haviam pensado nisso a srio, como elemento vital da ordenao de suas vidas e na maneira de considerar as crianas que nos cercam -- filhos, netos, sobrinhos ou apenas de famlias amigas e conhecidas. Ento,  verdade mesmo que somos todos seres preexistentes? Quer dizer que j vivemos antes e at podemos ter conhecido nossos pais, irmos e amigos de outras existncias? Quer dizer, ento, que a morte no  essa coisa definitiva e irrecorrvel que pensvamos ser? Ser que estou na religio errada e devo mudar toda a minha filosofia de vida? Vamos com calma "leitor leitora." Se seu sistema interno de aferir os valores da vida estiver mesmo defasado com relao aos conceitos bsicos que expusemos no livro,  certo que voc est precisando de boa reformulao estrutural. Isso, porm, no  o que se costuma chamar sangria desatada, embora constitua, a meu ver, importante prioridade para voc cuidar. Voc no ser a primeira, a nica, nem a ltima pessoa a ver-se, de repente, colocada perante uma realidade da qual no havia ainda suspeitado ou que no havia considerado com a devida ateno. No importa. Vamos por partes. Talvez seja oportuno voltarmos por uns momentos ao precioso livro da eminente dra. Helen Wambach, pois ela teve sob seus cuidados pessoas que tambm passaram por esse perodo de perplexidade. Eu prprio fui testemunha de um episdio desses, atravs de uma

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gravao, na qual a pessoa hipnotizada discorreu, com os detalhes necessrios, sobre uma de suas vidas anteriores e, em seguida, foi despertada e ouviu seu incrvel depoimento. Era um homem de boa cultura geral e tcnica (dentista de profisso), inteligente, sensato e bem-posto na vida, falando de sua prpria encarnao anterior, coisa que nunca lhe passara pela cabea. Alm do mais, como conciliar aquilo com suas crenas e prticas protestantes, ele que, segundo seu prprio relato, fora sacerdote catlico da vez anterior? Costumo dizer que quando no podemos mudar os fatos -- o que, alis, acontece com freqncia -- temos de mudar nossa postura diante deles. Como na conhecida histria de Maom e a montanha. Se a montanha no vem at onde estamos, temos de ir at onde ela est, se  que temos mesmo de galgla. E temos! O universo pesquisado pela dra. Helen Wambach  integrado por um grupo heterogneo de pessoas, ligadas a diferentes sistemas religiosos ou desinteressadas de especulaes desse tipo. Muitas dessas pessoas se viram na contingncia de descrever "impresses que estavam em conflito com suas crenas conscientes". No foram poucas as surpresas e perplexidades. Eu continuava a achar que as informaes que me chegavam  mente (dizia uma pessoa) eram insensatas, mas suas perguntas sucediam-se com rapidez e eu me lembro das minhas respostas. Tinha a impresso de que se eu tivesse mais tempo, as teria respondido de modo diverso, porque elas esto em conflito com aquilo em que creio. Isto  certo. Com tempo para pensar, o consciente interfere e molda as respostas segundo o que a pessoa acha certo, no as deixando sair nos termos em que a informao est emergindo do subconsciente, ou seja, da prpria individualidade espiritual ali presente. A grande maioria de meus pacientes (escreve a dra. Wambach), ao expressarem seus pensamentos a mim, aps a experincia, confessaramse perplexos acerca do material que emergiu e que precisariam de algum tempo para digerir aquilo tudo. (Destaque meu.) Conscientizei-me de como sou um mistrio para mim mesma (diz outra senhora) e fiquei a meditar sobre as potencialidades contidas em meu esquecido passado (...) Como pode o leitor perceber, no estamos aqui cuidando de vagas e passageiras impresses, mas de realidades insuspeitadas, que mexem com as profundezas do nosso ser e trazem consigo uma forte carga emocional. Tenho por hbito destacar, em experincias desse tipo, o importante fator da emoo suscitada, e observo, com alegria, que tambm a dra. Wambach o valoriza adequadamente.  dificil, seno impossvel, fingir emoes de tal intensidade. Elas so autenticadoras, mesmo porque ningum est ali para armar uma farsa ou representar um papel. Para iludir a quem? A si mesmo? Ainda mais que em expressiva percentagem, a realidade contemplada pela pessoa no confere com aquela que ela acredita ser verdadeira. Acreditar que as coisas se passam desta ou

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daquela maneira  bem diferente de observar como, de fato, ocorrem. Por tudo isso a dra. Wambach informa que, aps as experincias de regresso, seus pacientes apresentavam-se um tanto pensativos. "Tinham todos", escreve ela, "um olhar distante (...), pareciam notavelmente pensativos e contidos (...)"  que acabavam de regressar, como disse uma delas, de "uma longussima jornada" por insuspeitada regio de si mesmos. *** Insisto em dizer ao caro leitor e  querida leitora, nestas linhas finais, que este livro no foi elaborado com inteno proselitista, ou seja, com o objetivo de atra-los para as fileiras do movimento esprita. No sou muito chegado a essas questes, meramente estatsticas, mesmo porqu, como tambm j foi dito, o espiritismo no se considera proprietrio dos conceitos bsicos em que se apiam suas estruturas doutrinrias. A verdade no tem dono, porque  de todos. , portanto, sua tambm, "leitor leitora." O importante na tarefa de administrar o relacionamento "pais filhos" est na ntida convico da realidade espiritual. Ou seja, a de que trazemos em ns um vasto e pouco explorado universo inespacial extremamente rico em potencialidades, cujo conhecimento muito poder ajudar-nos a entender melhor aquilo a que costumo chamar de o oficio de viver. Outro conceito favorito meu  este: s progredimos substituindo idias obsoletas e inservveis por idias novas, ainda que, de incio, um tanto traumticas ao nosso sistema pessoal de pensar e viver. Eu costumava dizer, tambm, que -- alm de Deus, que  imutvel -- s existe uma coisa permanente na vida:  a mudana. Mas um dia descobri que Herclito havia dito a mesma coisa, e ento perdi o direito de propriedade sobre uma das "minhas" frases prediletas. Enfim, Herclito tambm  um sujeito inteligente e a frase continua vlida. (Ateno para o tempo presente: Herclito , pois continua to vivo quanto voc e eu.) No fundo, podemos sentir certa saudade das antigas e superads idias, que nos pareciam confortveis e definitivas, mas acabamos gostando melhor da nova arrumao, ao verificar que sobrou mais espao para pensar e viver. Pelo menos at que tenhamos de trocar, uma vez mais, velhas peas inteis por novas, e dar-lhes, em nossa mente, disposies ainda mais harmoniosas. Um dia, acabamos surpreendidos com a realidade de estar j vivendo no to sonhado Reino de Deus. Mas, afinal, a vida  isso mesmo: movimento, maturao, realizao, evoluo a desdobrar-se pelo infinito afora... Caro leitor, como voc est cansado de saber, isto no  um livro e sim uma conversa e conversa com amigos no tem fim. Muita coisa aconteceu depois que foi lanada a primeira edio deste texto, em 1989. Eu ficaria frustrado se no lhe contasse que, em 1991, ganhei uma espcie de "diploma de pai". Achei, pois, que era de meu dever partilhar com voc essa alegria. Se voc, por acaso, vislumbrar uma pontinha de orgulho nos meus olhos molhados, que fazer? Afinal, ningum  perfeito e nem de ferro... Vire a pgina e confira.

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29 DIPLOMA DE PAI
CERTAMENTE VOC J VIU Diploma de Me, desses que so vendidos em bancas de jornais, j impressos, e que s precisam ser preenchidos nos lugares certos no Dias das Mes, para entrega quela pessoa muito especial, no seio da qual sua atual existncia comeou. No sei se vocs j viram Diploma de Pai. Se no viram, vero agora, pois tenho um para exibir, rogando-lhes as desculpas pela falta de modstia. Eu o ganhei no dia em que comemoramos, a esposa e eu, 49 anos de casamento. Foi escrito por AnaMaria, aquela mesma pessoinha com a qual este livro comeou.  um dilogo entre o escriba que vos fala e o Pai Eterno. O cenrio  o cu, o ano, 1920. Por ordem do Senhor, Pedro, o querido Pescador de Almas, porteiro perptuo da manso celestial, recebe aquele que seria eu e me leva  presena do Altssimo. Acho at que a Ana-Maria estava por l, escutando discretamente, por trs de alguma nuvem difana, dado que ela reproduziu fielmente a momentosa conversa. Eis o que ela escreveu: E como vai voc, meu filho? Vou muito bem, Senhor. Melhor agora, na Sua presena. "-- Que bom que voc pensa assim. Mas, te chamei aqui porque, voc sabe, voc pediu para voltar e resolvi que voc vai descer dia 5! "-- Dia 5? . L na Terra, tem dia, hora, meses, essas coisas... L existe o tempo. "-- Ah, sei... "-- Bem, voc vai se chamar Hermnio Corra de Miranda; sua me, Helena, e seu pai, Reduzindo, esto te esperando com muita ansiedade. Voc vai ser o primeiro filho desse casal que est muito prximo do meu Amor. "-- Sim, Senhor. "- Seu plano de vida j est, como  de praxe, decidido, seguindo sua prvia solicitao. Mas, naturalmente, voc ter o livre-arbtrio, ou seja, o direito de escolher outro plano, de mudar. "- Sim, Senhor. "-- Voc vai primeiro ser filho. Depois, vai ser afilhado, depois, irmo, depois aluno, e... "- Aluno, Senhor? "-- , aluno e tio, primo, funcionrio, e assim por diante, at ser namorado, noivo e esposo, pra depois ser... PAI. Esta  a mais importante de todas as categorias citadas. "-- PAI, Senhor? Pensei que s o Senhor pudesse ser Pai. "-- Bem, digamos que sou o PAI de todos os pais. "-- Ah, sei... "-- Mas voc tambm vai ser PAI, como disse. Voc pediu trs filhos; duas meninas e um menino. "--  mesmo, Senhor? "-- . Primeiro,  claro, tem a Inez -- aquela que vai ser a eterna companheira, a me de seus filhos. Depois ento, viro a Ana-Maria, a Marta e o Gilberto.

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"-- Ana-Maria, Marta e Gilberto? "-- . Foi o que voc pediu. Vo te dar muito trabalho, muitos problemas, muitas descrenas, muitos desgostos, mas algumas alegrias que compensam muito de tudo isto.  assim que os pais pensam... "- Sei... "-- Naturalmente, que isto s vai comear a acontecer daqui a 23 anos. "-- Naturalmente, Senhor. Vinte e trs anos... "- Mas, como ia dizendo, de tudo o que voc pediu pra ser, ser PAI  o mais difcil l na Terra. E com o passar dos anos, vai ser cada vez pior. "-- Entendo, Senhor... "- No, meu filho, voc no entende. Mas quando chegar a hora voc saber o que fazer; s vezes at com muito sacrificio, renncia, angstia e at revolta. Mas, com muita compreenso. "-- Senhor, me parece difcil demais. Revolta e compreenso? "-- , realmente. Voc  quem sabe. Foi o que me pediu. "-- Estou muito receoso, Senhor. Ser pai, como o Senhor... No vou conseguir. "-- Quem sabe? Daqui a muitos anos, vamos nos encontrar de novo e assim retomaremos esta conversa... "-- Sim, Senhor... Mas, vejo dois envelopes em Suas mos. So para mim? "-- Ah, j ia chegar l. Vamos ver. Este aqui, contm minhas instrues para a sua vida de pai. Aqui esto as solues para todas as situaes que vai enfrentar com Ana-Maria, Marta e Gilberto. Aqui est o que lhes dizer, fazer, aconselhar, ensinar, repreender, incluir, tudo. Vou instalar estas instrues no computador do seu esprito! "-- Computa... o qu, Senhor? "-- Computador? Um dia voc vai saber. Quando chegar a hora de resolver o problema com um dos rebentos,  s voc chamar a memria ej viro todas as MINHAS instrues. Aqui est o programa. "-- Obrigado, Senhor, mas deve haver algum engano, aqui s h uma folha de papel em branco! "- No  engano no, meu filho.  que s os PAIS podem ler o que est a. "- Ah, entendi, Senhor. E o outro envelope? "-- Este contm uma nica palavra. "-- S uma? "-- S uma. E voc s vai poder abrir este envelope no dia em que sentir necessidade de saber uma coisa muito importante. "-- Verdade, Senhor? "-. "-- Mas que coisa  esta? Algo relacionado com os filhos? "-- Sim. Vou explicar. Eu sei o que voc pensar a respeito de seus filhos. Sei o que eles trs pensaro a teu respeito. Mas voc no saber o que eles pensam a teu respeito, como pai. "-Ah... "-- Ento, no dia em que voc quiser saber, abra este envelope. Se pelo menos um deles trs te chamar da palavra escrita aqui, nesta folha, voc ter se aproximado ainda mais de MIM, como... PAI. "-- Sim, Senhor.

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"-- Bem, chegou a hora. Daqui a um segundo, voc no se lembrar de mais nada, por muitos e muitos anos. Vai, Hermnio. Minha bno e boa sorte. "-- Obrigado, Senhor. Vou sentir Sua falta. At a volta..." (O segundo ato se passa na Terra, em 1991. O casal est comemorando 49 anos de unio. Recebo de Ana-Maria, o seguinte recado: ) "-- Pai, abra aquele envelope hoje. Veja se a palavra escrita pelo Senhor, no foi... AMIGO. - Era. *** Assim, este livro, que comeou com Ana-Maria, termina com esta pgina que ela criou com o talento e a emoo de que foi generosamente dotada. Ela assinou o meu Diploma de Pai. Ele me responde a uma das perguntas que eu li nos olhos de Ana-Maria, quando, pela primeira vez, nos encontramos do lado de c da vida. Lembram-se? Ela se perguntava assim: -- Ser que esse sujeito vai ser um bom pai para mim? Com ele, poderei, um dia, me apresentar l em cima, como aquele trabalhador de que falou Paulo, que no se envergonhar do trabalho que realizou por aqui, na Terra. Fim

